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Inflação está descontrolada? O que fazer com seus investimentos e dívidas?

Inflação já supera a meta perseguida pelo Banco Central e vai subir mais antes de começar a cair, dizem enconomistas - PM Images/royalty free/Getty Images
Inflação já supera a meta perseguida pelo Banco Central e vai subir mais antes de começar a cair, dizem enconomistas Imagem: PM Images/royalty free/Getty Images

João José Oliveira

Do UOL, em São Paulo

22/05/2021 04h00

Resumo da notícia

  • Inflação oficial medida pelo IPCA saltou de 1,88% para 6,76% no acumulado em 12 meses
  • Economistas dizem que BC terá que acelerar alta de juros para trazer inflação de volta à meta
  • Veja o que fazer com investimentos e dívidas no cenário de inflação mais alta

O Banco Central (BC) tem a obrigação de manter a inflação dentro de uma meta. Em 2021, o objetivo vai de 2,25% a 5,25% ao ano. Mas diferentes índices de preços mostram que a inflação acelerou e superou em muito esse teto. Para economistas, a situação está mesmo saindo de controle, o que deve forçar o governo a acelerar o aumento dos juros para evitar que o custo de vida continue subindo com força em 2022. Qual o impacto na sua vida prática? O que acontece com seus investimentos e suas dívidas?

Por enquanto, os economistas ainda acreditam que a inflação vá voltar aos trilhos em 2022. Eles apostam que o BC vai acelerar a alta dos juros para conter os preços. O problema é que a situação ainda vai piorar antes de melhorar, dizem. Inflação e juros em alta afetam a vida de investidores e consumidores porque várias aplicações e dívidas são corrigidas pelos índices de preços e por juros.

Inflação já supera a meta do Banco Central

Considerando a variação em 12 meses, o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), indicador oficial de inflação do governo, subiu de 1,88%, em maio do ano passado, para 6,75% em abril deste ano. O IGP-M (Índice Geral de Preços de Mercado), usado para reajustes de contratos como os de aluguéis, saltou de 6,51% para 32%.

Para 2021, a meta principal de inflação é de 3,75%. Existe uma tolerância para cima e para baixo. Neste ano, a banda de tolerância aceita que a inflação seja de 2,25%, no mínimo, a 5,25%, no máximo. Ou seja, o IPCA já superou a meta mesmo considerando seu limite máximo. O BC tem até dezembro para melhorar isso.

Essa inflação não é passageira. Se fosse, o BC não tinha começado a elevar juros já agora, ainda no meio da crise econômica provocada pela pandemia. Temos matérias-primas subindo 70%, e não há como evitar que boa parte desses aumentos chegue ao varejo e de forma mais espalhada. Não temos uma inflação de demanda, mas de custos, e isso dificulta o trabalho do BC.
André Braz, coordenador dos índices de preços do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre)

Inflação de demanda ocorre quando há muito consumo e faltam produtos. Inflação de custo é registrada quando os preços para fabricar alguma coisa são altos, mesmo que não haja consumo.

Por que a inflação vai seguir subindo neste ano?

Segundo economistas, três fatores devem manter a inflação em alta ao menos até o terceiro trimestre.

Dólar alto: Já faz quase um ano que o dólar opera acima de R$ 5, encarecendo produtos que seguem cotações internacionais, como combustíveis, carne, trigo e matérias-primas da indústria.

Matérias-primas mais caras: Muitas matérias-primas se valorizaram em dólar, por causa do consumo da China. Isso demora a mudar porque a oferta desses produtos cresce devagar.

Eu achava que a inflação não teria fôlego para seguir em alta até abril, mas o que vemos agora, no Brasil e no mundo, é uma retomada da atividade econômica impactando as commodities. Esse fenômeno vai se expandir com a retomada da atividade a partir da vacinação.
Fábio Astrauskas, economista, professor do Insper e CEO da Siegen

Gargalos na produção: Toda vez que a economia brasileira sai um pouco das medidas de isolamento, o consumo tem respondido rapidamente. Mas as indústrias estão com dificuldades para ampliar a produção porque falta matéria-prima. A vacinação no Brasil está indo num ritmo menor que a de outros países, mas a previsão é que a imunização termine no fim do ano. A economia seria reaberta de vez, e o consumo maior pressionaria os preços.

Por que inflação vai desacelerar em 2022?

Por enquanto, economistas ainda apostam que a inflação vai desacelerar em 2022. As projeções feitas por mais de 100 especialistas, registradas semanalmente pelo Boletim Focus, do BC, mostram que o IPCA projetado para o ano que vem é de 3,64% e, para 2023, de 3,25%.

