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ENTREVISTA-Shell aposta em energia solar no Brasil de olho em potencial do mercado livre

09/06/2020 17h23

Por Luciano Costa

SÃO PAULO (Reuters) - A petroleira Shell está prestes a iniciar conversas com potenciais clientes para venda da produção futura de seus primeiros projetos solares no Brasil, que poderiam iniciar produção a partir de 2023, a depender do ritmo das negociações.

Os empreendimentos são parte de uma robusta carteira que tem sido desenvolvida pela empresa e inclui usinas previstas para implementação em Minas Gerais e em outras regiões, disse à Reuters a gerente de desenvolvimento de negócios em energia solar da Shell na América Latina, Maria Gabriela da Rocha.

A aposta é parte da estratégia da gigante de óleo e gás em renováveis e mira o crescente interesse de empresas pela compra de energia limpa em contratos de longo prazo, explicou a executiva.

"Nos últimos dois anos estávamos focando mais fortemente em desenvolver o portfólio... agora vamos começar a retomar as conversas com clientes, já com produtos para oferecer, uma vez que alguns de nossos projetos, principalmente o de Minas Gerais, estão em nível de desenvolvimento bem avançado".

A Shell já registrou junto à reguladora Aneel seu primeiro empreendimento, um complexo solar de 130 megawatts em Minas Gerais que demandaria mais de 500 milhões de reais, conforme publicado pela Reuters em abril.

A estratégia da Shell em solar no Brasil mira o forte crescimento recente do mercado de contratos privados de energia limpa, que tem sido impulsionado pela demanda de grandes empresas que buscam cumprir compromissos voluntários de redução de emissões e uso de geração renovável.

Grande parte das companhias que fecham contratos como esses são multinacionais, com as quais a Shell pode negociar em âmbito global, apontou Gabriela, enquanto a petroleira também tem uma comercializadora de energia já operacional no Brasil que conduz negociações locais.

A executiva destacou ainda o que vê como enorme potencial do Brasil para negociações de contratos privados com renováveis, dado o porte do mercado livre de eletricidade local na comparação com outros países e uma reforma em discussão no governo que visa ampliar esse segmento no médio prazo.

Atualmente, as empresas que atuam no mercado livre de energia do Brasil respondem por cerca de um terço da demanda no maior país da América Latina.

"Lá fora as pessoas não têm o entendimento do tamanho que tem o mercado brasileiro. Já é um mercado muito significativo e com muito potencial", disse Gabriela.

Ela citou projeção da consultoria especializada PSR, segundo a qual o mercado livre ainda poderia crescer e passar a responder por mais de 50% do consumo em 2024, a depender de reformas.

A executiva também destacou que outros mercados importantes para renováveis, como o norte-americano e o europeu, são fragmentados por Estados ou países, enquanto o Brasil tem um sistema elétrico interligado de enorme porte.

"Quase não tem outros mercados lá fora com tanto volume."

O porte do mercado brasileiro ainda pode ganhar impulso adicional a depender de uma proposta de reforma hoje em discussão no Ministério de Minas e Energia e no Congresso, que prevê estudos para que as negociações livres com energia possam ser estendidas no futuro a todos consumidores, inclusive residenciais.

PLANOS ORGÂNICOS

A Shell, que não tem revelado em público detalhes sobre seus negócios com energia renovável no Brasil até o momento, não informou o tamanho da carteira de projetos em preparação no setor e nem investimentos previstos.

Mas a executiva responsável pela área solar da petroleira ressaltou que o porte dos negócios será proporcional à importância da companhia.

"Vamos dizer que é um 'tamanho Shell'... Estamos com um apetite bastante grande, queremos ser um 'player' com um tamanho significativo, um 'player' grande no mercado brasileiro", afirmou Gabriela, em conversa por telefone.

A executiva disse ainda que a Shell está atenta ao mercado de energia solar de forma geral e não descarta nem mesmo aquisições no setor, em meio a eventuais oportunidades que possam surgir decorrentes da crise gerada pelo coronavírus.

Mas o foco, segundo ela, está em projetos próprios, desenvolvidos a partir do zero, o que passa até pela escolha de terrenos e medições de irradiação.

Embora mais longo, esse caminho pode permitir à empresa a criação de ativos mais competitivos do que a simples compra de empreendimentos prontos de desenvolvedores, uma vez que retira intermediários do processo, explicou.

"Hoje a estratégia é essa. Talvez um ou dois projetos a gente possa olhar também de outros fornecedores, mas na maioria estamos focando em projetos de desenvolvimento próprio. Vamos ter alguns outros projetos, além desse de Minas Gerais, vindo por aí neste ano".

Ela não revelou a localização dos demais projetos.

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