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Mesmo com deflação, comida continua cara; o que falta para preços caírem?

De janeiro a julho, o preço do leite subiu 77,84% - volkan cakirca/Getty Images/iStockphoto
De janeiro a julho, o preço do leite subiu 77,84% Imagem: volkan cakirca/Getty Images/iStockphoto

Do UOL, em São Paulo

07/09/2022 04h00

O Brasil registrou deflação em julho, o que sinaliza uma queda média dos preços. Apesar desse recuo no geral, os alimentos ainda estão pesando no bolso dos brasileiros. De acordo com o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) de julho, o grupo de alimentos e bebidas subiu 14,72% nos últimos 12 meses.

Os alimentos que mais sofreram no período foram o mamão (99,39%), a melancia (81,60%), a cebola (75,15%), o morango (73,86%), a batata-inglesa (66,82%) e o leite longa vida (66,46%).

Nesta sexta (9), o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulga a inflação oficial de agosto, e a expectativa do mercado é que o índice tenha mais uma redução. A prévia da inflação de agosto registrou queda de 0,73%, enquanto os alimentos subiram 1,12% no mês.

Por que a comida continua cara? Daniel Miraglia, economista-chefe do Integral Group, empresa especializada em gestão de investimentos, diz que o preço dos alimentos ainda é impactado pela guerra entre Rússia e Ucrânia.

Como os dois países são grandes produtores de insumos agrícolas, a guerra diminui a oferta e aumenta os preços para os mercados internacionais.

Miraglia diz que pandemia de covid-19 diminuiu a oferta de alimentos em todo o mundo. Depois, houve uma nova redução de produção com a guerra na Ucrânia. Para ele, os preços devem continuar subindo em um ritmo um pouco menor até o começo do próximo ano.

O aumento dos custos para produzir os alimentos e o clima também impactam os preços, diz Matheus Peçanha, economista da FGV/ Ibre.

No inverno, é normal que alguns produtos estejam na entressafra, principalmente frutas e verduras, o que diminui a oferta e faz com que os preços fiquem mais altos. O maracujá e a melancia são produtos que estão em entressafra agora.

A expectativa é que, com a chegada da primavera, as frutas e verduras tenham uma queda nos preços.

Quando os preços vão cair? Os especialistas ouvidos pelo UOL afirmam que dificilmente os preços dos alimentos vão cair significativamente no curto prazo.

As projeções da Tendências Consultoria são de que haja uma queda nos preços das commodities (soja, trigo, milho) e das carnes no geral, mas que os preços vão se estabilizar em níveis mais altos do que eram registrados antes da pandemia.

Gabriela Faria, analista da Tendências, diz que mesmo com a deflação no país, os preços dos alimentos não devem cair no curto prazo. Por enquanto, o leite tem sido um dos destaques na alta de preços.

O que acontece com a carne? O preço da carne, que vem subindo desde o início da pandemia, dá indícios de que não deve aumentar nos próximos meses. Para Faria, o consumidor deve sentir primeiro uma queda no preço da carne do que no do leite.

Com a maior disponibilidade de carne no mercado pelo abate, isso pode ajudar a diminuir os preços.

No entanto, Peçanha diz que o aumento das exportações de carne pode dificultar um pouco o barateamento para o consumidor final, mas que os dados já mostram que as carnes não estão subindo tanto quanto antes.

A chegada da primavera deve ajudar a melhorar as pastagens, diminuindo os gatos com ração para o gado.

Os custos para manter o gado também dificultam a queda no preço da carne, diz Faria. Apesar de a oferta ter aumentado com o abate de mais animais, ela ainda não está normalizada.

Faria diz que a expectativa é que a oferta só se normalize no ano que vem e, ainda assim, que os custos para criar gado mais altos devem continuar dificultando a redução nos preços.

Apesar de a tendência ser de queda nos preços da carne nos próximos meses, Matheus Peçanha afirma que a diminuição não deve ser tão expressiva assim.

Por que o leite está mais caro? O leite é um dos grandes vilões da inflação nos últimos tempos. De janeiro a julho deste ano, o leite ficou 77,84% mais caro.

Faria diz que os custos para manter o gado aumentaram, com remédios e alimentação do gado mais caros, por exemplo. Isto fez com que os produtores optassem pelo abate dos animais, aumentando a oferta de carne no mercado, mas diminuindo a de leite.

Com menos vacas, a oferta de leite diminuiu, aumentando os preços ao consumidor. Existe uma dificuldade de diminuir os preços justamente pela menor quantidade de leite disponível. Os custos para manter o gado leiteiro também impactam nos preços.

Além do preço mais alto, que encarece os derivados, o Brasil importa laticínios, como queijo e iogurte, que tiveram um aumento do preço impulsionado pelo leite e pelo câmbio.

Impacto do diesel nos preços: Apesar de os combustíveis serem um dos principais fatores para a deflação, o diesel, que é usado para abastecer os caminhões que transportam os alimentos pelo Brasil, não está com preços mais baixos.

A redução do ICMS trouxe impactos nos preços da gasolina e do etanol, mas a política não foi aplicada ao preço do diesel. De janeiro a julho, o IPCA mostra que a gasolina teve queda de 8,67%, e o etanol de 14,88%. Em contrapartida, o diesel ficou 39,51% mais caro.

Peçanha diz que o preço do diesel não está caindo por causa da perspectiva de consumo do combustível na Europa. Sem o gás da Rússia, o diesel acaba se tornando uma alternativa de energia, e isso aumenta sua demanda e o preço.

O La Niña, fenômeno natural responsável por invernos mais rigorosos e secas, afetou pastagens neste ano, somado ao aumento do preço do milho, que é uma commoditie usada na alimentação de gado, deixaram a pecuária mais cara.

Peçanha diz que os hortifrútis devem cair com a chegada da primavera, como é o caso de tomate, alface e batata.

Os preços dos produtos agrícolas que passam por mais industrialização devem se manter estáveis nos próximos meses. É o caso de arroz, feijão e farinha de trigo, segundo Faria.

O que falta para os preços caírem? Miraglia diz que não existe uma solução de curto prazo para que o preço dos alimentos diminua. Para ele, a saída é aumentar a oferta de insumos agrícolas.

Hoje o Brasil é muito dependente da compra de insumos de outros países, como fertilizantes da Rússia. Apesar de Miraglia considerar que essa é a alternativa, criar novas cadeias de produção demanda tempo e dinheiro.

Para Faria, o mercado internacional está difícil de prever por causa da guerra entre Rússia e Ucrânia. Como os dois países são importantes para agricultura, qualquer movimentação entre eles pode impactar o preço de alimentos no mundo todo.

Aqui no Brasil, as eleições podem interferir no câmbio —as incertezas acabam fazendo com que o real perca valor frente a outras moedas.