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Dólar a R$ 5 e alta do PIB? Guedes acumula previsões erradas na pandemia

Vinícius Pereira

Colaboração para o UOL, de São Paulo

25/03/2021 04h00

Desde o início da pandemia de covid-19, o ministro da Economia, Paulo Guedes, coleciona afirmações que, mais tarde, se demonstraram irreais, principalmente relacionadas ao combate ao vírus e à recuperação econômica do país em meio à crise.

"Com R$ 3 bilhões, R$ 4 bilhões ou R$ 5 bilhões a gente aniquila o coronavírus" ou "Se fizer muita besteira, o dólar pode ir a R$ 5" já habitam o imaginário popular e rendem críticas e piadas na internet. No último ano, Guedes prometeu ainda grandes privatizações, crescimento do PIB em 2020 e uma recuperação rápida da economia, em formato de V (queda e subida rápida, como o desenho da letra sugere). Mas nenhum desses fatos se concretizou.

Confira cinco vezes em que o ministro da Economia, Paulo Guedes, fez previsões erradas durante a pandemia:

Coronavírus custaria R$ 5 bilhões para o Brasil

Em 13 de março do ano passado, o ministro Paulo Guedes afirmou, em entrevista à revista "Veja", que o coronavírus custaria, no máximo, R$ 5 bilhões ao país para aniquilar o vírus.

Se promovermos as reformas, abriremos espaço para um ataque direto ao coronavírus. Com R$ 3 bilhões, R$ 4 bilhões ou R$ 5 bilhões, a gente aniquila o coronavírus. Porque já existe bastante verba na saúde, o que precisaríamos seria de um extra. Mas sem espaço fiscal não dá.
Paulo Guedes (13/3/20)

Em 2020, o Brasil gastou R$ 524 bilhões, sendo R$ 293,11 bilhões apenas com auxílio emergencial, ou seja, mais de 100 vezes o previsto. Só neste ano, já foram gastos outros R$ 4,3 bilhões.

Crescimento da economia em 2020

Em 4 de março de 2020, dias antes de a OMS declarar a pandemia no mundo, o ministro Paulo Guedes afirmou que o PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro cresceria mais de 2% mesmo com o coronavírus.

No segundo ano [de governo], a gente acha que [o PIB] é acima de 2%. Mesmo com o coronavírus.
Paulo Guedes (4/3/20)

A economia brasileira encolheu 4,1% em 2020, na comparação com 2019, no maior recuo anual da série em 24 anos.

Dólar a R$ 5

Em 5 de março do ano passado, o ministro afirmou que o dólar poderia chegar a R$ 5 em um caso muito extremo.

Questionado por jornalistas sobre a possibilidade de a cotação do dólar chegar a R$ 5, Guedes respondeu:

É um câmbio que flutua. Se fizer muita besteira, [o dólar] pode ir para esse nível. Se fizer muita coisa certa, ele pode descer.
Paulo Guedes (5/3/20)

A moeda norte-americana não ficou apenas nos R$ 5, mas se aproximou dos R$ 6. No ano passado, o dólar acumulou alta de 30% em 2020 e já sobe 8% neste ano.

Grandes privatizações

Em 6 de julho do ano passado, em entrevista à CNN Brasil, o ministro afirmou que o governo faria de três a quatro grandes privatizações em até 90 dias, mesmo sem revelar o nome das empresas.

Vocês vão saber já, já. Estamos há um ano mapeando isso.
Paulo Guedes (6/7/20)

Com o prazo dado por Guedes encerrado, o governo ainda não conseguiu emplacar nenhuma venda de empresa pública prometida.

Recuperação em V

O ministro da economia afirmou também que, com os dados do terceiro trimestre do ano passado, que mostraram uma alta de 7,7% do PIB ante o trimestre anterior, o Brasil mostrava que a economia do país se recuperava em formato de "V".

É a economia voltando, está voltando em 'V' como sempre dissemos.
Paulo Guedes (13/12/20)


O PIB não retornou ao mesmo patamar de antes da pandemia, com queda de 4,1% no ano passado. A economia deve continuar a sofrer em 2021, afastando a possibilidade de uma recuperação rápida, em V.

Por que tantos erros?

Para André Perfeito, economista-chefe da corretora Necton, e José Francisco de Lima Gonçalves, economista-chefe do Banco Fator, as declarações do ministro representam uma tentativa de previsão em meio a um acontecimento inédito, a pandemia. Assim, a probabilidade de mudanças no cenário são relativamente normais.

Quando o cenário se altera profundamente, essas projeções ficam muito fragilizadas. Todos os economistas erraram, e Guedes foi mais um.
André Perfeito

Negou gravidade do problema

Para André Roncaglia, professor de economia da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e pesquisador associado ao Cebrap (Centro Brasileiro de Pesquisa e Planejamento), as frases de Guedes mostram que o ministro negou a gravidade do problema, mesmo com dados já mostrando a real dimensão da crise.

O grande erro foi confundir o discurso político, que serve para motivar a população, com o econômico. Ele ficou no discurso motivacional, quando era necessária ação. Os argumentos que ele utiliza, em termos técnicos, são falhos, e isso é reconhecido independentemente da vertente econômica.
André Roncaglia

Quando Guedes fez as considerações, já havia dados suficientes para mostrar o custo da pandemia à economia. A pandemia já se espalhava pelo mundo e a aceleração do contágio e das hospitalizações já era suficiente para mostrar que esse não era um episódio como outros. Mas ele subestimou o problema e demorou demais a reagir.
André Roncaglia

Setor privado não reagiu como esperado

De acordo com os economistas, Paulo Guedes apostou em uma retomada puxada pelo setor privado -o que não ocorreu. Isso piorou suas previsões.

Para o governo, as reformas não seriam apenas necessárias, mas sim factíveis e, para eles, a violenta redução da demanda pelo fim do auxílio emergencial não teria efeito relevante. O setor privado iria gastar quando o governo parasse de gastar, e isso não ocorreu.
José Francisco de Lima Gonçalves.

Guedes é um economista liberal, e assim foca muito nas coisas de mercado, com a economia avançando por meio da iniciativa privada, mas tivemos um colapso tão grande da demanda, que mesmo com algumas iniciativas do governo o PIB não decolou.
André Perfeito

Guedes não comenta

Procurado pelo UOL, o ministro Paulo Guedes não se pronunciou até a publicação deste texto.

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Errata: o texto foi atualizado
O texto anterior afirmava que, em 4 de março de 2020, o cenário mundial já era de pandemia. A Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou a pandemia apenas no dia 11 de março de 2020. A matéria foi corrigida.