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Especialista: Cada um pegou um pouco da Eletrobras, e cliente pagará conta

Do UOL, em São Paulo

23/06/2021 13h01

A privatização da Eletrobras da forma como aprovada pelo Congresso criou "cercadinhos que inibem a competição" e terá impacto negativo para os consumidores, afirmou Jerson Kelman, engenheiro, hidrólogo e chefe do comitê que investigou o racionamento energético em 2001. Segundo o especialista, muitos setores quiseram "um pedaço" da estatal, e o preço dessa negociação vai recair sobre as contas de luz.

Em entrevista ao UOL nesta quarta-feira (23), Kelman disse que o governo precisa tomar uma série de medidas agora para evitar o racionamento e o risco de apagões mais para frente. O país atravessa a pior seca em mais de 90 anos, o que esvaziou os reservatórios das hidrelétricas. Uma das medidas, segundo o especialista, é negociar com grandes indústrias para transferir turnos de trabalho para horários fora do pico de consumo de energia no país. Isso é mais efetivo, diz ele, do que pedir que o consumidor residencial economize energia.

"Não vale a pena ficar tentando convencer o consumidor doméstico a não ver a novela dele, que é na hora do pico. O que vai dar certo é ver qual é o consumo industrial que pode ser remanejado para a madrugada. E creio que isso precisa ser feito agora. A indústria precisa se planejar, não é do dia para a noite", afirmou.

Ex-presidente da ANA (Agência Nacional de Águas) e ex-diretor-geral da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica), Kelman foi presidente da força-tarefa nomeada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) para investigar as razões e explicar o racionamento de 2001.

Segundo o engenheiro, o governo precisa criar um grupo ministerial capaz de tomar decisões que priorizem o uso de água para a produção de energia e que podem desagradar alguns setores (como navegação e turismo).

Jabutis da Eletrobras vão encarecer conta de luz

Kelman disse que sempre foi favorável a privatizações, mas que as matérias inseridas na tramitação da Medida Provisória da Eletrobras (conhecidas como "jabutis") vão prejudicar a população. "Quando se criam cercadinhos que impedem a competição, a consequência inevitável é que fica mais caro para o consumidor."

Ele diz acreditar que a privatização tem um lado bom, porque vai atrair investimentos e aumentar a eficiência da empresa. Em contrapartida, os jabutis deverão trazer custos que serão repassados à conta de luz.

Não é bom para o país que [a privatização] seja objeto desse tipo de negociação. É reproduzir na alocação de recursos públicos a tragédia do uso do bem comum. Quando alguma coisa é de todos, todo mundo vai lá, tira um pedaço, e aquilo fica insustentável.
Jerson Kelman

Segundo o hidrólogo, a única medida adicionada pelo Congresso que é positiva é o incentivo à construção de uma linha de energia que conecte Boa Vista a Manaus. Atualmente, Roraima é o único estado que não está conectado ao Sistema Interligado Nacional (SIN).

Priorizar água para produzir energia

Kelman afirmou que o governo terá de tomar decisões impopulares para alguns setores se quiser garantir que não haverá racionamento ou apagão em horários de pico. Isso porque o governo vai precisar mexer na vazão de rios e no nível de represas, o que pode ter impacto ambiental e em atividades econômicas, como pesca e turismo.

Mexer no nível do reservatório de Furnas, em Minas Gerais, teria resistência da população local, exemplifica, porque há um polo turístico ali, perto da cidade de Capitólio (MG).

"É um cobertor curto. Se você se preocupar com os peixes, mantém a torneira [dos reservatórios] aberta. Se você se preocupar com o apagão que vai impedir a Dona Maria de assistir à novela dela, você fecha a torneira", diz.

O engenheiro defende a criação de um grupo ministerial, que possa tomar decisões sem o peso das pressões de interesses locais, por exemplo, reduzir o nível de reservatórios.

Se esse tipo de decisão for tomada em instâncias inferiores, será alvo de questionamentos na Justiça, diz ele.

"Alguma coisa ruim vai acontecer. Se essa ação for de autoria de um diretor técnico da empresa, está sujeito a qualquer promotor de Justiça que ache que está errado e o processe por crime ambiental. São decisões que afetam o país como um todo e não podem ser tomadas em uma escala local", afirmou.

Crise era imprevisível, mas governo precisa agir já

O hidrólogo não acredita que o governo pudesse ter previsto com antecedência a crise hídrica para minimizar seus impactos na geração de energia.

"Não há ciência que permita a previsão de seca com meses de antecedência. A previsão do tempo, com qualidade, se dá no prazo de dias", disse.

Por outro lado, Kelman afirma que ainda não viu o governo criar um gabinete centralizado capaz de tomar as decisões necessárias frente à crise.

"O governo deveria ter uma governança parecida com a de 2001, com ministros que decidem rapidamente coisas que precisam ser decididas rapidamente. Não vi isso ainda, mas minha esperança é que governo o crie nos próximos dias."

Fim do horário de verão não impactou

De acordo com Kelman, o fim do horário de verão não teve impacto na crise atual. Ele atribui a situação essencialmente à seca, a pior na região Sudeste e Centro-Oeste dos últimos 91 anos.

O horário de verão foi extinto pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) em abril de 2019.