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Guedes diz que acusação sobre offshore é 'narrativa política e covardia'

Do UOL, em São Paulo

23/11/2021 10h41Atualizada em 23/11/2021 13h24

O ministro da Economia, Paulo Guedes, disse hoje que há "narrativa política, covardia e desrespeito aos fatos" em acusações de que ele especulou com o valor do dólar para aumentar seu patrimônio nas Ilhas Virgens Britânicas, um paraíso fiscal.

Guedes voltou a dizer que a offshore é "absolutamente legal" e negou que tenha entrado no governo para ter acesso a informações privilegiadas. O ministro participa de uma audiência na Câmara dos Deputados para prestar esclarecimentos sobre movimentações financeiras no exterior.

"Há narrativa política, covardia e desrespeito aos fatos. A pergunta é: existe conflito de interesse? Não", afirmou. "Quando se fala em offshore, as pessoas imaginam uma organização com uma porção de gente. Não é nada disso. É uma conta que, por razões sucessórias, tem um representante familiar."

Offshore é um veiculo de investimento absolutamente legal. É absolutamente legal. Por razões sucessórias, se comprar ações de empresas, se tiver uma conta em nome da pessoa física, se você falecer, 46%, 47% é expropriado pelo governo americano. Tendo uma conta em pessoa física, todo seu trabalho de vida, ao invés de deixar para herdeiros, vira imposto sobre herança. Então o melhor é usar offshore, que está fora do continente.
Ministro da Economia, Paulo Guedes, na Câmara dos Deputados

Guedes reforçou que a offshore é "100% legal" e que seus recursos são declarados à Receita Federal anualmente.

O ministro também disse que não usa o cargo para promover os próprios interesses: "Tive a oportunidade de vir para o governo antes. Se eu fosse alguém querendo ganhar dinheiro para usar informação privilegiada, eu teria vindo muito antes, quando fui convidado pelo ministro Dornelles [governo de Fernando Henrique Cardoso]."

Guedes acrescentou que "ninguém lutou mais por um Banco Central independente" do que ele. "Se eu quisesse manipular [a taxa de juros e o dólar], ficava com o Banco Central no meu comando".

Offshore é como uma faca: pode ser usada para o mal, para matar alguém, ou para o bem, para descascar uma laranja.
Paulo Guedes na Câmara dos Deputados

Em discurso no início da sessão, Guedes negou que tenha evitado comparecer à audiência — o ministro faltou a uma convocação marcada para o dia 10 de novembro alegando "conflito de agenda".

A existência de uma offshore não configura necessariamente um crime. Mas parlamentares citam a possibilidade de um conflito de interesses na manutenção dessas operações, já que Guedes ocupa o cargo responsável por gerir as políticas econômica e cambial do país.

Nos bastidores, o governo tentou articular para que o assunto fosse esquecido pelos parlamentares, mas o ministro acabou sendo convocado novamente. O deputado Paulo Ramos (PDT-RJ) chegou a dizer que Guedes poderia responder por crime de responsabilidade se faltasse mais uma vez à audiência.

Recursos nas Ilhas Virgens Britânicas

O termo offshore significa "fora da costa marítima", no sentido de estar longe do continente. É normalmente usado para designar empresas que estão fora do país de origem do proprietário, em geral com sede em paraísos fiscais. Para a Receita Federal, são considerados paraísos fiscais os países que tributam a renda em menos de 20% e cuja legislação permite manter a composição societária das empresas em sigilo.

A existência da offshore ligada a Guedes foi revelada pelo projeto "Pandora Papers", do ICIJ (International Consortium of Investigative Journalists, ou, em português, Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos). No Brasil, os parceiros do consórcio são a revista Piauí e o site Poder 360. Conforme os "Pandora Papers", Guedes possui desde 2014 uma offshore de nome Dreadnoughts International.

O ministro da Economia depositou US$ 9,54 milhões (mais de R$ 53,4 milhões, na cotação atual) na conta da offshore, em uma agência do banco Credit Suisse, em Nova York. Além de Guedes, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, manteve recursos investidos por meio de offshores.

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Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do que foi informado no título, a audiência de Paulo Guedes acontece na Câmara dos Deputados, e não no Senado Federal. O texto também afirmava no sexto parágrafo que Francisco Dornelles foi ministro de Tancredo Neves. Tancredo, no entanto, nunca chegou a tomar posse como presidente. Dornelles foi ministro da Indústria e Comércio e do Trabalho na gestão de Fernando Henrique Cardoso. O texto foi corrigido.