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O clichê "novo normal": uma desculpa para quem estava no automático

Unsplash/Huang Yingone
Imagem: Unsplash/Huang Yingone
André Foresti

André Foresti é designer estratégico e fundador da Troublemakers, estúdio de desconforto e inovação para encarar a mesmice e cocriar projetos originais

03/06/2020 04h01

O ano era 2007 e o auditório estava cheio. Ele brincou sobre 3 lançamentos que iriam mudar tudo: um player de música, um telefone e um navegador de internet. Surgia assim o iPhone, apresentado por Steve Jobs. Em 2009, Garrett Camp e Travis Kalanick lançavam uma empresa que seria uma espécie de "táxi de luxo".

Um pouco depois, em 2014, foi regulamentada no Brasil a Lei Antifumo. Ano que tivemos a Copa, nosso prometido divisor de águas. E na sequência, me veio na cabeça a Alexa, Rappi, os patinetes, o Napster, as ciclovias, os bancos digitais, o day off de aniversário, o Tinder e o Orkut. Várias coisas aleatórias que fazem o amanhã ser diferente do hoje.

Você já se perguntou: onde estava o novo normal nesses momentos?

Corta para hoje. Preciso confessar uma coisa. Quando algo do mercado começa a ser replicado na mesma velocidade de um hit sertanejo, eu desconfio. É artigo de "novo normal", "live" disso, "live" daquilo, narrativa dele em posts, mensagens, reports. Fui vendo, aceitando, digerindo minha preguiça, mas me controlando.

Um dia entra um anúncio de delivery de cachorro quente apelando pro novo normal. Chega, agora cansei. Aliás, vocês sabiam que até hoje Alemanha e Estados Unidos brigam pelo crédito de quem inventou o cachorro quente?

Uma realidade tão diferente assim?

Mas entrando nessa viagem de novo normal, comecei a pensar o que nos fazia acreditar numa realidade tão diferente assim. Ok, a restrição de rotina é uma mudança radical, mas temporária. Nossa montanha russa de medos e emoções também.

Mas, fora isso, o que faz a gente abraçar essa narrativa futurista? Home office, ligações de vídeo pelo Zoom, ver que crianças adoram ficar com os pais, delivery de supermercado, transformação digital, treta no Twitter, notas de repúdio, show no Youtube?

Políticos incompetentes, fazer pão, trabalho em rede, colaboração, cocriação, "co-tudo", líderes humanos (e desumanos), empreendedores de palco fazendo transmissões ao vivo?

Vale lembrar que "inovação" é o assunto quente dos últimos anos. E inovar nada mais é do que mudar o padrão, o hoje, o normal. Como pode tanta gente, ano após ano repetindo que temos que "challenge the status quo", vir nesse momento empacotar a narrativa de que "agora sim temos um novo normal"?

Não seria uma boa a gente fazer uma autocrítica e entender que tudo já estava ali, acontecendo, e estávamos ocupados demais para ver?

Quem já não foi "massacrado pelo sistema"?

Robotizados, trabalhando demais —hiperconectados, mas produzindo pouco. Endossando modismos sem digerir, processar, entender.

Consumindo qualquer blá-blá-blá, qualquer um falando de inovação sem inovar. Falando de risco sem arriscar. Anestesiados. Filho cresceu, não viu. Mundo digital, não viu. Movimentos sociais, não viu. Sociedade em rede, não viu. Futuro do trabalho, não viu.

Quantas vezes alguém na empresa trouxe inspiração de coisas acontecendo para despertar a mudança e foi massacrado pelo sistema, pelo não, pelo "ainda tá dando certo"?

Talvez o agora famoso novo normal seja apenas isso: muita gente dormindo por muito tempo. Ainda assim, me intriga o movimento de massificação do conceito e essa onda de replicar esse rótulo. O que acontece que a gente se abraça nisso sem nem desconfiar?

Nossas vidas se resumem à pesquisa do Google?

Pensando alto por aqui: será que nesse mundo que todo mundo sabe tudo, onde mais se responde do que pergunta, um rótulo ajuda a passar pano no nosso próprio desconhecimento e imperfeição? Uma tentativa de disfarçar nosso lado mais falível, vulnerável, perdido? Ou seria um movimento que, ao repetir o que parece inteligente, nos cria um senso de pertencimento diante das narrativas de um mercado superlativo?

Meio que o marketing simplesmente "marketizando" tudo, até o incerto. Ou vai ver precisamos do rótulo simplesmente porque nos acostumamos a uma vida meio "Google Search", que em 10 segundos todos os problemas do mundo precisam estar ali respondidos?

Digita: "não consigo sair de casa", "como assim o mundo tá parado", "o Brasil tá puxado", "como limpar as compras", "a desigualdade nunca foi tão desigual", "tenho dor nas costas"...e mais uma reunião no Zoom que poderia ter sido um e-mail? Resposta: é o "novo normal, mané".

E como adoro me questionar, talvez não seja nada disso e apenas mais um clichê "trend" desse mundo que adora projeções como uma forma de fugir dos riscos do presente e da realidade que precisava ser encarada. Projetar narrativas é uma ótima forma de estar sempre certo, pois a conta só chega no futuro e, cá entre nós, todo mundo esquece desses conceitos.

Sim, teremos aceleração de mudanças (e não serão poucas)

Que fique claro: eu acredito em novos normais, no plural. Também aposto, como vocês, na aceleração de mudanças após algo tão traumático como essa pandemia.

Porém, acredito ainda mais em mudanças como algo constante, sem fim, sem slogan. Algumas coisas vão mudar, outras vão voltar a ser o que eram e, talvez, em outro momento evoluir. Ou esqueceram que todos os anos a gente já tinha mil reports trazendo super dados de mudanças exponenciais de comportamento, consumo, gerações, revolução digital e etc?

Acho necessária a autocrítica do nosso papel e negação diante da linha do tempo, sem precisar de um rótulo salvador da pátria ou um pensamento mágico que explica tudo. Como já repeti algumas vezes: o mundo muda, afinal, não tem dinossauro na rua. A questão é apenas a velocidade e nossa coragem de encarar. Até por que "vai passar, vai passar", como dizem por aí. Ué? Mas se é novo normal como que vai passar?

Ou a gente reflete sobre isso ou seremos consumidores zumbis de mais uma palestra comum, live sem curadoria e novo clichê qualquer. Quando o "novo normal" passar, pode ser bem frustrante descobrir que o tal "novo normal" era apenas um déficit de você com você mesmo.

E lembre-se: o normal é relativo, o novo não. É por aí. Agora voltarei pro sofá para esperar o que mais to a fim de fazer: uma ida normal com meus amigos normais pra um chopp normalíssimo, sem o normal telefone na mão. Mentira, com ele.

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