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Batalha contra inflação não está ganha e é preciso persistir, diz Campos Neto

Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central - Arquivo - Dida Sampaio/Estadão Conteúdo
Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central Imagem: Arquivo - Dida Sampaio/Estadão Conteúdo

Isabel Versiani

19/04/2023 11h27Atualizada em 19/04/2023 16h14

O núcleo da inflação no Brasil está muito resiliente e, embora o dado cheio esteja caindo, o aumento de preços deve voltar a ganhar força no segundo semestre, afirmou o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, nesta quarta-feira, ressaltando que é preciso persistir na batalha contra a inflação, que não está ganha.

Falando a investidores em Londres, Campos Neto disse não ter lido em detalhe ainda o texto do projeto do arcabouço fiscal encaminhado pelo governo ao Congresso na véspera, mas reiterou que a proposta é "bastante razoável" e que será importante acompanhar o processo de sua aprovação.

"Estamos observando para ver os efeitos do que o governo apresentou", afirmou, frisando mais uma vez que não há uma relação mecânica entre a meta fiscal e as decisões do BC sobre juros, e que o mais importante é como as políticas para as contas públicas afetam o canal de expectativas dos agentes econômicos.

"A realidade é que o processo de desinflação está mais lento do que esperávamos dado o nível dos juros reais no Brasil. O que nos diz que a batalha não foi ganha e precisamos persistir", disse em reunião organizada pelo European Economics & Financial Centre.

O IPCA, que mede a inflação ao consumidor, acumulou alta de 4,65% nos 12 meses até março, nível mais baixo em mais de dois anos. Campos Neto ressaltou, contudo, que os dados cheios da inflação seguem "poluídos" por mudanças recentes na taxação de produtos e que os núcleos de inflação, que desconsideram preços mais voláteis, seguem altos, e as expectativas de inflação subiram.

Respondendo a pergunta de um investidor, Campos Neto afirmou que há muita incerteza em torno dos efeitos para a economia de se deixar os juros altos por mais tempo, mas que pode haver um "trade-off de esperar um pouquinho mais para garantir que você faz isso (leva a inflação à meta) de um jeito estável".

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva têm feito reiteradas críticas ao nível da taxa básica de juros, que está em 13,75% desde agosto, e o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, argumenta que o arcabouço fiscal e outras medidas adotadas pelo governo já criam condições para um corte da Selic. O Comitê de Política Monetária (Copom) voltará a se reunir no início de maio para deliberar sobre os juros.

"O cenário está melhorando. Acho que o anúncio fiscal do governo ajuda bastante, mas é um processo. Para nós é importante fazer um movimento que tenha credibilidade", disse Campos Neto.

A estimativa do BC é de que a inflação geral deve ir a 3,5% em junho, e depois voltará a subir, disse Campos Neto.

Ele notou que as expectativas de inflação para 2024 e 2025 subiram quase 1% desde dezembro, em parte devido ao pacote fiscal aprovado no final do ano passado e ao fato de o governo atual ter falado em mudança na meta de inflação.

Para Campos Neto, não é papel do BC definir a meta de inflação —a autarquia tem um dos três votos do conselho que fixa os objetivos anualmente—, mas que, na sua avaliação, uma elevação da meta geraria um risco altista para a inflação.

"Nossa opinião é mais no lado de que risco vai aumentar. E mesmo que não aumente muito, não significa que não tem custo num prazo mais longo... No prazo mais longo, você pode criar danos ao fazer isso."

Lula tem defendido que as metas de inflação do país são excessivamente baixas e deveriam ser alteradas. Para este ano, a meta é de 3,25% e, para os dois anos seguintes, de 3,00%, com uma margem de tolerância de 1,5 ponto percentual.