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Quanto gasta quem vive e trabalha viajando pelo mundo?

Hygino Vasconcelos

Colaboração para o UOL

13/06/2021 04h00

Viver viajando é o sonho de muita gente. E a vontade ganhou força com o home office na pandemia, já que nada impediria exercer a profissão de qualquer lugar do país ou do mundo.

Mas o estilo de vida tem lá seu preço. O escritor Matheus de Souza, 31 anos, está na África do Sul e gasta em média R$ 6.000 mensais. Já a família do VanBora, que viaja pelo Brasil de motorhome e está agora em Porto de Galinhas (PE), desembolsa em média R$ 5.000 por mês para três pessoas. O casal do canal Getoutside, que viaja pelas Américas num motorhome, gasta até R$ 5.000 mensais para os dois.

Estipule os gastos da viagem com antecedência

É preciso ter uma reserva de emergência (saiba aqui qual o valor e como juntar). Também é importante listar os gastos futuros para quando a viagem começar.

A educadora financeira e professora da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) Wendy Carraro divide esses custos em dois momentos: de instalação e de permanência.

O primeiro momento, para chegar ao destino, inclui gastos com combustível ou passagens, seguro-viagem e pagamento antecipado de caução para aluguel do imóvel. "Alguns locadores chegam a pedir seis meses de antecipação", afirma.

Já nos custos de permanência entram gastos com moradia, alimentação, energia elétrica, deslocamento e até valores para a educação dos filhos, se for o caso. Também devem ser incluídas despesas com lazer e para visitação de pontos turísticos.

Depois de passar por 24 países, Matheus hoje vive na Cidade do Cabo, na África do Sul. Ele separa em média R$ 2.500 para aluguel e mais R$ 1.500 com alimentação todo mês. Também separa uma parcela para lazer e deslocamento por aplicativo. Os valores variam de acordo com o lugar. Antes, o escritor estava na Tailândia e desembolsava por mês cerca de R$ 1.500 com moradia, R$ 1.000 com alimentação, R$ 517 para alugar uma scooter e ainda gastos com lazer.

Já a família do VanBora despende R$ 1.200 em gasolina e cerca de R$ 2.500 com alimentação, além de outras despesas, como para a permanência esporádica em campings. O valor é para três pessoas: Lubia Raquel Coelho, 36 anos, o marido dela, Marcelo Hoffmann, 40 anos, e a filha mais nova do casal, Giovana, de 10 anos.

Sites e apps para pesquisar preços

Para quem quer viver no exterior, uma dica é o nomadlist.com, site no qual é possível obter informações sobre 1.354 cidades de 195 países. Além de apresentar custos de moradia, o site detalha a velocidade da internet - indispensável para quem trabalha remotamente - e índices de segurança. Também há indicadores sobre racismo, se o local é gay-friendly ou não, qualidade do ar e vida noturna.

Para quem decidir viajar de motorhome, a recomendação é o site iOverlander. Só no Brasil há informações de mais de 6.500 lugares, enquanto nos Estados Unidos há mais de 22 mil referências.

Outros sites, como o TripAdvisor e o Google Local Guides, também reúnem avaliações de outros usuários e até mesmo preços de restaurantes, hotéis e pontos turísticos.

Para comparar passagens de avião, algumas opções são o Skyscanner e o Google Flights.

Para controlar as despesas, os advogados Maria Eduarda Corteletti Pereira Cardoso, 27 anos, e o marido Alessandro De Franceschi Da Cruz, 36 anos, do GetOutside, utilizam o aplicativo Travel Wallet, que já converte os valores gastos em moeda estrangeira para o real.

Defina o tipo de moradia

Uma das primeiras despesas a ser analisada é o tipo de moradia - hotel, hostel, Airnbnb ou até mesmo um motorhome. A escolha vai depender das necessidades do viajante, da disponibilidade de recursos, tempo de permanência e ainda da quantidade de pessoas que o acompanharão. E, claro, da vontade da pessoa.

Matheus, por exemplo, sempre fica em Airbnb. "Uma coisa que difere o nômade digital do mochileiro ou viajante tradicional é que a gente está trabalhando de forma remota. Como fica mais tempo trabalhando, a gente acaba se comportando como um morador local, então a gente precisa de uma estrutura, uma internet boa, de uma mesinha para trabalhar."

Já a família do VanBora decidiu montar por conta própria um motorhome e cair na estrada. A van foi adquirida por R$ 63 mil e outros R$ 37 mil foram gastos para transformar o veículo em uma casa móvel.

