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Vacina ajuda PIB e emprego, mas crise hídrica, inflação e juros atrapalham

28.set.2021 - Movimentação intensa de consumidores nos arredores da rua 25 de março, em São Paulo, região tradicional de comércio popular - Cris Faga/Estadão Conteúdo
28.set.2021 - Movimentação intensa de consumidores nos arredores da rua 25 de março, em São Paulo, região tradicional de comércio popular Imagem: Cris Faga/Estadão Conteúdo

João José Oliveira

Do UOL, em São Paulo

09/10/2021 04h00

Resumo da notícia

  • Avanço da vacinação favorece reabertura segura da economia e circulação de consumidores
  • Setores mais atingidos pela pandemia são os mais beneficiados
  • Incerteza sobre reabertura de atividades diminui, e empresas voltam a contratar
  • Mas vacinação não garante crescimento porque há problemas como crise hídrica, inflação, juros e gargalos na produção

O avanço da vacinação está estimulando a reabertura segura das atividades na economia, abrindo espaço para maior circulação dos consumidores e redução das restrições ao funcionamento das empresas, sobretudo no comércio e nos serviços. Elas estão mais confiantes para voltar a contratar trabalhadores, afirmam economistas, empresários e governos.

Apesar de ajudar a economia brasileira, a vacinação por si só não é garantia de avanço do PIB (Produto Interno Bruto), destacam economistas. Segundo eles, os maiores adversários do crescimento são a crise hídrica, a inflação, os juros elevados e os gargalos na produção. Juntos, esses fatores podem corroer parte do estímulo positivo que a imunização está dando à atividade econômica neste restante de ano e em 2022.

Sem vacinação, retomada não durou em 2020

O otimismo com a vacinação se reflete nas previsões para o PIB. Em janeiro, quando a imunização começou, economistas projetavam crescimento de 3,5% neste ano, segundo analistas ouvidos pelo Banco Central no Boletim Focus. Ao fim de setembro, com a maioria da população adulta vacinada com ao menos uma dose, as apostas apontam crescimento maior, de 5,04%.

Para Vinicius Lummertz, secretário de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo, chegou a haver expectativa de retomada no ano passado, quando o número de casos e mortes de covid estava em queda no país. Mas veio uma segunda onda, e a recuperação não se sustentou.

A retomada do fim de 2020 se perdeu depois porque tudo fechou. A diferença da retomada agora é que temos a vacina. Agora, é sólida.
Vinicius Lummertz, secretário de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo

Circulação de pessoas favorece o emprego

Os setores mais beneficiados pela vacinação são aqueles que dependem da circulação de pessoas e do consumo presencial e que têm dificuldade para utilizar o comércio digital: bares e restaurantes, salões de beleza, barbearias e empresas de viagem e turismo, companhias de eventos corporativos, além da atividade informal, do comércio do ambulante ao prestador de serviços.

As atividades que integram os setores de serviços são também as que mais empregam, respondendo por 51% da população ocupada no país, e que têm maior peso na economia, equivalente a 62% do PIB no segundo trimestre, de acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

O trabalho informal, que responde por cerca de 40% da população ocupada, está sendo diretamente beneficiado pela vacinação, diz o economista Fausto Augusto Junior, diretor técnico do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos).

O Ministério da Economia, em relatório, também diz que: "a vacinação em massa tem contribuído para a retomada segura da atividade e, consequentemente, o emprego. Neste processo, destaca-se a melhora dos serviços e do comércio, que foram severamente afetados pela pandemia".

A taxa de desemprego caiu de 14,7% no trimestre encerrado em abril para 13,7% no trimestre fechado em julho, com cerca de 700 mil desocupados a menos. A população ocupada aumentou em 3,6%, em um trimestre, ou sete milhões de pessoas em um ano, chegando a 89 milhões de trabalhadores, segundo os dados mais recentes do IBGE.

Mas o nível de desemprego ainda é alto, com 14,1 milhões de pessoas na fila por trabalho.

Comércio animado para o fim do ano

No varejo, as vendas em julho subiram 1,2% na comparação com junho, o quarto resultado positivo seguido, segundo o IBGE.

Com mais gente circulando e imunizada, o comércio está otimista para a vendas de fim de ano, tanto entre lojista de rua quanto entre os de shopping.

O presidente da Alshop (Associação Brasileira de Lojistas de Shopping), Nabil Sayoun, diz que as vendas do setor no fim deste ano podem superar o desempenho pré-pandemia.

