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'Tá pesado!': brasileiros apertam cintos contra inflação argentina a 100%

Os brasileiros Tainã e Henrique moram na Argentina e estão sofrendo com a inflação local - Arquivo Pessoal
Os brasileiros Tainã e Henrique moram na Argentina e estão sofrendo com a inflação local Imagem: Arquivo Pessoal

Simone Machado

Colaboração para o UOL, em São José do Rio Preto (SP)

16/03/2023 04h00Atualizada em 16/03/2023 10h04

A inflação na Argentina acumula 102,5% nos últimos 12 meses. É a primeira vez desde 1991 que o índice passa dos três dígitos. Brasileiros que moram no país relataram ao UOL que estão tendo de apertar os cintos e mudar hábitos de consumo, além de buscarem trabalhos com melhor remuneração.

Supermercado bem mais caro

Há três anos morando em Rosário, a gerente administrativa Tainã Damião, de 34 anos, conta que sente a inflação principalmente na hora de fazer a compra do mês.

Em 2020, quando chegou ao país, ela gastava cerca de 4.000 pesos argentinos e consumia carnes, verduras e produtos não perecíveis. Hoje, com o mesmo valor, é possível comprar apenas uma caixa de cerveja e três pacotes de salgadinho.

"Estão bem pesados os preços. Quando encontro algum produto em um valor que considero acessível, já compro, porque sabemos que no mês seguinte ele vai estar com outro valor", diz Tainã.

Cortou até o sorvete

A brasileira já precisou ajustar seus gastos e deixou alguns prazeres de lado. "Eu amo o sorvete daqui. Pagava 250 pesos argentinos e tomava de três a quatro vezes na semana. Agora o mesmo sorvete custa 900 e passei a consumir esporadicamente."

A alta de preços atinge principalmente aqueles que vivem na informalidade, como Maria Fernanda Silva Tavares, de 25 anos. Morando sozinha no país desde 2020, ela trabalha como entregadora, não tem carteira assinada nem garantia diária de trabalho.

A maior dificuldade tem sido manter em dia as contas mensais, como aluguel, energia elétrica e telefone.

A cada mês, as coisas ficam mais caras, e a gente precisa economizar como dá. Substitui uma carne por outra mais barata, deixa de comprar um chocolate ou roupas que não são itens essenciais. Por enquanto ainda está dando para pagar as contas todas em dia, mas se continuar assim não sei como vou fazer. Estou buscando um trabalho com carteira assinada, mas não é fácil. Maria Fernanda Silva Tavares.

Ter renda em real ajuda a combater perdas

Segundo o instituto que mede a inflação na Argentina, o índice em janeiro foi de 6%, em fevereiro, bateu 6,6% e o de março pode chegar a 7%. Os aumentos mais significativos, segundo os especialistas, serão em energia elétrica, gás, transporte público, plano de saúde e educação privada.

Apesar da alta, os brasileiros que vivem no país e possuem uma renda em real, afirmam que não foram tão impactados, uma vez que o real se valorizou quando comparado ao peso. Atualmente R$ 1 corresponde a cerca de 40 pesos.

Trabalhando como autônomo na criação de sites, Henrique Douglas Braz, de 35 anos, vive há seis anos em Rosário, mas mantém o atendimento aos brasileiros -o que lhe garante também um salário em real.

Já tendo a experiência de trabalhar em um emprego com carteira assinada na Argentina e também na informalidade, ele explica que os profissionais que trabalham de maneira registrada não sentem tanto os impactos da alta nos preços, já que o salário tem reajuste acompanhando a inflação do país.

Trabalhando de maneira informal é mais difícil. A gente sente na hora em que vai ao mercado: o preço aumenta na prateleira e o salário continua o mesmo. Henrique Douglas Braz

Custo de vida no Brasil é considerado mais caro

O encarregado de sistemas Ricardo Armas é argentino e está acostumado com a inflação descontrolada do país. Ele afirma que além da perda de poder aquisitivo, a população sofre também com o aumento abusivo praticado por muitos comerciantes.

Devido à inflação, a referência de preço também se perde e fica muito difícil saber se algo está realmente caro, ou é uma especulação dos comerciantes. Ricardo Armas

Apesar da alta inflação, o brasileiro Henrique Braz afirma que os preços praticados no país vizinho são muito semelhantes aos encontrados no Brasil e opina que há pontos em que a qualidade de vida na Argentina supera a brasileira.

Fiquei três meses no Brasil, retornei agora em março para a Argentina e senti que os preços dos alimentos nos dois países são bem próximos. Mesmo com a inflação, a qualidade de vida comparada com a do Brasil é muito melhor. Com a minha renda, eu não conseguiria morar sozinho no Brasil, alugar um apartamento, pagar as contas e fazer o mercado como eu faço aqui. No Brasil, as pessoas sofrem uma inflação camuflada. Henrique Braz