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Com dívida de quase R$ 1,7 trilhão, Evergrande abandona prédios pela China

Conjunto em construção em Taicang; Evergrande possui projetos em obras em mais de 200 cidades chinesas - Xihao Jiang/Reuters
Conjunto em construção em Taicang; Evergrande possui projetos em obras em mais de 200 cidades chinesas Imagem: Xihao Jiang/Reuters

Stéphane Lagarde

Em Pequim (China)

29/10/2021 13h59Atualizada em 29/10/2021 17h59

Mais uma vez foi por um fio, mas o gigante grupo imobiliário chinês Evergrande conseguiu pagar os juros da dívida bilionária que venceriam hoje.

No entanto, a crise está longe do fim. Com dívidas avaliadas em US$ 300 bilhões (quase R$ 1,7 trilhão), a empresa parou centenas dos empreendimentos que tem em construção, deixando um rastro de torres abandonadas e compradores que temem nunca receber seus apartamentos.

A empresa, submersa em dívidas, tem obras espalhadas por todo o país: são 750 projetos em construção em 230 cidades. Boa parte delas está completamente parada desde que a crise da empresa estourou.

Algumas são torres de concreto nu, outras ainda guardam a tela verde que cobre os andaimes dos edifícios em construção na China.

Em Shenyang (no nordeste do país), um conjunto de arranha-céus inacabados de mais de 30 andares chama a atenção. Na chegada ao empreendimento, uma grande placa com letras pintadas em branco diz: bem-vindo à "Praça Central de Evergrande".

Esse conjunto não está perdido no meio de uma das cidades-fantasmas que existem no interior da China, em regiões como o deserto da Mongólia, mas fica no centro nervoso de uma megalópole de 27 milhões de habitantes, a poucos quilômetros da zona internacional de Fabricação de Softwares da província de Liaoning.

O construtor deveria entregar, no local 6,6 mil apartamentos, mas algumas dessas famílias não têm a quem desabafar as angústias.

Como conta um ex-soldado, agora motorista de táxi: "a Evergrande está em toda parte em Shenyang. Tem casas deles em todos os lugares da cidade. Algumas estão prontas, mas, para todos os projetos parados, é um grande problema".

"Os compradores dos apartamentos têm que pagar as prestações de seus empréstimos sem saber se a casa ficará pronta. E tem ainda todos aqueles que pagaram por um apartamento que não está pronto", diz ele.

Apartamentos baratos e famílias em desespero

A habitação é parte importante do mercado econômico chinês. O número gigante de edifícios vistos pelas janelas dos trens de alta velocidade da China há muito alimentam o crescimento de dois dígitos na segunda maior economia do mundo. O setor responde por quase 30% do PIB.

Os apartamentos e projetos da Evergrande tinham a reputação de serem mais baratos, o que levava milhares de chineses a investirem nos empreendimentos antes mesmo do início das obras.

"Um de meus conhecidos acabou de pagar o apartamento. Até as janelas já estão instaladas, mas ele não consegue entrar. As pessoas têm reclamado aqui, parece que algumas das propriedades da Evergrande já estão hipotecadas", acredita o motorista.

"Não estamos falando de cem, mil pessoas, mas de milhões de pessoas afetadas por esta possível falência. Isto pode causar tumulto, mas o Partido Comunista não deixará que isto aconteça. O governo vai resolver esta crise", acrescenta.

O que o governo chinês irá fazer?

Por enquanto, o governo central tem tido o cuidado de não dizer que vai socorrer o gigante imobiliário. O chefe da empresa, Xu Jiajin, foi convocado por Pequim e será obrigado a pagar parte da dívida com a fortuna pessoal dele.

Não será o suficiente: a Bloomberg estima a fortuna dele em US$ 8 bilhões, e a dívida é de US$ 300 bilhões.

No entanto, o gesto exigido pelo Partido Comunista é simbólico, para tentar apaziguar a raiva dos donos de apartamentos com pouco dinheiro.

Em Shenyang, pelo menos 50 desses pequenos investidores protestaram, o que é raro na China, diante das janelas do governo local para pedir a intervenção do governo.

As autoridades estão trabalhando ativamente para acalmar a situação. O presidente do Banco da China tem dito repetidamente nos últimos dias que a situação está sob controle.

Esta crise do Evergrande é também uma forma de tornar mais são um mercado que, até então, parecia não ter limite para o apetite de construir torres e megaimóveis em busca de lucros na bolsa.

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