Fusão de Arezzo e Soma: motivos da criação do maior grupo de moda do país

A fusão entre Arezzo&Co e Soma fará com que o novo grupo de moda tenha um faturamento combinado de R$ 12 bilhões. Especialistas ouvidos pelo UOL afirmam que o negócio tem dois motivos principais: ganhar valor que as duas marcas perderam na pandemia e se tornar o maior conglomerado de moda do Brasil.

O que motivou a fusão

Os grupos anunciaram a fusão nesta segunda-feira (5). A operação é positiva, para especialistas em varejo, e fará com que o grupo se torne o maior conglomerado de moda do Brasil. O negócio envolve mais de 20 marcas, que funcionariam sob o mesmo guarda-chuva, como Arezzo, Farm, Animale, AR&CO (novo nome da Reserva) e Hering. O novo grupo terá 2.000 lojas, sendo elas próprias e franquias.

Tanto Arezzo como Soma são empresas com boas marcas e boas condições financeiras. Ana Paula Tozzi, CEO da AGR Consultores, afirma que a fusão trará valor para ambas, que já são bem geridas e têm boa rentabilidade. O negócio é avaliado em R$ 12 bilhões, mas se fosse feito em 2021, seria próximo de R$ 20 bilhões, segundo Tozzi.

É importante entender que tem um lado de buscar valor para as duas marcas, para que elas retomem os seus valuations originais. O que se imagina é que essa fusão vai potencializar o valor de ambas as companhias e que possa então recuperar o montante perdido.
Ana Paula Tozzi, CEO da AGR Consultores

A queda do valor das empresas está ligada à pandemia. Com o fechamento das lojas físicas, as empresas precisaram investir mais para manter as operações de pé, segundo Tozzi. Alguns exemplos do que o varejo fez no período são ajudar os franqueadores com refinanciamentos e recebimento de volta de estoques parados e implementação de vendas por WhatsApp. O custo de venda aumentou muito durante a pandemia para manter o negócio funcionando, diz Tozzi.

O fenômeno aconteceu em todo o setor de varejo, não apenas com Arezzo e Soma. Com a reabertura da economia, lidaram com reajustes de aluguéis das lojas, o que encareceu os custos da operação, segundo Tozzi.

A complementariedade do portfólio de produtos da marca também é outro fator que motiva a fusão. A Arezzo é forte no setor de calçados, enquanto o grupo Soma tem mais destaque em vestuário. A fusão fará com que o grupo se torne o segundo com maior faturamento do país do segmento de moda, atrás apenas da Renner, que vale R$ 15 bilhões. É o que diz Cecília Rapassi, sócia-diretora da Gouvêa Fashion Business, empresa da Gouvea Ecosystem, com base em dados do ranking Ibevar FIA de 2023.

No Brasil não existe uma 'house of brands' nem próxima do que vai se tornar o resultado dessa fusão. Ela de fato passa a dominar o mercado de moda premium brasileiro com um portfólio bastante abrangente.
Alberto Serrentino, fundador da consultoria Varese Retail

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Há um desejo de expansão internacional da nova empresa. Alexandre Birman, atual CEO e CCO da Arezzo&Co, afirma, em nota à imprensa, que a operação vai ampliar as "plataformas de marcas, nos levando a um patamar de oportunidades mundiais". "Este novo capítulo nos trará uma chance única de integração de negócios e portfólios de marcas complementares, potencializando o cross-selling e garantindo um aumento na eficiência da operação", afirma Birman.

O grupo se tornará a maior multinacional de varejo de moda brasileira, segundo Roberto Jatahy, atual CEO do Grupo Soma, em nota. "Juntos, Grupo SOMA e Arezzo&Co se tornarão a maior multinacional do varejo de moda brasileiro com diversas possibilidades de sinergia, como a expansão da Farm Global e da categoria de sapatos femininos em nossas marcas", afirma Jatahy.

Ainda não há muitas informações sobre como será a composição societária da empresa. O que se sabe é que Alexandre Birman será o CEO da nova companhia, de acordo com fato relevante divulgado pelas empresas, ambas de capital aberto. Roberto Luiz Jatahy Gonçalves será o CEO da unidade de vestuário feminino, Rony Meisler continuará como CEO da AR&Co e o Thiago Hering continuará como CEO da Hering.

A Arezzo&Co terá 54% do negócio, enquanto Soma ficará com 46%. A operação será feita via troca de ações, de acordo com fato relevante.

