Consultoras acusam empresa de óleo natural de assédio moral e de enganá-las

Reclamações de ex-consultoras da empresa de óleos naturais doTerra estão se multiplicando nas redes sociais nos últimos meses. Entre os relatos, há frustração com a marca e queixas sobre pressão para bater metas, além de críticas em relação ao modelo de negócios que, para alguns, seria como uma pirâmide financeira. Ao UOL, a empresa nega atuar de forma ilegal e repudia comportamento abusivo entre os consultores.

O que aconteceu

Mulheres afirmam terem sido vítimas de "propaganda enganosa" de consultoras ligadas à empresa, que prometiam não só renda extra como também altos ganhos financeiros, o que acabou se transformando em dívidas e frustração.

Em nota, a doTerra afirma que comercializa seus produtos por meio de seu e-commerce, utilizando o sistema de marketing direto, no qual consultores independentes atraem clientes para comprarem os óleos da empresa pelo site.

Ainda segundo a empresa, os consultores recebem apenas bonificações e não remuneração por parte da empresa. Portanto, não há garantia de uma renda extra.

A doTerra não assegura o ganho de renda extra por parte de seus consultores, tendo em vista que o recebimento de bonificação depende integralmente do próprio desempenho do consultor independente, ou seja, o próprio consultor é o responsável por seus ganhos, tanto que as bonificações são variáveis. Nota doTerra

Rita (à esquerda) e Ianize viraram consultoras da empresa doTerra achando que teriam renda extra, mas desistiram
Rita (à esquerda) e Ianize viraram consultoras da empresa doTerra achando que teriam renda extra, mas desistiram Imagem: Arquivo pessoal

"Não lucrei nem 10% da promessa"

Promessa tentadora. Ianize de Novais Barreto, 32, resolveu virar consultora da empresa depois de ouvir sobre a "remuneração", em 2021: "Me disseram que, em três ou quatro anos, eu chegaria ao nível Diamond", diz a professora que vive no Rio.

O rendimento mensal seria de cerca de R$ 52 mil reais por mês neste nível, que é o terceiro mais lucrativo na doTerra.

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No entanto, ela conta que não lucrou nem 10% da promessa ao longo de dois anos na empresa. "Eu investia de R$ 800 a R$ 1 mil por mês comprando produtos, mas recebia de R$ 150 a R$ 200 de bônus".

A equipe da qual ela fazia parte precisava cumprir metas mensais para receber bônus da empresa. Parte da meta dependia das compras feitas pelas pessoas que cada consultor havia trazido para a doTerra.

Ianize de Novais Barreto
Ianize de Novais Barreto Imagem: Arquivo pessoal

Todo mês, Ianize precisava vender um kit de cerca de mil reais para cada uma das 25 pessoas que ela cadastrou como consultor.

As pessoas que eu cadastrei compravam óleos no primeiro mês e depois não compravam mais, porque o kit sempre foi muito caro, mesmo parcelando, era muita coisa.

Ianize resolveu abandonar os negócios depois de uma "solução estranha" ser indicada por um dos líderes.

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Eles me falavam para comprar óleos no CPF de terceiros, das pessoas que eu tinha cadastrado, sem que elas soubessem.

Comprar produtos usando o CPF de terceiros sem a permissão ou consentimento deles é uma prática ilegal.

Ianize conta que também sofreu pressão psicológica por parte dos líderes de sua equipe dos níveis "Blue Diamond".

Eles me mandavam mensagens dizendo que eu não conseguia bater a meta por falta de trabalho (...) Isso aumentou ainda mais minha ansiedade.

A doTerra informou que não compactua com qualquer tipo de iniciativa ilícita ou fora das políticas da empresa: "Este tipo de iniciativa não é autorizada ou incentivada".

Já em relação à pressão por metas, a empresa disse repudiar as atitudes e afirmou que apura situações assim para "coibir e punir irregularidades".

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Cada consultor tem a liberdade e flexibilidade de fazer o negócio com o objetivo, tempo e esforço que julgar necessário para o seu estilo de vida, uma vez que eles são autônomos. Nota doTerra

"Investi R$ 10 mil e não faturei nem R$ 2 mil"

Renda extra e indicação da amiga. Foi assim que Letícia*, 42, empresária de Piquete (SP), foi atraída para ser consultora da marca.

Eles apresentam como algo leve, simples e fácil de vender. Mas é uma pressão, você precisa fazer pedidos todo mês para receber os bônus. Investi de R$ 1 mil a R$ 1.500 por mês por 10 meses e não tive nem R$ 2 mil de retorno.

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Imagem: Natalie Maro/Getty Images/iStockphoto

Para conseguir mais pontos, os consultores devem indicar pessoas para também se cadastrarem na empresa.

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Eu, por exemplo, não consegui cadastrar nenhum consultor porque sempre mandava a real: que gastava muito e não tinha retorno. Não existia isso de renda extra.

A empresária conta ainda que quase "enlouqueceu" neste processo todo. Além da pressão da líder da equipe dela, havia uma quantidade imensa de grupos no WhatsApp.

Era tanta mensagem no WhatsApp, reunião, treinamentos. Queria acompanhar, mas tinha que cuidar do meu filho. Fiquei estressada, ansiosa, ganhei peso e parte disso foi a doTerra que contribuiu.

Censura dos líderes. Letícia conta ainda que cada equipe tem um treinamento diferente e suas próprias regras. Quando alguém questionava algo, era logo advertido.

