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Gasolina vai ficar mais barata? O que muda com a nova política da Petrobras

REUTERS/Sergio Moraes
Imagem: REUTERS/Sergio Moraes

Do UOL, em São Paulo

17/05/2023 04h00

A Petrobras anunciou uma nova política de preços dos combustíveis e abandonou a paridade de preços de importação que vigorava desde 2016. Para analistas, a forma como a nova política vai funcionar ainda é pouco clara, mas ela deve significar combustíveis mais baratos para o consumidor final. Logo após o anúncio da nova política, a estatal divulgou redução nos preços da gasolina, diesel e GLP (gás liquefeito de petróleo, o gás de cozinha) para as distribuidoras.

Como fica o preço dos combustíveis agora?

Ainda não está claro como os preços serão definidos. A avaliação de analistas ouvidos pelo UOL é de que ainda não é possível saber como funcionará na prática a nova política de preços. Para Adriano Pires, sócio do Centro Brasileiro de Infraestrutura, isso é indício de que haverá menos transparência na definição dos reajustes.

A expectativa é que a gasolina fique mais barata. "Tudo leva a crer que vamos ter preços menores em relação à outra política, e com espaçamentos de reajuste maiores", diz Walter Vitto, analista da consultoria Tendências. Após o anúncio da nova política, o presidente Lula reforçou que irá "abrasileirar" os preços dos combustíveis. Desde a adoção do chamado PPI, a gasolina subiu mais que a inflação. O preço médio do litro da gasolina comum passou de R$ 3,66 em outubro de 2016 para R$ 5,51 em abril de 2023.

Reajustes devem ser mais espaçados. Outra mudança prevista é o maior intervalo entre os reajustes dos preços nas refinarias. No PPI, os reajustes buscavam acompanhar as mudanças no preço internacional do petróleo, que varia constantemente. Agora, os reajustes serão feitos "sem periodicidade definida, evitando o repasse para os preços internos da volatilidade conjuntural das cotações internacionais e da taxa de câmbio", disse a Petrobras em comunicado.

Ainda não está claro como grandes altas do petróleo serão acomodadas. Como detalhes do novo modelo não foram divulgados, não é possível antecipar o que acontecerá com os preços nacionais quando ocorrerem grandes altas no preço internacional do petróleo. A avaliação é que os aumentos devem ser sentidos com mais suavidade no mercado nacional.

Mudança pode reduzir a inflação e os custos de produção. A depender do tamanho da redução nos preços dos combustíveis, a mudança na política da Petrobras tem potencial para reduzir a inflação e os custos de produção no país, avalia o analista da Tendências. Ele também vê uma potencial elevação do consumo de combustíveis, com elevação da arrecadação de impostos, já que os valores são fixos por litro de combustível consumido.

Preço internacional ainda será levado em consideração. Dentre os pontos a serem levados em consideração na formação do preço dos combustíveis está o custo alternativo do cliente, ou seja, "as principais alternativas de suprimento, sejam fornecedores dos mesmos produtos ou de produtos substitutos", disse a Petrobras. Isso indica que os custos regionais vão ganhar mais importância na formação de preços, mas ainda haverá relação com as cotações internacionais, diz Ruy Hungria, analista da Empiricus.

Custos de produção ganharão mais relevância. Outro ponto a ser considerado na formação dos preços será o valor marginal para a empresa, que é baseado no custo das alternativas para a companhia, dentre elas, produção, importação e exportação do combustível. Na visão do analista da Empiricus, isso "indica sustentabilidade financeira e também afasta a possibilidade de a companhia vender combustíveis abaixo do seu preço de custo, como aconteceu em meados da década passada".

Lucro da Petrobras será afetado?

Ao segurar os reajustes, Petrobras pode ter redução no lucro. Caso a empresa opte por uma política que distancie muito o preço nacional dos preços internacionais, uma consequência é a redução nos lucros da Petrobras, avalia Vitto. Mas a empresa não deve chegar a ter prejuízos com a nova medida já que as margens da empresa hoje são altas, diz. Nos últimos anos, a companhia distribuiu dividendos bilionários, e o governo também se beneficiou. Em nota, a Petrobras disse estar comprometida com a "geração de valor e com a sustentabilidade financeira de longo prazo".

A mudança pode ter consequências para a importação de combustível. Hoje o Brasil não é autosuficiente em refino. A depender da diferença entre o preço nacional e o internacional, a mudança pode gerar dificuldades para as importadoras e, no limite, criar um risco de desabastecimento, diz Sérgio Araújo, presidente executivo da Abicom (Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis).

Menor preço da gasolina pode afetar o mercado de etanol. Com maior incentivo ao uso da gasolina, o setor de etanol pode ser prejudicado. O etanol concorre com a gasolina e costuma ser mais barato para atrair o consumidor. Se o preço da gasolina cair, os produtores de etanol são pressionados a baixar seus preços também, caso contrário a demanda do consumidor pode diminuir.

Mudança veio melhor do que o esperado pelo mercado

O grande medo dos investidores era um congelamento de preços. Outro temor era que as referências internacionais fossem completamente abandonadas na formação de preços da estatal. O comunicado da estatal afastou essa hipótese.

O temor de congelamento de preços remete ao governo de Dilma Rousseff. Na época, a Petrobras represou o aumento dos combustíveis para segurar a inflação, o que gerou perdas para a empresa e seus acionistas.

A mudança já era esperada, uma vez que o fim da paridade internacional de preços foi uma promessa de campanha de Lula. Em março de 2022, o então candidato à presidência prometia "abrasileirar os preços dos combustíveis".

A empresa tem gordura para administrar a mudança. Na avaliação do economista André Perfeito, esse é um bom momento para a mudança anunciada pela estatal. Isso porque, antes da redução anunciada ontem, os preços domésticos estavam mais caros que a paridade internacional. Se a Petrobras souber administrar essa gordura pode agradar a Faria Lima e movimentos mais à esquerda, diz.