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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Valor de empresas de defesa sobe até 71% desde começo de guerra da Ucrânia

O setor aeroespacial de defesa ganha território e já cresce a dois dígitos com a guerra da Ucrânia - Airman 1st Class Aaron J. Jenne/ USAF
O setor aeroespacial de defesa ganha território e já cresce a dois dígitos com a guerra da Ucrânia Imagem: Airman 1st Class Aaron J. Jenne/ USAF
Nilson Brandão

05/04/2022 04h00

Estimulado por pacotes de investimentos governamentais, o setor aeroespacial de defesa ganha território e já cresce a dois dígitos com a guerra da Ucrânia. Como pano de fundo, Estados Unidos e União Europeia reavivam orçamentos e gastos militares em reação à invasão russa.

Internamente, a Casa Branca propõe orçamento de US$ 773 bilhões para o Pentágono no ano fiscal de 2023, 4% acima do anterior. A Europa revê gastos militares. A Alemanha criou fundo de 100 bilhões de euros e projeta gastos militares acima do Produto Interno Bruto (PIB) do país.

Se ainda não registra tanto salto de vendas no curto prazo, a indústria da guerra sabe que o movimento crescerá no médio e longo prazos, assim como os investidores. Na Bolsa de Nova York, os ganhos de valor de mercado nos 40 dias da guerra alcançam dois dígitos.

Apenas como exemplo, o valor de mercado das gigantes Lockheed Martin, Raytheon Techologies e Honeywell International, somadas, saltou de US$ 366 bilhões para acima de US$ 408 bilhões (alta de 11%) desde o início da guerra. Lockheed e Raytheon são as duas maiores do setor de defesa.

A mudança de prioridades em defesa internacional favorece as empresas do setor. A Honeywell já expressou que perspectivas governamentais recentes em defesa, após o conflito na Ucrânia, gerou "benefício modesto" no curto prazo. Mas vai além.

"Acreditamos que compromissos com o aumento dos gastos governamentais em defesa provavelmente aumentarão a trajetória de crescimento de nossos negócios de defesa nos próximos anos", completa a multinacional.

O setor experimenta forte concentração nos EUA. O total de grupos aeroespaciais e de defesa caiu de 51 em 1993 para cinco em 2000. O país depende cada vez mais de um "pequeno número de contratados para recursos críticos de defesa", diz o Departamento de Defesa.

Empresas de defesa de menor porte que as gigantes cresceram ainda mais. A AeroVironment, sediada em Arlington, no estado de Virginia, fechou semana passada com valor de mercado 71% acima ao do início da guerra da Ucrânia.

Em meados de março, a "Newsweek" publicou reportagem sobre dois tipos de drone, chamados Switchblade, que poderiam mudar a "maré da guerra da Ucrânia". Estes drones são fabricados pela AeroViroment.

Procurada pela coluna, a empresa respondeu que "não estava em posição de comentar as especificidades da ajuda militar do governo dos EUA à Ucrânia ou a transferência de equipamentos entre governos".

Outras empresas tiveram crescimentos expressivos de valor. A AgEagle Aerial Systems, fabricante de drones, cresceu 39%; CPI Aerostructures e a isralense Elbit System, 37%; Kratos Defense e Security Solution, 31%, conforme a plataforma TC/Economática.

A Elbit prevê saltos globais dos investimentos em defesa. O CEO Bezhalel Machlis disse à Reuters que enxerga demanda crescente em diferentes setores, bem como orçamentos para defesa potencialmente maiores em todo o mundo.

Especialistas apostam que os investimentos em defesa seguirão para eixos como aeronaves não tripuladas, caças, soluções cibernéticas, resiliência espacial, hipersônicos e tecnologia avançada integrada.

No longo prazo, os gastos militares duplicaram. Em duas décadas, passaram de US$ 1 trilhão para US$ 2 trilhões em todo mundo, segundo a Stockholm International Peace Research Institute (Sipri), que dia 25 de abril divulga os dados de 2021.

Cinco países respondem por quase dois terços (62%) dos gastos militares globais: Estados Unidos, China, Índia, Rússia e Reino Unido.

Mergulho das companhias aéreas

Enquanto gastos públicos beneficiam a indústria de defesa, a aviação civil é negativamente correlacionada ao preço do petróleo. Quanto maiores as cotações do combustível, mas tendem a cair as ações destas empresas.

O querosene de aviação representa perto de 30% dos custos operacionais de empresas aéreas. Para se proteger da flutuação dos preços do combustível no mercado, elas precisam fazer operações de hedge, o que encarece o custo do capital.

Ao longo do período da guerra, um grupo de 22 empresas de aviação listadas na Bolsa de Nova York com ações e ADRs (American Depositary Receipts), encolheu 6% de tamanho.

A guerra e a alta na cotação do petróleo atrapalharam a recuperação das empresas de aviação, que já vinham de dois anos de efeitos negativos gerados pela redução do movimento com os diferentes estágios da pandemia no mundo.

Mesmo este ano, no mês de março, novos riscos da pandemia na China levaram a autoridade aeronáutica local a desviar 106 voos de e para Xangai, que recém-registrou número recorde de casos de covid-19.

A Associação Internacional de Transportes Aéreos (Iata) informa que os preços do combustível de aviação explodiram desde o início do conflito: chegaram a US$ 150 por barril no mês passado e acumulam alta 121% no acumulado do ano.

Margens estreitas de lucro impedem absorver todo o impacto do custo, e o repasse para tarifas aéreas afeta a demanda. "O conflito e as sanções relacionadas reduzirão claramente o comércio global, o investimento e a atividade econômica geral", alerta a Iata, em comunicado oficial sobre os impactos da guerra.