A expectativa que tínhamos meses atrás não era boa, mas estamos vendo que, com a vacinação avançando, as vendas estão reagindo muito bem. Considerando que até novembro podemos ter mais de 90% da população vacinada já com 2ª dose, vemos espaço para ter vendas de fim de ano melhores que em 2019.
Nabil Sahyoun, presidente da Alshop

O coordenador da Sondagem do Comércio do Ibre FGV (Instituto Brasileiro de Economia da FGV), Rodolpho Tobler, destaca, entretanto, que apesar do controle da pandemia, outros fatores estão afetando o comércio, que apresentou queda de 3,1% em agosto. Ele citou a inflação como um desses obstáculos.

Veja mais abaixo o que pode atrapalhar o crescimento econômico mesmo com a vacinação avançando.

Viagens se aproximam de desempenho no pré-pandemia

O mesmo acontece no setor de viagens e lazer, apontam empresários do setor.

No mercado doméstico, onde as restrições foram flexibilizadas quase totalmente, as vendas estão crescendo a um ritmo de 20% ao mês, sobre o mês anterior. Já no segmento internacional, onde ainda existem restrições de países que aguardam a imunização maior da população brasileira, a recuperação é mais lenta.

As pessoas vacinadas se sentem mais à vontade para planejar e comprar viagens. Isso ficou claro à medida que foi sendo vacinada cada faixa etária, Primeiro, vimos maior procura por parte das pessoas com mais de 60 anos. Depois, daquelas com mais de 50, e hoje já vemos mais procura das pessoas com 30 anos.
Roberto Nedelciu, presidente-executivo da Braztoa (Associação Brasileira das Operadoras de Turismo)

A segunda onda da covid provocou forte queda das vendas de voos até maio, diz o presidente da Abear (Associação Brasileira das Empresas Aéreas), Eduardo Sanovicz. Desde então, à medida que o ritmo de vacinação ganhou velocidade, a malha aérea passou a crescer mês a mês e deve seguir assim até fim do ano, quando o setor terá 90% da operação que havia antes da pandemia. Bem acima de 9,1%, que foi o percentual do setor no pior momento da crise, no primeiro trimestre de 2020.

Impacto indireto na construção e na indústria

Segundo dados da Cbic (Câmara Brasileira da Indústria da Construção), os lançamentos de imóveis cresceram 114,6% no segundo trimestre e as vendas tiveram expansão de 61%, mas a oferta final caiu 7,1%, para 180.007 unidades.

Na indústria, aponta o gerente de análise econômica da CNI (Confederação Nacional da Indústria), Marcelo Azevedo, o impacto da vacinação está sendo indireto. Conforme cresce o consumo no comércio e os estoques dos lojistas precisam ser repostos, os pedidos para a indústria tendem a aumentar.

Obstáculos ao crescimento

Mas o otimismo com a vacinação pode ser frustrado por uma série de problemas que atrapalham a economia.

Com a vacinação, tiramos o bode da sala, mas voltamos aos nossos outros problemas.
Sillas de Souza Cezar, professor da FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado)

Os principais fatores são:

  • Crise hídrica

O principal risco para nosso cenário no momento é a crise hidrológica.
Solange Srour, economista-chefe do Credit Suisse

A falta de água e o aumento da energia já encareceu os custos de todo setor produtivo. Isso significa mais inflação, que, por sua vez, representa maior necessidade de o Banco Central subir os juros. Juros mais altos afetam consumo e investimentos. Nas contas do banco Credit Suisse, para cada 5% de queda no consumo menor de energia, a economia cresce 0,6 ponto percentual a menos.

  • Inflação

A inflação reduz a renda principalmente das famílias de menor poder aquisitivo, que são maioria no mercado consumidor, afetando toda a economia.
Juliana Inhasz, economista e professora do Insper

Energia mais cara puxa inflação para cima, mas outros fatores também estão alimentando a alta de preços. A inflação reduz a margem de lucro das empresas, que acabam tendo menos dinheiro para investir e contratar. Preços em elevação também afetam as famílias.

  • Juros

Para conter a alta dos preços e colocar a inflação de volta dentro da meta, o BC acelerou a alta da taxa básica de juros, a Selic. Mas esse remédio tem um efeito colateral, que é exatamente desaquecer a economia, destaca o presidente do Cofecon (Conselho Federal de Economia) e professor da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), Antonio Corrêa de Lacerda.

  • Gargalos na produção

O crescimento das vendas no segundo trimestre teria sido maior se não fosse pelos gargalos na oferta de insumos e matérias-primas, que já estão encarecendo custos e afetando o ritmo das construções.
José Carlos Martins, presidente da Cbic

As interrupções nas indústrias durante a pandemia no Brasil e no mundo geraram uma demanda reprimida por matérias-primas e insumos, que estão fazendo falta em diferentes setores da economia, da construção civil à fabricação de automóveis e eletrodomésticos.

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