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Inflação se espalha para além dos alimentos e acende alerta para 2021

Filipe Andretta

Do UOL, em São Paulo

24/11/2020 14h53

A prévia da inflação desacelerou a 0,81% em novembro, mas o resultado foi o maior para o mês em cinco anos. Em 12 meses, a alta de preços acumulada é de 4,22%, acima da meta do Banco Central, de 4%. A última vez em que a prévia da inflação acumulada ultrapassou a meta foi em fevereiro (4,21%).

Houve aumento generalizado em novembro, uma vez que a alta de preços, antes concentrada nos alimentos, se espalhou e atingiu todos os grupos de produtos e serviços. Especialistas dizem que não há risco de descontrole da inflação, mas destacam que os mais pobres são os mais prejudicados neste momento. Alertam também que há uma tendência preocupante de aceleração da inflação, que deve adentrar 2021, devido à desvalorização do real, ao endividamento do governo e à falta de matéria-prima para a retomada da economia em 2021.

A meta de inflação do BC é de 4%, com margem de 1,5 ponto percentual para mais ou menos, ou seja, podendo variar entre 5,5% e 2,5%.

No início do mês, o ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou que o Brasil pode "ir para uma hiperinflação muito rápido", se tiver dificuldades para rolar sua dívida. O BC, porém, diz que não há esse risco e que a inflação "está absolutamente sob controle".

Inflação é mais dura com os mais pobres

Apesar de o aumento ter atingido todos os setores na prévia de novembro, os preços dos alimentos e bebidas ainda são os que mais se destacam, com alta de 15,02% em 12 meses. Isso pressiona principalmente a população mais pobre, para quem esses itens têm um peso maior nos gastos domésticos.

Por isso, é comum que pessoas de baixa renda sintam no dia a dia um aumento de preços maior do que o cálculo apresentado pelo IBGE.

"Inflação boa é aquela dentro da meta e distribuída entre os produtos e serviços que as famílias consomem. É um problema quando está muito concentrada em um grupo só, como está em 2020", diz André Braz, economista do Instituto Brasileiro de Economia da FGV.

Poupança da classe média e fim do auxílio emergencial

Braz afirma que parte da classe média conseguiu poupar dinheiro durante a pandemia, porque ficou privada de alguns gastos durante a pandemia, como viagens e atividades de lazer fora de casa.

Com a reabertura gradual das atividades, quem poupou está voltando a consumir, o que pressiona os preços pela lei da oferta e da procura. Por outro lado, ele diz que essa poupança não deve se sustentar por muito tempo, o que pode aliviar a alta de preços nos próximos meses.

O fim do auxílio emergencial também pode ajudar a segurar a inflação, embora a redução da renda afete justamente os mais pobres, que mais sofrem com a alta de preços. O benefício injetou cerca de R$ 300 bilhões na economia brasileira em 2020, mas não há previsão de renovação para o ano que vem.

Escola e aluguel podem acelerar a inflação

A inflação da educação, que ficou em 0,97% em 12 meses, no IPCA-15, pode acelerar a partir de dezembro, com os reajustes das mensalidades escolares.

"A gente sabe que a inflação por parte de escolas virá mais salgada, assim como o aluguel [de imóveis]", diz Fernanda Consorte, economista-chefe do Ourinvest.

Os gastos com habitação registram alta acumulada de 1,83% em 12 meses no IPCA-15, puxados por aluguel e taxas (2,92%), reparos (4,6%) e artigos de limpeza (3,68%).

Os contratos de aluguel são, em geral, ajustados por outro índice, o IGP-M, que acumula alta de 24,25% em 12 meses na segunda prévia de novembro, muito acima da inflação oficial.

Esses fatores devem ser decisivos para determinar a inflação fechada de 2020.

Desvalorização do real influencia

Um dos principais fatores que puxam a inflação neste ano, segundo economistas, é o aumento de custos de produção no Brasil. Com valorização do dólar neste ano, matérias-primas importadas passaram a ficar mais caras.

Além disso, produtores de commodities brasileiros têm preferido exportar para ganhar em dólar a vender no mercado interno, o que diminui a oferta de produtos no Brasil e pressiona a inflação.

Endividamento público

Braz também destaca como fator de preocupação o endividamento público, que subiu devido aos gastos do governo para mitigar os efeitos da pandemia. Ele diz que o país precisa recuperar a credibilidade no mercado internacional, apresentando um plano claro de como pretende controlar o endividamento.

Para Fernanda, a tendência de inflação e o cenário ruim das contas públicas devem levar a um aumento dos juros em 2021.

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