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Móveis e bicicletas ainda estão presos em navio que bloqueou canal de Suez

Contêineres do navio "Ever Given" - Mohamed Shokry/picture alliance via Getty Images
Contêineres do navio 'Ever Given' Imagem: Mohamed Shokry/picture alliance via Getty Images

Colaboração para o UOL

16/06/2021 15h56

A crise causada pelo encalhe do navio Ever Given no canal de Suez, no Egito, em março, está longe de terminar para as empresas que têm seus produtos presos. As companhias enfrentam uma batalha judicial para recuperar bens no valor de centenas de milhões de dólares que estão há meses apreendidos. O navio bloqueou o canal durante seis dias, provocando caos no transporte global de mercadorias.

Dentre as companhias com produtos presos estão as gigantes Ikea, de móveis, e a Lenovo (LNVGF), de computadores, além da fabricante de bicicletas Pearson 1860, do Reino Unido, e da fábrica de cobertores Snuggy UK.

"Não temos muita esperança de ver nosso material ainda este ano e imaginamos que haverá pouca chance de ver um acordo por meses, senão anos", disse Will Pearson, diretor da Pearson 1860, à CNN Business.

Sua empresa tem produtos que valem mais de US$ 100 mil no navio. O Ever Given e todos os seus 18,3 mil contêineres de carga foram apreendidos por um tribunal egípcio depois que a Autoridade do Canal de Suez entrou com uma ação de indenização inicial de US$ 916 milhões contra o armador japonês Shoei Kisen Kaisha.

O pedido alega danos e perdas incorridas quando o navio encalhou em uma parte estreita do canal, bloqueando tráfego. O navio assim como sua carga estão sendo mantidos no Grande Lago Amargo do canal durante a batalha judicial.

De acordo com a CNN Business, diversas empresas com produtos no Ever Given alegaram que foram deixadas no escuro sobre o status de seus produtos enquanto a briga judicial se prolonga, além de serem excluídas das negociações para a liberação dos materiais.

Além disso, ainda que haja um consenso, as empresas ou suas seguradoras podem ficar em risco e serem forçadas a pagar de acordo com um princípio do direito marítimo denominado "média geral". Nesta norma, as partes envolvidas em uma viagem dividem proporcionalmente os custos em caso de perda. O princípio tem suas raízes nas regulamentações que regem o comércio marítimo estabelecidas pelo povo de Rodes há mais de um milênio no que hoje é a Grécia.

O chefe do departamento de acidentes de carga no escritório de advocacia Clyde & Co, Jai Sharma diz que "se alguém [os armadores, neste caso] incorrer em uma despesa extraordinária para o bem comum, então todos são convidados a contribuir para isso". O escritório representa empresas e seguradoras com mais de US$ 100 milhões em carga no Ever Given. A empresa estima que o valor total das mercadorias a bordo seja de US$ 600 milhões a US$ 700 milhões. Shoei Kisen Kaisha se recusou a comentar esta história. A Autoridade do Canal de Suez não respondeu a vários pedidos de comentários.

Presos no limbo

À CNN Business, a IKEA disse que tem uma variedade de produtos a bordo do navio, sem detalhar que tipo de carga. Um porta-voz da Lenovo confirmou que a companhia está "explorando maneiras de recuperar as mercadorias".

As apostas são ainda maiores para empresas como a EasyEquipment, uma pequena empresa do Reino Unido que não tem seguro marítimo para geladeiras comerciais no valor de US$ 100 mil que deveriam ser entregues a restaurantes antes que as restrições ao coronavírus diminuíssem em maio.

"Não apenas perdemos todos os lucros com este pedido crucial, mas isso também afetou os negócios de restaurantes que esperavam reabrir suas portas após o bloqueio", disse o CEO Michael Shah. "Estamos presos neste limbo e sei que terei de arcar com essa conta adicional [média geral] para ter meu estoque de volta".

A fabricante de bicicletas Pearson 1860 disse que recebeu poucas atualizações sobre o processo e o status de seu embarque das autoridades do canal, da Shoei Kisen Kaisha ou Evergreen, que opera o navio. "Parece que há uma troca contínua de culpa e disputas de seguro ocorrendo entre os armadores, Evergreen e as autoridades do Canal de Suez", disse Pearson.

Snuggy, uma pequena empresa do Reino Unido fundada há apenas dois anos também compartilha do mesmo sentimento. O co-fundador Jack Griffiths disse que mais de US$ 550 mil de seu produto mais vendido, um cobertor com capuz vestível, estão a bordo.

O negócio faz apenas dois pedidos grandes por ano, e este foi feito para atendê-los até o início do inverno. Griffiths disse que o atraso está causando grandes problemas de fluxo de caixa para os negócios. "Não fomos informados de nada, estamos completamente impotentes e deixados no escuro. Eu gostaria de estar envolvido ou até mesmo nos mantermos informados um pouco mais, mas não estamos. Não é realmente uma boa posição para se estar e é um obstáculo que a maioria das novas empresas terá dificuldade para superar ", disse ele.