Desafios da fusão

Criar uma cultura única para o novo grupo é um dos principais desafios da fusão. Hoje, são duas empresas com culturas diferentes e é preciso haver um equilíbrio entre elas para que se torne uma companhia só. "Não é muito simples equilibrar a história de sucesso de liderança de cada um e trazer uma nova. Então, acho que esse é o maior desafio", afirma Tozzi.

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O tamanho das empresas é outro desafio, já que fundir duas operações gigantes traz mais complexidade à operação. Isto porque Arezzo e Soma são empresas que cresceram fazendo fusões e aquisições. A última aquisição da Arezzo, por exemplo, foi da marca de calçados Vicenza, em 2023.

Franqueadores podem ficar receosos com a fusão, assim como funcionários das empresas do novo grupo. Rapassi diz que fusões podem trazer demissões, principalmente em áreas administrativas das companhias. No entanto, ainda não há nenhum indício de que o grupo fará demissões ou qualquer tipo de mudança em sua grade de funcionários.

Como ficam as empresas e consumidores

Cada marca deve manter seu DNA. O que se espera, segundo os especialistas, é que haja mais colaborações entre elas, tanto na confecção de itens em conjunto como no compartilhamento de estratégias de distribuição dos produtos, já que cada empresa se destaca em um canal de vendas.

É fundamental o respeito às marcas e aos seus DNAs. Isso o Jatahy faz muito bem. Ele sempre teve a política de respeitar os fundadores das operações que ele comprou, basta dizer que os fundadores [de marcas que foram fundidas] estão dentro do grupo até hoje.
Ana Paula Tozzi, CEO da AGR Consultores

O mercado afirma que o novo grupo deve manter a identidade de cada uma das marcas. Alberto Serrentino, fundador da consultoria Varese Retail, afirma que o histórico de fusões e aquisições atesta que tanto Arezzo como Soma têm capacidade de gerenciar um grande portfólio e manter as características principais de cada uma das participantes dos grupos.

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Como os dois grupos cresciam por aquisições, podemos ver como foi a política até agora. A empresa se mostrou disposta a manter a direção criativa e de branding preservada, o que é um ponto principal para manter a perenidade das marcas.
Cecília Rapassi, sócia-diretora da Gouvêa Fashion Business, empresa da Gouvea Ecosystem.

A sinergia entre as empresas do novo grupo deve trazer mais opções ao consumidor. Para Rapassi, os clientes vão ter vantagens em relação à venda cruzada (ou seja, a venda de produtos complementares) e colaborações, como já aconteceu com Farm e Hering. "Quando cruza potenciais collabs [colaborações] de marcas complementares e se virar um ganho de negociações, acho que o consumidor só tem a se beneficiar", afirma Rapassi.

A forma como os produtos são vendidos também deve ter ganhos com a fusão. Hoje Hering é forte em franquias, enquanto Soma tem um papel expressivo em lojas próprias, para Rapassi. A Farm e Schutz, por exemplo, têm destaque em exportação, o que pode abrir espaço para que outras marcas aproveitem o conhecimento delas e vendam para fora do Brasil.

Preços dos produtos devem ser mantidos. Serrentino diz que as companhias têm concorrentes diretos e que precisam manter os preços competitivos no mercado.

Sites asiáticos

A concorrência com sites asiáticos, como Shein, não motiva a fusão entre as marcas. No entanto, especialistas dizem que o crescimento dos e-commerces asiáticos, que têm preços mais baixos do que o varejo nacional, impactam o mercado como um todo.

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O cliente que compra na Arezzo ou Soma também compra na Shein, para Tozzi, principalmente os clientes da geração Z. Para ela, uma pessoa que tem condições em comprar de marcas mais caras, pode optar por um produto mais barato por ter viralizado nas redes sociais, por exemplo.

A fusão deve fazer com que a empresa aumente sua eficiência. Rapassi diz que, consequentemente, isso fará com que o grupo enfrente melhor a concorrência de sites asiáticos.

Não é ela [Shein] que desafia o mercado premium. Ela é muito transversal, afeta todo o sistema de moda. Hoje é pouco relevante em calçados, então uma parte grande do negócio da Arezzo é calçados. Não acredito que seja o fator determinante da fusão. É muito mais a oportunidade de criar uma house of brands brasileira dominante de moda premium, com ambição de internacionalização.
Alberto Serrentino, fundador da consultoria Varese Retail

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