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Guerra afeta voo: Rússia perde acesso a 79 jatos e manda nacionalizar frota

A AerCap, maior empresa de leasing de aeronaves, conseguiu reaver um Boeing 777-330ER que estava fora da Rússia - Divulgação
A AerCap, maior empresa de leasing de aeronaves, conseguiu reaver um Boeing 777-330ER que estava fora da Rússia Imagem: Divulgação

Thiago Varella

Colaboração para o UOL

26/04/2022 04h00

As empresas de transporte aéreo da Rússia já perderam acesso a 79 aeronaves desde o início das sanções impostas por países ocidentais após a invasão da Ucrânia.

As companhias, na verdade, não eram as verdadeiras proprietárias desses aviões. Todos pertenciam ou eram administrados por empresas internacionais de leasing que, com a guerra, estão preocupadas em reaver seus jatos.

Os contratos com as companhias aéreas russas foram cancelados em 28 de março, num pacote de sanções.

No total, 515 aeronaves haviam sido arrendadas aos russos antes da invasão da Ucrânia. Por isso, as 79 recuperadas, de acordo com a Cirium, empresa de análise de dados da aviação, ainda representam um número baixo.

Até agora, as empresas conseguiram recuperar somente aviões que estavam fora da Rússia.

O que é o leasing?

Comprar uma aeronave é algo bem caro. Um Boeing 777-330ER, por exemplo, pode custar até US$ 100 milhões, dependendo do seu tempo de uso.

Por isso, as companhias aéreas costumam adquirir seus aviões por leasing. Funciona assim: as empresas alugam os jatos mediante um pagamento mensal, mas não se tornam donas das aeronaves.

Esse valor mensal —que costuma ser mantido em sigilo, mas pode ultrapassar os US$ 300 mil— é pago à empresa que faz o leasing (o lessor). Em alguns modelos, a companhia pode comprar o jato no final do contrato ou trocar por outro modelo. Em outros, funciona parecido com o aluguel de carros.

aviões - Divulgação - Divulgação
Mais de 90% da frota de aviões comerciais da Rússia é compostas por modelos da Airbus e Boeing
Imagem: Divulgação

Bilhões em seguro

A maior empresa de leasing do mundo é a AerCap, que é dona de milhares de aeronaves. Ela não opera voos, apenas arrenda seus aviões para as companhias aéreas, que ficam responsáveis pela operação e manutenção.

Justamente por ser a maior do setor, é empresa que mais sofre com o risco de não conseguir recuperar suas aeronaves.

Mais de 100 aviões estavam em leasing com as áereas russas antes da crise na Ucrânia.

A AerCap conseguiu recuperar:

  • um Boeing 777-330ER (aquele que pode custar até US$ 100 milhões), em Tarbes (França)
  • outras 21 aeronaves
  • três motores

A BOC Aviation recuperou:

  • um Boeing 747-8F que estava com a companhia russa AirBridgeCargo, em Hong Kong

O site AirInsight identificou arrendados para a S7 Airlines (Siberia):

  • cinco A320ceo
  • dois A321ceo
  • seis A321neo
  • sete Boeings MAX 8

Com a novata iFly Airlines:

  • um A330-200
  • três A330-330

E com a Nordwind, com sede em Moscou:

  • três A321ceo
  • dois A321neo
  • dois A330-220
  • cinco Boeings 737-800

A ALC não divulgou o total de sua frota arrendada na Rússia nem o valor total dos contratos, mas o Airfinance Journal afirma que a empresa possui 25 aeronaves alugadas aos russos no valor de US$ 757 milhões.

A AerCap disse que possui seguro contra guerra ou conflitos e já entrou com pedido de US$ 3,5 bilhões à seguradora pelos aviões presos na Rússia, mas o processo deve se arrastar durante anos.

Governo mandou nacionalizar aviões

O governo russo anunciou em março que as companhias aéreas podem nacionalizar todos os aviões que as empresas de leasing tentam recuperar e mudou o registro das aeronaves de países como Bermuda ou Irlanda para a Rússia.

A UTair Airlines afirmou que pararia de utilizar os nove Boeing 737 NG que eram arrendados, mas boa parte da frota de aviões de empresas de leasing que estão na Rússia continuam voando normalmente em rotas domésticas —mesmo com o risco de faltar peças e serviços.

As maiores fabricantes de aviões do mundo (Airbus, Boeing e Embraer) anunciaram a interrupção dos serviços para empresas aéreas russas. Embora os termos do boicote não sejam muito claros, foi citado o encerramento do fornecimento de peças, manutenção e suporte técnico para as companhias da Rússia, além do fechamento de alguns escritórios naquele país e na Ucrânia.

Atualmente, são cerca de 500 aviões da Boeing e da Airbus voando na região, cujo valor estimado chega a US$ 10,3 bilhões (R$ 52 bilhões), segundo a empresa de consultoria Ishka.

Já pela Embraer, são 60 aviões, um pouco menos da metade destes pertencente a operadores privados da aviação executiva e o restante de propriedade de empresas de leasing e que operam em companhias aéreas.

Segundo Sillas de Souza Cezar, professor do curso de economia da Faap (Faculdade Armando Álvares Penteado), disse à coluna Todos a Bordo, que o boicote pode causar fortes impactos na aviação russa e tornar esse segmento inseguro no país: "Na melhor das hipóteses, na mais otimista, voar fica mais perigoso".