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Preços bem mais altos que inflação deixarão brasileiro mais pobre por anos

Mesmo com o reajuste de salário, se houver, o impacto da inflação no poder de compra das famílias é permanente, dizem economistas - GettyImages
Mesmo com o reajuste de salário, se houver, o impacto da inflação no poder de compra das famílias é permanente, dizem economistas Imagem: GettyImages

João José Oliveira

Do UOL, em São Paulo

17/04/2022 04h00

Resumo da notícia

  • Cesta básica está quase 50% mais cara que antes da pandemia, e carro usado vale mais hoje que quando era zero em 2020
  • Renda média da população caiu mais de 4%; salário mínimo até subiu, mas menos que a inflação oficial do governo
  • Essa perda de poder aquisitivo só se recupera se renda média avançar mais rápido que inflação, mas economistas duvidam disso

O brasileiro está saindo do período de dois anos de pandemia mais pobre, atingido pela inflação mais forte em duas décadas e pelos juros mais elevados desde 2017. A cesta básica hoje custa quase 50% mais que em 2020. Bens de consumo duráveis subiram tanto que hoje o carro usado vale mais que quando foi lançado, zero km, há dois anos.

O brasileiro está mais pobre porque a renda das famílias não está acompanhando essa carestia. O salário mínimo subiu menos que a inflação. Além disso, muitos produtos estão subindo bem mais que os índices de preços. Mesmo que o salário acompanhasse a inflação, não seria suficiente para repor o poder da compra. Para piorar, a renda média da população caiu 4,2% desde março de 2020. Então, a tendência é todos ficarem mais pobres por anos. Só quem é promovido, muda de trabalho ou ganha algum prêmio ou herança pode conseguir uma reposição adequada.

A inflação que temos hoje empobrece o brasileiro, que tem seu poder de compra reduzido, pois alimentos, tarifas públicas, gás de cozinha, combustíveis, energia, tudo tem subido muito acima da inflação, e a renda não vem crescendo.
Antonio Corrêa de Lacerda, PUC-SP e presidente do Conselho Federal de Economia

Renda não acompanha preços

Antonio Corrêa de Lacerda, coordenador do programa de pós-graduação em Economia Política da PUC-SP e presidente do Conselho Federal de Economia, diz que a perda de poder aquisitivo das famílias será permanente se a renda dos trabalhadores não tiver aumentos reais (acima da inflação).

Isso quer dizer que a simples reposição do IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), índice oficial de inflação do governo, não é suficiente para a pessoa recuperar o poder de comprar bens que tiveram os preços reajustados para cima em um certo período.

A cesta básica, por exemplo, custava R$ 626,00 em São Paulo em março do ano passado. Em março de 2022, ficou em R$ 761,19, um aumento de 21,6%, segundo o Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos).

Se um trabalhador recebeu agora em abril um reajuste de 11,3% (inflação oficial no período), ele terá de comprar menos alimentos. Essa perda de poder de compra fica permanente, mesmo com o reajuste. A pessoa fica mais pobre e não consegue alcançar o nível de consumo que tinha antes. E muitos trabalhadores não têm nem o reajuste pela inflação, o que é pior ainda.

Esse descompasso continua porque a cesta básica segue subindo de preço todo mês, enquanto o salário só vai ser reajustado -se for- ao fim de 12 meses, afirma o economista Guilherme Moreira, coordenador da Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas, da Universidade de São Paulo)

A inflação alta sempre representa menor poder aquisitivo porque as pessoas não conseguem recompor perdas. O aumento de salário que vem lá na frente não repõe o poder de compra.
Guilherme Moreira, coordenador da Fipe

Preços em alta; renda em baixa

Pesquisas de diferentes fontes mostram que os preços estão subindo mais que a renda. Muitos bens e serviços avançam a um ritmo superior ao IPCA, que representa uma média da economia. Veja abaixo algumas variações de preços entre março de 2020, quando começou a pandemia, e março último.

  • IPCA: +18,2% (IBGE)
  • Salário Mínimo: +16%
  • Renda média do brasileiro: -4,2% (IBGE)
  • Cesta básica em São Paulo: +46,8% (Dieese)
  • Cesta básica em Aracaju (SE): +34,5% (Dieese)

Pobres sofrem mais

Essa inflação que está corroendo o poder de compra dos brasileiros afeta principalmente os mais pobres, dizem economistas. Isso porque os itens que mais estão subindo são justamente os essenciais, como alimentos, gás de cozinha e energia, que mais pesam na cesta das famílias de menor renda.

A inflação afeta também as famílias de classes mais elevadas, mas elas conseguem de alguma forma ajustar o orçamento, por exemplo, cortando despesas como viagens. Além disso, essas classes que têm algum tipo de investimento financeiro conseguem se aproveitar da alta dos juros para melhorar o rendimento das aplicações. As classes de menor renda não têm essas ferramentas para enfrentar esses aumentos de preços.
Guilherme Moreira, coordenador da Fipe

Menor poder para investir também

Mas mesmo quem tem o privilégio de conseguir poupar parte do orçamento para investir e planejar o futuro está ficando mais pobre, afirma o economista chefe da Ativa Investimentos, Étore Sanchez.

Investir também é um tipo de consumo, então a inflação reduz a capacidade da família para buscar proteção do capital e do patrimônio. Esse impacto inflacionário é irreversível mesmo que haja recomposição por salários.
Étore Sanchez, economista-chefe da Ativa Investimentos

Aumento de renda estagnado

Para conter o empobrecimento provocado pela inflação, o caminho seria o aumento da renda da população. Mas o desemprego elevado e o baixo crescimento econômico atrapalham a possibilidade de as famílias recuperarem o poder aquisitivo ou, ao menos, acompanhar a inflação, dizem economistas.

Mostramos nesta reportagem que é cada vez menor o número de categorias de trabalhadores que conseguem reajustes ao menos iguais à variação da inflação.

Os trabalhadores formais estão com dificuldades para repor as perdas salariais, com a crise econômica e o endurecimento das negociações desde a reforma trabalhista de 2017, que desvalorizou a negociação coletiva e enfraqueceu o movimento sindical.
Fausto Augusto Júnior, diretor técnico do Dieese.

Segundo o economista do Dieese, a desregulamentação do mercado de trabalho pela reforma trabalhista, o fim dos estoques reguladores dos alimentos e a descontinuidade das políticas de fortalecimento da agricultura familiar colocaram a economia brasileira em um círculo vicioso, difícil de ser revertido no curto prazo.

Para Corrêa de Lacerda, da PUC-SP, a recuperação do poder aquisitivo do brasileiro passa pelo crescimento da economia. E, para isso, o governo precisa adotar políticas de competitividade para gerar mais empregos em setores de maior valor agregado, como na indústria, que pagam salários maiores.

Procurado, o Ministério da Economia disse que não comentaria o assunto.