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Novo presidente da Fiesp é filho de ex-vice de Lula; isso muda a política?

Giulia Fontes*

Do UOL, em São Paulo

26/07/2021 04h00

Após quase duas décadas de presidência de Paulo Skaf, a Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) terá novo comando a partir de 2022. Quem ocupa a cadeira é Josué Gomes da Silva, empresário da Coteminas e filho do ex-vice-presidente José Alencar (1931-2011) nos governos de Luiz Inácio Lula da Silva (de 2003 a 2010). A entidade teve papel político importante no impeachment de Dilma Rousseff (PT), e Skaf é tido como aliado do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). A mudança de comando abre espaço para especulações sobre possíveis mudanças de posicionamento na Fiesp.

Interlocutores do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) acreditam que a posse de Josué pode facilitar a aproximação do petista com os empresários. Josué chegou a ser apontado como possível vice de Lula nas eleições de 2022, mas negou. Dentro da Fiesp, a narrativa é de continuidade. Diretores ouvidos pelo UOL afirmam que Josué e Skaf são do "mesmo grupo político", que a entidade tem agenda própria e "conversa com todos os governos", independentemente do viés ideológico.

Rafael Cervone, empresário do setor têxtil que será 1º vice-presidente da Fiesp e presidente do Ciesp (Centro das Indústrias do Estado de São Paulo) a partir de 2022, afirma que a possível aproximação entre Lula e Josué para as eleições 2022 "não procede" e é "pura especulação".

O Josué já cansou de dizer que isso é bobagem. Nós temos um compromisso com as entidades nos próximos quatro anos. Vamos nos dedicar integralmente às nossas atividades empresariais e à gestão.
Rafael Cervone

Mesmo grupo político, outra personalidade

A chapa de Josué, que concorreu sozinha à presidência da Fiesp, foi apoiada por Skaf. No dia da eleição, Skaf disse que Josué "terá apoio expressivo dos industriais. E as entidades estarão em boas mãos, de um empresário que tem seriedade, competência e força".

Segundo Carlos Cavalcanti, hoje um dos vice-presidentes da Fiesp, "alguma coisa deve mudar" na forma de conduzir a entidade, já que Skaf e Josué "são duas pessoas diferentes, com personalidades distintas".

Mas, do ponto de vista de orientação política da entidade, acho que não vai mudar. É como se um mesmo grupo político tivesse vencido a eleição. Na minha opinião, mudança em termos de linha de pensamento não existe nem existirá. São pessoas muito afinadas.
Carlos Cavalcanti

Segundo Cervone, futuro vice, Josué tem "luz própria, e vai saber imprimir seu estilo à entidade".

Fiesp é "apartidária", afirma novo vice

Ainda segundo Cervone, a entidade "não se mistura com política" e "sempre teve proximidade com presidentes, com Lula, Dilma, Temer e, agora, com Bolsonaro".

Carlos Cavalcanti afirma que o ex-presidente Lula "não saía da Fiesp" durante seus dois mandatos (2003-2010).

Pessoalmente, cada um pode gostar ou não de um candidato, mas a nossa obrigação [na instituição] é trabalhar e dialogar, colaborar com os governos.
Carlos Cavalcanti

Segundo Sylvio Gomide, que será 2º diretor financeiro da nova chapa, a presença de presidentes dentro da Fiesp "é rotina".

E é uma rotina a presença do Skaf e outros diretores levando propostas [aos governos]. É um papel da Fiesp como entidade.
Sylvio Gomide

Impeachment de Dilma e carreiras políticas

Durante a gestão de Skaf, a Fiesp declarou apoio formal ao impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. O pato da Fiesp, originalmente pensado para manifestações contra a carga de impostos, acabou se tornando um dos mascotes do movimento pelo impedimento da presidente.

Além disso, Skaf tem carreira política própria: ele já concorreu ao governo de São Paulo pelo PSB e pelo MDB.

O presidente eleito da Fiesp, além de ser filho de José Alencar, também já tentou carreira política: em 2014, Josué concorreu ao Senado por Minas Gerais pelo então PMDB, obtendo 40% dos votos. Ele perdeu a eleição para Antonio Anastasia (PSD-MG).

É preciso que Josué não "misture as coisas", diz opositor

José Ricardo Roriz Coelho, presidente da Abiplast (Associação Brasileira da Indústria do Plástico) que concorreu contra Cervone nas eleições do Ciesp (obtendo cerca de 40% dos votos), afirma que Josué não deve misturar a política com a Fiesp.

Paulo [Skaf] ficou perto do Lula, da Dilma, do Temer e do Bolsonaro. Estava sempre perto do presidente [da República] da vez. O Josué tem uma experiência política tradicional, da família dele, mas o ideal é que não misture as coisas.
José Roriz Coelho

Para Roriz Coelho, a troca de comando na Fiesp é positiva por si só, já que a entidade representa vários segmentos da indústria e é necessário haver alternância de poder.

Eles são do mesmo segmento [a indústria têxtil], mas têm que levar em consideração essa demonstração do empresariado de que é necessária uma agenda focada na indústria, e não voltada a objetivos pessoais do presidente.
José Roriz Coelho

Atuais diretores defendem Skaf, afirmando que ele, "em nenhum momento", confundiu sua atuação política pessoal com o cargo de presidente da Fiesp.

Todas as vezes em que ele teve atividade política partidária, isso estava rigorosamente separado [da Fiesp].
Carlos Cavalcanti

O futuro presidente da Fiesp, Josué Gomes da Silva, foi procurado pelo UOL, mas não quis dar entrevista.

*Colaborou Antonio Temóteo, do UOL em Brasília.

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