Se o BC chegar à conclusão de que temos uma aceleração da inflação, ele vai retirar estímulos à economia, o que pode afetar o crescimento econômico. Isso pode prejudicar o estímulo a investimentos na economia real, com menos crescimento, menor geração de empregos e redução no crescimento de renda.
Felipe Sichel, economista e estrategista-chefe do banco digital Modalmais

O que deve ajudar a tirar a pressão da alta dos preços:

Alta dos juros: Se os agentes econômicos acharem que a inflação vai continuar fora de controle em 2022, o BC não terá dúvida em subir os juros mais depressa. Por enquanto, a maioria do mercado acredita que a Selic (táxa básica de juros) vai fechar o ano em 5,5%. Mas pode ir a 6% ou mais. Juros altos tendem a segurar a inflação porque encarecem o crédito, afetando o consumo.

Acreditamos que o BC vá fazer o que for necessário para manter a inflação na meta. Isso pode significar Selic em até 6,5%, 7,5%.
Roberto Padovani, economista-chefe do Banco BV

Dólar em baixa: Juros mais elevados também atraem investidor estrangeiro interessado em ganhar dinheiro no mercado financeiro com especulação. Com mais dólares entrando no Brasil, o preço da moeda americana tende a cair por causa da oferta maior. Com dólar mais baixo, os preços mais baixos de importados ajudam a segurar a inflação.

Questão de matemática: Em 2022, na hora de medir a inflação, a comparação vai ser feita com os preços deste ano, que estão mais elevados. Assim, a variação será menor por causa da base de comparação maior. Exatamente o oposto do que está acontecendo em 2021, quando estamos comparando a inflação de hoje com uma base mais baixa no ano passado.

Cadeia de produção normalizada: Com a economia ajustando o passo em 2022, sem o abre e fecha das atividades que vimos desde 2020, a indústria vai ter mais condições de programar a produção, comprando matérias-primas ou contratando mão de obra para dar conta do aumento do consumo. Isso tende a desacelerar os reajustes dos preços medidos pelo IGP-M e, por tabela, pelo IPCA, dizem economistas.

Para 2022 aposto em recuo da inflação por causa do efeito estatístico com base maior de comparação, da alta da Selic e do impacto dos juros mais altos sobre o dólar, e ainda por causa da normalização da cadeia de suprimentos. Além disso, a autonomia formal do Banco Central em ano de eleições ajuda a manter ancoradas as expectativas de inflação dos agentes econômicos.
Patricia Krause, economista da Coface para a América Latina

O que fazer com investimentos e dívidas?

Como a inflação ainda vai acelerar antes de perder fôlego e voltar aos trilhos, investidores e consumidores devem estar atentos aos impactos em investimentos e dívidas.

Investimentos: Aplicações que são corrigidas pela inflação devem continuar no cardápio de investidores como opções de médio e longo prazo, dizem consultores financeiros. Ter investimentos que acompanham índices de preços é uma forma de proteger o patrimônio da perda de poder aquisitivo que a inflação provoca ao longo do tempo.

Veja aqui cinco investimentos para proteger sua aplicação da inflação.

Dívidas: Quem tem dívidas que acompanham a inflação, como financiamento imobiliário corrigido pelo IPCA ou contratos indexados por índices de preços, como escolas e aluguéis, deve se organizar para reajustes que podem vir pela frente.

Isso porque a inflação está andando mais rapidamente que os aumentos de salários, por exemplo. Segundo planejadores financeiros, também vale evitar despesas desnecessárias ou que podem ser adiadas para, com esse dinheiro extra, reforçar a reserva de emergência e, assim, fazer frente a despesas maiores que poderão vir pela frente.

A negociação também deve ser buscada, em especial nos casos em que os reajustes forem muito grandes, caso de aluguéis corrigidos pelo IGP-M

Se a inflação sobe, o poder aquisitivo de todos nós diminui. Isso varia de pessoa para pessoa, mas de maneira geral, a redução do poder de compra deveria levar a pessoa a ser mais econômica nos gastos. Também a evitar dívidas atreladas à inflação. Se já tem gastos desse tipo, como aluguel, deve negociar.
Fernanda Garcia Silvano, planejadora financeiro CFP da Planejar

Consumo: Se a pessoa estava juntando dinheiro para adquirir um bem, como carro ou imóvel, ou um projeto, como fazer uma viagem ou um curso, talvez valha a pena antecipar essa aquisição, apontam planejadores financeiros. Isso vale para quem já juntou o dinheiro suficiente. Especialmente nos casos em que a aplicação rende menos que a inflação. Ou seja, os produtos ou serviços podem estar mais caros no fim do ano.