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Alvo de ação da PF, Lourenço renuncia à presidência da Cesp

21/06/2018 13h28

(Atualizada às 16h)O governo de São Paulo divulgou nota para anunciar que Laurence Casagrande Lourenço, principal alvo da Operação "Pedra no Caminho", deflagrada hoje, renunciou à presidência da Cesp "para se defender das acusações". Em seu lugar, assume interinamente o diretor financeiro da companhia, Almir Fernando Martins.

O governo informou ainda que determinou à Corregedoria-Geral da Administração a abertura de sindicância para apurar os fatos hoje revelados. A operação apura o desvio de recursos públicos em obras do Rodoanel, no Trecho Norte. Foram cumpridos 15 mandados de prisão temporária e 51 mandados de busca e apreensão.

Lourenço foi preso pelos agentes no fim da manhã. De acordo com as investigações, o superfaturamento nas obras pode ter causado um impacto de R$ 600 milhões no custo do projeto. No último ano, ele atuou como secretário de Transporte e Logística do então governador Geraldo Alckmin (PSDB), hoje pré-candidato do PSDB a presidente.

A investigação começou em 2016, a partir de denúncia feita por um ex-funcionário de uma empresa que atuou nas obras. Ele apresentou à Polícia Federal informações sobre possíveis manipulações em termos aditivos desta obra do Rodoanel, para aumentar o valor pago a empreiteiras, que haviam vencido a licitação para as obras. Segundo a PF, aditivos contratuais, relacionados principalmente à fase de terraplanagem da obra, incluíam novos serviços para efetuar a remoção de rochas misturados ao solo.

PSDB

Pouco conhecido do público, Laurence Casagrande Lourençoé um personagem com carreira fortemente atrelada ao PSDB, que há décadas domina o governo de São Paulo.

No seu currículo constam seis passagens por secretarias, repartições e empresas do Estado em diferentes mandatos do presidenciável Geraldo Alckmin e nas gestões dos tucanos Mário Covas e José Serra e de Cláudio Lembo (na época, PFL).

Desde maio, Laurence presidia a Cesp, companhia de energia que tem o governo como principal acionista. Foi colocado no posto pelo atual governador, Márcio França (PSB), o vice de confiança de Alckmin que assumiu após a renúncia do tucano para disputar a Presidência da República.

Antes disso, Laurence teve passagem pela Prodesp, a companhia de processamento de dados do Estado; foi secretário de Logística e Transporte nomeado por Alckmin, de maio de 2017 a abril de 2018; e presidente da Dersa (2011 a 2018). Teve passagens ainda pela Secretaria de Segurança Pública (2003 a 2007) e pela Fundação Casa (2001 a 2003).

Em 2010, em um curto período em que o Estado foi governado por Alberto Goldman, Laurence estava na iniciativa privada. Era diretor da empresa de investigação Kroll. No meio político, é visto como figura ligada ao secretário de Governo do Estado, Saulo de Castro Abreu Filho.

Laurence é tecnólogo em Produção Industrial e pós-graduado em Gerenciamento de Projetos. Ele é o principal alvo da operação que apura supostos desvios em obras do trecho norte do Rodoanel.

Na Dersa, empresa objeto da investigação, Laurence coordenou a duplicação do trecho Planalto da Rodovia dos Tamoios, a implantação do Complexo Viário Polo Itaquera e as obras da Nova Tamoios Contornos e Rodoanel Norte - o foco da investigação está nesta última.

Nesse trabalho, conforme informações do governo, ele liderou as negociações que culminaram na celebração do contrato de empréstimo de US$ 1,15 bilhão junto ao Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Um release de maio do ano passado citava essa operação como "o maior financiamento rodoviário já concedido pela instituição".

Medalhas

Outra amostra da ligação de Laurence com o PSDB paulista enraizado no governo do Estado é a lista de reconhecimentos oficiais por serviços prestados. Seu currículo no site LinkedIn cita condecorações recebidas ao longo dos anos. Entre elas estão a Medalha Brigadeiro Tobias, concedida pela Polícia Militar do Estado de São Paulo; a Medalha da Defesa Civil; o Mário Covas Award, um prêmio da Secretaria de Gestão; a Medalha Cinquentenário do Policiamento Rodoviário e a Medalha Cinquentenário da Corregedoria, ambas também da PM-SP.

No início do mês, Laurence foi personagem de uma reportagem da revista "Veja" que mencionava a existência de investigações contra ele envolvendo a Dersa e o apresentava como "um dos mais antigos assessores" de Alckmin. Após a publicação, Laurence escreveu longo post em sua página no Facebook rebatendo as acusações.

Disse que seu relacionamento direto com Alckmin "só ocorreu a partir de 2011 e sempre foi pautado pela ética - e pela etiqueta". Sobre "supostas fraudes" nas obras do Rodoanel, afirmou que as obras foram financiadas pelo BID, cujas regras contratuais "nem sempre coincidem com a praxe das contratações feitas sob a Lei 8.666 [que rege licitações]".

Na sequência, Laurence cita o que seria um exemplo disso: "O contrato do Rodoanel Norte permite a arbitragem de 'preços provisórios' quando houver conflito entre os contratantes a respeito dos preços de execução de determinados serviços. Isso permite que as obras continuem enquanto são analisadas as questões de engenharia. Foi por meio dessa figura, que não existe em licitações tradicionais, que houve a alteração PROVISÓRIA no valor de serviços de terraplenagem", escreveu.

O ex-presidente da Dersa diz ainda que as empreiteiras Mendes Júnior e OAS entraram em processo de recuperação judicial durante a vigência do contrato das obras do Rodoanel Norte. "Isso pôs em risco a execução das obras em pontos críticos, o que poderia acarretar prejuízos ao erário", completou. Segundo ele, a subcontratação de empresas, "dentro das regras da lei e do teto autorizado para aditivos", foi necessária "para proteger o empreendimento".

O Valor PRO não localizou, até a publicação desta reportagem, advogado que representa Laurence no caso da operação deflagrada hoje. A Dersa divulgou uma breve nota sobre o tema. Afirmou que a companhia e o governo "são os maiores interessados acerca do andamento do processo". Registrou ainda que "havendo qualquer eventual prejuízo ao erário público, o Estado adotará as medidas cabíveis, como já agiu em outras ocasiões".

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