Com o motorhome, o custo com estadia praticamente fica a zero. De vez em quando, a família para em campings, que cobram taxa de permanência. "No verão a gente tem um gasto maior. Chegava a pagar até R$ 50 por pessoa para ficar em um camping. São R$ 150 por dia e acaba pesando", explica Lubia.

O escritor Matheus Souza, que vive como nômade digital - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
O escritor Matheus Souza, que vive como nômade digital e fica principalmente em Airbnb
Imagem: Arquivo pessoal

Preste atenção na oscilação cambial

Com o dólar, o euro e a libra esterlina valorizados em relação ao real, viagens para países que usam essas moedas acabaram se tornando praticamente proibitivas para quem vai seguir recebendo o salário em reais.

Uma pessoa com salário de R$ 7.500 no Brasil vai, com a conversão, ficar com 1.000 libras, valor considerado insuficiente para se manter em Londres ou Edimburgo, segundo o site Nomadlist.

Já na conversão para o dólar, a remuneração fica US$ 1.412,43, também abaixo do necessário para se manter nas principais cidades dos Estados Unidos.

Em Cidade do Cabo, capital da África do Sul, o custo mensal é de US$ 1.800, já em Bangcoc fica US$ 1.300, segundo o site Nomadlist.

"Na África do Sul, é mais barato do que morar em São Paulo. Para um bom apartamento com vista para a praia, você paga um aluguel menor do que pagaria em uma kitnet razoável em São Paulo", diz o escritor Matheus, atualmente sediado na capital do país, Cidade do Cabo.

O casal do Getoutside também já tirou vantagem da desvalorização da moeda quando esteve na Argentina. "A gente chegou a gastar R$ 1.800 por mês. Foi muito vantajoso para a gente estar em um país com o câmbio desvalorizado", afirma Maria Eduarda.

Como ganhar dinheiro na estrada?

Quem opta por largar tudo e viver viajando normalmente se encaixa em três perfis: quem permanece no mesmo emprego ou área de atuação, quem larga a carreira anterior e segue uma nova vida e quem começa trabalhando na área e, no meio da viagem, decida mudar de ares.

Antes de virar nômade digital, Matheus era redator em uma agência de marketing em Tubarão (SC). No final de 2016, ele decidiu pedir demissão após o chefe não autorizar o trabalho home office. Inicialmente, Souza fez jornada dupla - no trabalho com carteira assinada e com os freelancers para clientes de outros lugares ainda em sua cidade.

Ao perceber que estava ganhando mais com a segunda opção, decidiu largar o emprego e se preparar para ir para o exterior. Começou pelo México e foi se mudando conforme o tempo determinado no visto. Em 2017, lançou o primeiro curso online - hoje já são três. Já em 2019, lançou dois livros - um deles é um guia para quem quer ser nômade digital. Hoje a fonte de renda vem dos cursos e da venda dos livros.

A família do VanBora não largou o emprego antes de começar a empreitada. Ainda hoje o casal trabalha como representante comercial e negocia três produtos diferentes com supermercados: frangos, pescados e batata frita congelada.

"O trabalho é realizado de forma remota e por comissão. Então temos que trabalhar para ter renda no final do mês. A gente se planeja para, em determinados períodos, atender às demandas de reuniões com novos clientes e, depois, dar continuidade à viagem", explica Lúbia.

O casal do Getoutside mudou a rotina de forma radical. Após anos trabalhando em um escritório de advocacia, ambos decidiram largar tudo e começar a viajar em 2020. "A gente se dedica praticamente ao nosso trabalho de criação de conteúdo, venda de produtos pela internet, livros, cursos, nosso trabalho de influenciador e o nosso trabalho de fotografia", afirma Maria Eduarda.

Quem decide viajar sem emprego ou quer uma renda extra pode fazer trabalhos eventuais nos locais de parada, sugere professora da UFMS (Universidade Federal do Mato Grosso do Sul), Luciane Carvalho, como ofertar trabalho para cobrir os gastos com estadia e alimentação. "Uma ideia é fazer trabalhos freelancer como atuar em uma pizzaria aos finais de semana."

Os viajantes de motorhome podem, inclusive, oferecer jantares a um grupo pequeno de nativos, recomenda Luciane. E, ao chegar ao novo lugar, a dica é divulgar o trabalho para os moradores locais, seja no boca a boca ou ainda em grupos de Facebook ou publicações em outras redes sociais.