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Preço alto fará aposentada de 75 anos ficar sem plano de saúde na pandemia

Marcela Lemos

Colaboração para o UOL, do Rio

25/01/2021 04h00

No ano passado, por causa da pandemia de coronavírus, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) suspendeu os reajustes dos planos de saúde. Mas agora usuários começaram a receber neste mês os boletos com os valores atualizados. Como os reajustes de 2020 ficaram represados, a conta está alta e muita gente não consegue manter o compromisso.

Há quem se prepara para cancelar o serviço. É o caso da aposentada Maria da Glória Alves, 75, de Niterói (RJ). Ganhando um salário mínimo por mês, ela viu o valor do plano subir de R$ 680 para R$ 765 neste ano, ou seja, um aumento de 12,5% (R$ 85). Desse valor, R$ 27,75 é referente à atualização que não ocorreu em 2020. Com a filha desempregada, a ex-cozinheira disse ao UOL que, pela primeira vez, não será mais possível manter o plano que tinha desde 1995.

Maria da Glória Alves gasta mais da metade do salário com plano de saúde; pretende cancelar o serviço - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Maria da Glória Alves gasta mais da metade do salário com plano de saúde; pretende cancelar o serviço
Imagem: Arquivo pessoal

"Entregar na mão de Deus"

"Vou aproveitar para fazer tudo quanto é exame agora, pois não está dando mais para pagar. Minha filha me ajudava a pagar, mas ela está desempregada. Eu ganho pouco mais de R$ 1.000, não tem como pagar mais de R$ 700 de plano. Eu vou entregar na mão de Deus".

Maria da Glória se aposentou há dez anos, mas só parou de trabalhar em 2019 devido a um problema no joelho que já resultou em duas cirurgias. Por fazer uso de medicamentos controlados e pertencer ao grupo de risco para a covid-19, ela afirma estar apreensiva com o encerramento do contrato.

Problema no coração, pressão alta

"Faço acompanhamento cardiológico, tenho pressão alta, tomo remédio controlado, sou do grupo de risco e agora não posso mais manter e vou ter que abrir mão do plano", declarou a idosa.

Maria da Glória é usuária da Unimed São Gonçalo/Niterói com direito a quarto em caso de internação. O reajuste acumulado referente ao ano passado ficará em R$ 333, que deverão ser desembolsados mesmo em caso de cancelamento, pois a cobrança é referente ao período em que o plano estava ativo, esclareceu a Proteste (Associação Brasileira de Defesa do Consumidor).

Tentar negociar com plano

No entanto, o economista Gilberto Braga avalia que, antes de cancelar, uma alternativa para manter o plano é o usuário renegociar com a operadora.

"Uma alternativa seria trocar o plano para uma cobertura inferior e no futuro retornar para a categoria superior", disse o professor do Ibmec.

Na casa da família da gerente comercial Talita Oliveira, os planos já haviam sido trocados em janeiro de 2020 devido ao alto valor.

De R$ 4.000 para R$ 6.000

Ela, com 35 anos, a mãe, com 60, os dois filhos, de três e 16 anos, e a irmã, de 39, viram o valor total do plano da Amil subir de R$ 4.000 para R$ 6.000 em janeiro. Apesar de o valor pesar no orçamento, a família tem medo de cancelar o serviço por causa dos avanços nos números de internações provocados pela pandemia.

"O valor onera muito a família, pois chega a ser um terço do nosso salário. É bem alto principalmente o da minha mãe, que é idosa e ganha pensão. A gente acaba tendo que ajudar minha mãe financeiramente, pois o valor que ela ganha vai quase metade no plano de saúde. Temos medo de cancelar neste momento de pandemia", disse Talita ao UOL.

Reajuste na maior pandemia do século

O reajuste "duplo" dos planos de saúde acontece em meio a um cenário de pandemia, desemprego na casa dos 14 milhões, reduções salariais e de maior alta da inflação registrada desde 2016.

Apesar do cenário, o aumento nos planos de saúde ficou acima da inflação —o que é considerado abusivo para muitos usuários. É o caso do jornalista José Luís Machado, cliente da Unimed Rio.

Seu plano de saúde subiu neste ano para R$ 1.745,81. Até ano passado, custava R$ 1.559. Desse total, o valor retroativo a 2020 foi de 12 vezes de R$ 46,58.

"Em um momento de pandemia, em que o preço dos remédios subiu, eles metem a mão, né? Eu mesmo tenho esse plano para ter acesso a um hospital, pois sou grupo de risco, e aí a gente acaba se submetendo a pagar um plano de saúde para não correr o risco de ficar sem hospital, principalmente na pandemia. É um absurdo haver aumentos maiores que a inflação", afirmou.

"Fui pega de surpresa"

Cliente da Assim Saúde, a família de Rita de Cassia, que completará 60 anos em março, paga R$ 982 pelo plano e disse que até hoje não recebeu nenhum comunicado avisando sobre a nova cobrança. O boleto de janeiro ainda não foi atualizado.

"Eu não recebi nenhum aviso a respeito desse aumento, nem valor. Fui pega de surpresa e agora não sei quanto vai vir a mais. Já pago um valor alto e não planejei meu orçamento para pagar essa nova cobrança", disse Carolina Barreto, filha de Rita e responsável pelo pagamento do plano da mãe.

Procurada, a operadora Assim Saúde disse que o plano de Rita foi feito através de uma administradora, que é a responsável por avisar os clientes. "Ela será cobrada em 12 parcelas a partir da notificação", informou a empresa.

Helena Maria cancelou o plano do neto ano passado e se disse surpresa com a cobrança enviada cinco meses depois - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Helena Maria cancelou o plano do neto em 2020 e se disse surpresa com a cobrança enviada cinco meses depois
Imagem: Arquivo pessoal

Cobrança adicional

Quem também foi pega de surpresa foi uma ex-usuária do plano SulAmérica. Helena Maria era quem pagava o plano de saúde para o neto de 10 anos. No entanto, o plano que custava no ano passado R$ 630 foi cancelado. Em dezembro, a operadora comunicou à família que seriam cobrados agora, em janeiro, cerca R$ 84, parcelados, referentes ao período que o plano esteve ativo em 2020.

"Um plano de R$ 630 para uma criança que quase não utiliza é um valor extremamente alto. Aí, você cancela por falta de condições de pagar e no ano seguinte recebe mais uma cobrança do plano de saúde, em um momento em que tudo está extremamente caro", disse a avó.

Mudar de plano é difícil

Rafael Robba, advogado especialista em direito à saúde e sócio do escritório Vilhena Silva Advogados, explica que as maiores dificuldades dos usuários que tentam fugir dos aumentos é conseguir portabilidade para outras operadoras de saúde e também a redução para serviços mais baratos.

"Os usuários ficam com poucas alternativas diante dessa situação, principalmente idosos ou pacientes em tratamento que têm dificuldade de serem aceitos em novas operadoras. Acontece de algumas operadoras impedirem a portabilidade ou redução da categoria do plano, e esses usuários acabam precisando buscar a Justiça contra essa conduta abusiva".

No momento, a maior queixa de beneficiários de planos de saúde na ANS é a negativa de exames para diagnósticos de covid-19.