Eles não querem ninguém questionando. A líder que estava no nível 'gold' falou que iria retirar do grupo as consultoras que estavam 'em cima do muro', que não conseguiam vender. Era muito assédio moral.

De acordo com a empresa, consultores não são removidos caso não cadastrarem clientes ou novos consultores.

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No entanto, uma das atividades que desenvolvem o negócio e avançam no ranking é o cadastro de novos consultores. Assim, eles têm o papel de oferecer orientações e dar suporte aos novos cadastrados em sua rede, sobre como desenvolver da melhor forma possível o seu negócio em parceria com a doTerra, de acordo com seus objetivos pessoais. Nota doTerra

"É uma lavagem cerebral"

"Sou aposentada e pensei que seria uma forma de ter uma renda", conta Rita Medina Farias, 61, depois que viu uma amiga fazendo propaganda dos óleos no Instagram. Na primeira compra, há 3 anos, ela gastou R$ 1.500 com os produtos.

Minha ideia inicial era vender os produtos por um preço mais em conta, mas aí descobri que era necessário continuar fazendo compras para não perder o status de consultora, mesmo com produtos em casa.

"História estranha". A aposentada que vive em Niterói (RJ) ouviu discursos de que era possível "ficar milionária e ganhar muito dinheiro".

É como uma lavagem cerebral mesmo, sabe? Percebi isso e resolvi que iria sair. Não conseguia vender nada. Só uma amiga que comprou para me ajudar.

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Rita acredita que poucas pessoas conseguem, de fato, subir de níveis na empresa.

Rita tentou por quase 6 meses ser consultora
Rita tentou por quase 6 meses ser consultora Imagem: Arquivo pessoal

Depois de uns 6 meses, a líder do meu grupo percebeu que eu já não estava mais participando. E ela falou que iria excluir as pessoas que não estavam mais tão ativas, e me tirou.

Retorno financeiro foi quase nulo, segundo Rita. "De uma venda de R$ 1 mil, recebi em torno de R$ 100. Não pagou nem 5% do que gastei. Nunca mais."

O objetivo sempre foi trazer mais gente para a equipe. Tanto que, como eu não progredi, fui deixada de lado. Você só vai ganhar dinheiro se conseguir formar um grupo forte.

Rita só descobriu que o esquema poderia ser uma "furada" com ajuda do sobrinho, Rafael Medina, advogado especializado em pirâmide financeira, que deu "um toque" nela.

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Para o especialista, a empresa adota características semelhantes ao de esquema de pirâmide, prática considerada crime no Brasil.

Eles captam as pessoas pelo sonho: ganhar dinheiro fácil e rápido. Há um discurso de que o investimento será pequeno, mas o retorno será grande. Existe o argumento de que aquele produto é 'especial'. Rafael Medina, advogado

A doTerra nega que atue com modelo de pirâmide financeira. "Além de ser uma informação mentirosa, é totalmente condenada pela empresa", disseram.

Não há qualquer relação entre o modelo de negócios da empresa e esquemas de pirâmide, que são formas ilegais de arrecadação de dinheiro, nas quais há a arrecadação de recursos financeiros sem a existência de um produto concreto comercializado. Tão pouco atuamos no modelo de marketing multinível e, sim, como marketing direto. Nota doTerra

Prática é legal e é diferente de pirâmide

Os advogados consultados pelo UOL afirmam que é preciso ter cautela ao acusar a empresa de funcionar como pirâmide.

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A prática adotada pela doTerra é considerada legal e comum no mercado, explica Gustavo Kloh, professor da FGV Direito Rio.

Revendedoras tiveram prejuízo financeiro
Revendedoras tiveram prejuízo financeiro Imagem: Getty Images/iStockphoto

Se o consultor está aumentando a base de pessoas, mas também está vendendo um produto real, como um shake de dieta, não vou te dizer que é o jeito mais bonito de se trabalhar, mas ilegal não é. Gustavo Kloh, da FGV Direito Rio

O problema, segundo os especialistas, é quando uma empresa se sustenta exclusivamente pela entrada de novos membros —que não é o caso da doTerra. Aí entra o conceito de pirâmide, que é crime.

A pirâmide financeira é um esquema comercial que pode envolver ou não algum produto para venda. Promete remuneração alta a quem aderir e levar novos membros para o negócio.

É como um castelo de cartas. A lógica da remuneração é trazer novas pessoas. Pessoas novas entram, põem dinheiro e o dinheiro delas gera um caixa para o pagamento das que já estão. E isso vai funcionando até o momento que as pessoas param de entrar, que é quando a pirâmide desmorona. Ruy Camilo, professor de Direito da USP

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É difícil classificar a doTerra como pirâmide sem analisar as finanças da empresa —atividade que cabe aos órgãos responsáveis e, se for o caso, à polícia —, segundo o advogado.

A doTerra possui todas as autorizações necessárias para o desempenho de suas atividades e observa e preza pelas exigências feitas pelos órgãos públicos no desenvolvimento de seu negócio. A relação contratual existente entre a empresa e seus membros foi construída com base na legislação vigente, sendo 100% idônea e lícita. Em resumo: presença global, investimento local, geração de empregos formais, suporte à comunidade local, produto concreto e forte. Todas essas são características de uma empresa sólida e legítima, o que não condiz com o modelo fraudulento de pirâmides financeiras. Nota doTerra

* O nome foi alterado a pedido da fonte.

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