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Empresa privada de saneamento reduz desperdício de água pela metade

Bruno Cirillo

Colaboração para o UOL, em São Paulo

05/08/2020 04h00

O sistema de abastecimento de água no Brasil, com a maior parte do volume (70%) gerido por companhias públicas, perde, em média, 38% do produto com vazamentos e ligações clandestinas na distribuição. Em alguns estados, como Roraima, o desperdício chega a 75%, de acordo com dados do setor —a média, na região Norte, é de 60%. O prejuízo causado pelas perdas em todo o país é estimado em R$ 10 bilhões por ano. Empresas privadas conseguem a reduzir o desperdício a menos da metade (16%). As novas regras de saneamento vão permitir a privatização mais ampla de serviços.

Imagine uma montadora que produz dez carros e joga fora quatro. Há duas formas de perda: a física, por vazamentos, e a não física, por roubo de água, com ligações clandestinas e medidores de água descalibrados.
Paula Vilela, pesquisadora da USP (Universidade de São Paulo)

Na Bahia, desperdício de 40% a 50%

Na Bahia, a Embasa, empresa pública de saneamento básico, oferece cobertura para 79% dos domicílios em distribuição de água e 36% dos domicílios em tratamento de esgoto, entre 368 dos 417 municípios baianos. A taxa de desperdício local é de 40% a 50% da água tratada pelas estações da companhia, a maior parte por inadimplência, segundo o secretário estadual de Infraestrutura Hídrica e Saneamento, Leonardo Góes Silva.

Segundo ele, com o novo marco regulatório do Saneamento Básico, sancionado no último dia 15 e que prevê a abertura comercial do setor, a Embasa deve promover a venda de 49% do capital da empresa na Bolsa, para melhorar a eficiência da empresa.

Estamos estudando parcerias no intuito de alavancar investimentos e cumprir as metas estabelecidas no novo marco legal. O Estado brasileiro, sozinho, não me parece capaz de fazer os investimentos necessários para universalizar o acesso aos serviços do setor
Leonardo Góes Silva

Limeira (SP): universalização e desperdício de 1º mundo

Em Limeira (SP), a primeira concessão do setor à iniciativa privada no Brasil, há 25 anos, rendeu a universalização do acesso ao sistema de água e esgoto antes da meta prevista no Plano Nacional de Saneamento Básico (Plansab), de 2013, que prevê tais benefícios para, respectivamente, 99% e 90% da população brasileira até 2033. Atualmente, 35 milhões de brasileiros não têm acesso a água tratada e 100 milhões, às redes de esgoto.

"Em Limeira, já está universalizado", comenta o diretor-regional da BRK Ambiental em São Paulo, Fernando Mangabeira, responsável pela operação no interior paulista. "Agora, estamos aprimorando o tratamento de esgoto, de forma terciária, em função de uma tecnologia holandesa que permite a remoção de 95% dos poluentes."

A companhia está presente em 12 estados e 112 municípios brasileiros, nos quais investe em média R$ 1 bilhão por ano. A média anual de todo o investimento público do setor no país é de R$ 12 bilhões.

O nível de desperdício de água da operação em Limeira é equiparável aos melhores sistemas de tratamento de água do mundo: 16%. No ano passado, a empresa investiu R$ 35 milhões na redução de perdas. Até 2024, pretende investir R$ 250 milhões em todas as operações para manter ou reduzir o desperdício.

Em Campo Grande, desperdício caiu de 57% para 19%

Em Campo Grande (MS), a Aegea, empresa privada presente em 12 estados e 57 cidades, atingiu a universalização do sistema de distribuição de água municipal com R$ 1,2 bilhão em investimentos desde 2010. O desperdício foi reduzido de 57% para 19%. O serviço de esgotamento atende, hoje, 80% da população, segundo o vice-presidente de relações institucionais da companhia, Rogério Tavares.

No mundo inteiro, você tem perdas de água, inclusive no Japão. É impossível reduzir as perdas a zero. Um bom resultado é de 15% a 20%.
Rogério Tavares

"No lado do setor público, depende de quem você está falando. Há perdas na ordem de 60%. Mas também tem perdas parecidas como a nossa de Campo Grande. A perda média é de 38%", lembra.

Procurada pela reportagem, a Sabesp, responsável pelo abastecimento em São Paulo e maior operadora pública do setor no país, não se manifestou até a publicação deste texto.

Eficiência exige fiscalização

Para os especialistas do setor, a abertura comercial que será promovida pelo novo marco regulatório, por meio de parcerias público-privadas (PPPs) e concessões, é a melhor forma de reduzir o desperdício e aumentar a eficiência dos sistemas de distribuição e tratamento de água e esgoto no Brasil.

Hoje, as empresas privadas investem duas vezes mais que as empresas públicas com as mesmas tarifas, o que é um bom indicador de eficiência
Paula Vilela, pesquisadora da USP

Nos sistemas de esgotamento, o problema é a fiscalização do despejo irregular nos rios, segundo o pesquisador Carlos Eduardo Tucci, da UFRJ.

A proporção da carga lançada nos rios continua muito alta. A questão principal não é se a empresa é pública ou privada, mas se o serviço é bom. O que garante se o serviço é bom é fiscalização, com amostragem. Grande parte do serviço público não tem fiscalização. No abastecimento, a segurança é um pouco maior. Mas, no esgoto, esse padrão é baixo.
Carlos Eduardo
Tucci

"O mercado passará por uma transição. A eficiência vai aumentar desde que haja uma boa regulação", declara.