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Grande perdedor na crise, jovem fica com mais raiva na pandemia, diz estudo

Hygino Vasconcellos

Colaboração para o UOL, em Balneário Camboriú (SC)

03/06/2021 04h00

Durante a pandemia, jovens estão mais preocupados e estressados, com raiva e descontentes com o sistema de ensino. A percepção deles é que a crise instaurada pela emergência sanitária os atingiu de forma mais intensa, aponta um estudo realizado pela FGV Social que integra o "Atlas das Juventudes".

A pesquisa revela impactos da pandemia no dia a dia de brasileiros com idade entre 15 a 29 anos. Dos entrevistados, 59% se disseram preocupados no dia anterior à entrevista - realizada em 2020. Em 2019, o índice era de 50%, enquanto entre 2015 e 2018 ficou em 44%.

Marcus Barão, um dos coordenadores do projeto, explica que as informações levaram quase dois anos para serem levantadas "com mergulho profundo nas principais bases de dados" para trazer um retrato da população jovem do Brasil e retratar suas preocupações e anseios. As informações reunidas pela FGV são apenas a parte qualitativa de toda a iniciativa.

Para Mariana Resegue, outra das coordenadoras do Atlas das Juventudes, a sensação se deve pela falta de perspectiva em relação ao futuro. "Estamos uma crise sanitária, política e econômica. Há falta de esperança do que pode ser construído no futuro", entende.

Para Marcelo Neri, professor e pesquisador da FGV e um dos coordenadores da pesquisa, os jovens podem ser considerados os "maiores perdedores" no mercado de trabalho nos últimos anos.

Isso se deve à perda de renda, que atingiu toda a população, mas foi mais intensa para eles. Só entre 2014 a 2017, a diminuição foi de cinco a sete vez maior em relação à queda média para a sociedade. "Na pandemia a perda de renda dos jovens foi de 18%, contra média de 12% da sociedade. Todos perderam, mas os jovens perderam mais."

Já a sensação de estresse, também analisada na pesquisa, cresceu com o passar dos anos. Entre 2010 e 2015, foi identificada em 28,5% dos participantes, índice que chegou a 32,1% entre 2011 a 2014 e chegou a 47% dos jovens em 2019, subindo para 56% em 2020, primeiro ano da pandemia.

A raiva também cresceu entre os jovens. Entre 2005 a 2010, dos entrevistados, 21% relatavam ter esse sentimento. O índice para 17,8% em 2015 e subiu para 19,9% em 2018. Já, em 2019, ficou em 23% e, no ano seguinte, atingiu o patamar de 32% dos jovens. Para Néri, isso já era esperado devido à situação do país.

"Com toda a insegurança, a desconfiança, a insatisfação, o desrespeito com as mulheres e os frequentes assassinatos nas redondezas já relatados, seria razoável esperar jovens muito raivosos no Brasil, especialmente depois da crise que reduziu suas oportunidades de emprego", escreveu o pesquisador no texto da pesquisa.

Neri explicou ainda que o cenário de insatisfação não é recente mais foi intensificado pela pandemia, devido ao isolamento social, medo de ficar doente, de perder parentes e amigos.

"O dados mostram piora do estado emocional das pessoas, mas a pesquisa mostra grande queda na satisfação do do jovem com a vida e com o presente."

A pesquisa também revelou baixo índice de satisfação com o sistema de ensino. Em 2020, 41% dos jovens disseram estar satisfeitos, contra 56% em 2019. O índice do ano passado é o menor desde o início da série histórica, em 2008.

Para Resegue, a reclamação em relação ao sistema de ensino não é de agora. "Isso não vem por conta da pandemia, a pandemia agravou o que tinha de muito precário. Sejam periféricos ou de centro, os jovens querem uma evolução na educação. A escola precisa se transformar."