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Para governo, emprego cresce em alta velocidade, mas analistas divergem

Mesmo com demissões no meio do ano, mercado formal fechou 2020 com criação de vagas - Getty Images
Mesmo com demissões no meio do ano, mercado formal fechou 2020 com criação de vagas Imagem: Getty Images

Giulia Fontes

Do UOL, em São Paulo

26/02/2021 04h00Atualizada em 26/02/2021 13h04

O Ministério da Economia divulgou nota informativa em que avalia que a recuperação do mercado de trabalho está acontecendo em "V". Ou seja, houve uma queda rápida, mas também está subindo depressa (como sugere o desenho da letra "V").

O otimismo, porém, não é consenso entre especialistas. Segundo analistas, 2021 deve submeter o mercado formal a uma "prova de fogo", já que as empresas terão que se virar para manter funcionários sem programas de auxílio do governo.

Qual é a avaliação do Ministério da Economia

Na nota técnica, o Ministério da Economia dá destaque aos empregos com carteira assinada. Dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) - sistema do governo que colhe dados sobre o mercado de trabalho formal - mostram que, mesmo com uma queda acentuada no número de vagas em abril, o país acabou fechando 2020 com criação de 142.690 empregos com carteira assinada.

A avaliação do ministério é que o resultado positivo ocorreu por causa de ações do governo federal. No caso do mercado formal, o destaque é o Programa Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda, que permitiu a redução de jornada ou a suspensão do contrato de funcionários com carteira assinada.

Segundo o Ministério da Economia, o programa evitou a demissão de 11 milhões de trabalhadores.

Programa do governo deu estabilidade a empregados

O programa para a redução de jornada dos trabalhadores acabou em dezembro do ano passado. Pelas regras, funcionários que tivessem seu salário reduzido ou o contrato suspenso recebiam um benefício emergencial do governo, para complementar a renda.

A iniciativa também previa que os trabalhadores atingidos teriam estabilidade após o fim dos acordos. Se um empregado teve o contrato suspenso por três meses, por exemplo, ele não poderia ser demitido nem durante o período do acordo nem nos três meses subsequentes.

Fim da garantia de emprego pode aumentar demissões

Com o prolongamento da pandemia, empresários e entidades pediram que o Ministério da Economia prorrogasse a medida. Mas não há nada certo: questionada sobre uma possível retomada do programa, a pasta afirmou que a Secretaria Especial de Previdência e Trabalho "segue trabalhando nos estudos para um programa de manutenção de emprego e renda em novos moldes".

"O programa aparentemente foi um sucesso. Ao manter o emprego durante alguns meses, o governo criou condições para que as empresas pudessem sair do sufoco", afirma João Saboia, professor emérito do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Mas, como o programa acabou em dezembro, ainda há trabalhadores com estabilidade por conta dos acordos. E, quando a garantia acabar, não há certeza de que esses empregos serão mantidos.

Acontece que, dependendo do setor, as empresas não necessariamente vão manter esses funcionários depois do período de estabilidade. Não havendo recuperação econômica, o programa pode simplesmente falhar agora, já que as pessoas beneficiadas podem estar sendo demitidas aos poucos

João Saboia, professor emérito da UFRJ

Sem ajuda do governo, economista vê "prova de fogo" para empresas

Para Juliana Inhasz, professora do Insper, o relatório é otimista e, em alguns pontos, não parece refletir "o Brasil em que a gente vive".

O documento fala em uma recuperação em V, e já está muito nítido que não é bem assim. Pode acontecer de esse número [de empregos formais] estar refletindo o crescimento de alguns poucos setores, não manifestando eventuais demissões que podem ocorrer a partir de agora, com o fim do programa [de manutenção dos empregos

Juliana Inhasz, professora do Insper

Segundo Inhasz, os próximos meses devem ser a "prova de fogo" para o mercado formal. "Se esse aumento [de vagas] se sustentar é porque a economia realmente está crescendo. Agora é que as empresas vão ter que mostrar como seguirão nesse cenário", afirma.

Vacinação e recuperação econômica são chave para retomada do emprego

José Ferreira Savoia, professor titular da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da Universidade de São Paulo (USP), vê o cenário com mais otimismo. Segundo ele, a geração de empregos formais deve continuar acontecendo, desde que as dificuldades da pandemia sejam superadas.

Vamos ter que superar isso vacinando as pessoas, produzindo segurança para o retorno às atividades presenciais e à livre circulação

José Ferreira Savoia, professor titular da FEA/USP

Nesta quarta-feira (24), a Sondagem Industrial, da Confederação Nacional da Indústria, por exemplo, apresentou um dado positivo. Segundo a pesquisa, em janeiro, as contratações superaram as demissões na indústria pela primeira vez em dez anos.

Segundo dados do IBGE divulgados nesta sexta-feira (26), a taxa de desemprego ficou em 13,9% no trimestre entre outubro e dezembro de 2020. A taxa média anual ficou em 13,5% em 2020 - a maior da série histórica, iniciada em 2012.

Questionado pelo UOL a respeito das críticas ao relatório, o Ministério da Economia disse que não vai comentar o assunto.