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Alexandre Pellaes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Sem protagonismo você não chega a lugar nenhum

Ryoji Iwata/Unsplash
Imagem: Ryoji Iwata/Unsplash
Alexandre Pellaes

Alexandre Pellaes é professor e pesquisador, especialista em temas relacionados a RH, liderança, futuro do trabalho e novos modelos de gestão. Mestre em psicologia do trabalho pela USP (Universidade de São Paulo) e fundador da Exboss.com.br, dedicado ao desenvolvimento de relações de trabalho mais humanizadas e com mais autonomia. Duas vezes palestrante TEDx.

Colunista do UOL

09/06/2022 04h00

Atualmente, 9 entre 10 empresas costumam expor algum nível de descontentamento por causa da falta de protagonismo de suas equipes. Mas não confunda protagonismo com engajamento - que também é outro desafio organizacional.

Entenda a diferença:

  • Engajamento está relacionado ao nível de compromisso, entusiasmo e conexão mental e emocional que um indivíduo tem em relação à sua organização, sua equipe e sua atividade;
  • Protagonismo é o comportamento de colocar-se como personagem ativo na construção de uma história, ideia ou causa

Engajamento é vínculo. Protagonismo é ação.

Portanto, é possível haver engajamento sem protagonismo, e vice-versa.

Por exemplo, você pode conhecer alguém que é apaixonadíssimo pela empresa, por seus valores, líderes, produtos e serviços, mas que trabalha num ritmo meio devagar-devagarinho, respondendo solicitações e ordens que as outras pessoas lhe passam, absolutamente alheio à necessidade de agir com iniciativa e criatividade além do seu crachá. Tá aí: engajamento sem protagonismo.

Por outro lado, é possível que você consiga pensar em alguém que é super agilizado, toma a frente de projetos, cria processos e acompanha entregas, questiona as estruturas e decisões buscando ampliar o impacto, mas que faz tudo isso com foco no seu desenvolvimento individual, selecionando ações enquanto enxerga a organização como plataforma para seu crescimento. Olha só: protagonismo sem engajamento.

A ideia aqui não é trazer um juízo de valor que aponte um comportamento como melhor ou pior do que o outro. O objetivo é expor o fato de que as organizações estão buscando profissionais engajados E protagonistas.

Essa tendência se manifesta no redesenho das organizações rumo a modelos com maior flexibilidade e autonomia, o que demanda mais protagonismo e responsabilidade.

Em sua origem grega, protagonismo é formado pelas palavras protos = primeiro + agonistes = ator/competidor. Ou seja, é quem está à frente de uma ação, quem é agente e tem influência na construção daquela história.

Ainda que a gente nasça com uma pré-disposição para explorar e desbravar o nosso mundão, historicamente, somos enquadrados socialmente dentro de uma perspectiva que é menos de protagonismo e mais de obediência. Em vez de sermos estimulados a ampliar nossa relação com a autonomia como força interna para exploração de nós mesmos e para interação com o mundo, de dentro para fora, somos ensinados a obedecer a ordens apresentadas a partir de uma estrutura hierárquica de poder, fortemente influenciada pelo modelo esforço x recompensa x punição. Assim, começamos a ser operados por um sistema chamado heteronomia.

Não se assuste com a palavra. É fácil compreendê-la: heteronomia significa ter sua capacidade de ação definida ou fortemente influenciada por estruturas externas a você (mas, olha só, assuste-se com o conceito rsrs, porque ele significa a terceirização da sua intenção, agora convertida em forma de obediência em troca de algum benefício ou por imposição de força).

Ao longo de nossas vidas, vamos nos enquadrando no que chamarei aqui de Heteronomia de 4 Ps, representando as estruturas hierárquicas de poder que nós obedecemos. De maneira simplificada, primeiramente, obedecemos a nossos Pais (pais e mães), que possuem uma posição hierárquica superior dentro da nossa família, porque queremos receber amor.

Depois, vamos à escola e obedecemos a Professores(as), que têm um nível hierárquico estabelecido e de quem queremos receber boas notas. Finalmente, chegamos à vida profissional e conhecemos a estrutura de poder dos Patrões(oas), cujo poder hierárquico é claríssimo e a quem obedecemos porque queremos receber dinheiro e status (carreira tradicional).

O 4º P opera com maior complexidade, representado pelos Políticos. Pessoas que definirão regras na sociedade e que serão respeitadas (cof! obedecidas), em troca da percepção de benefícios oferecidos, os quais são, na verdade contrapartidas do que a própria sociedade gera (este último tópico poderíamos discutir longamente, mas não temos essa oportunidade agora).

Ou seja, a heteronomia regida por Pais, Professores(as), Patrões(as) e Políticos(as) tem uma influência marcante sobre nosso protagonismo adormecido.

A gente demora muito para perceber o funcionamento desse sistema (há quem levará a vida toda sem notá-lo...). Durante a adolescência e começo da vida adulta, tentamos quebrar padrões e reaver a capacidade de autonomia de nossas vidas, mas fazemos isso com um protagonismo meio desestruturado, que tem mais característica de uma rebeldia juvenil. Muitas vezes, ela avança para a vida profissional, de maneira contraprodutiva, resultando naquela pessoa que só reclama o tempo todo.

Quando a vida te der limões, não esprema nos seus olhos - Alexandre Pellaes - Alexandre Pellaes - Alexandre Pellaes
"Quando a vida te der limões, não esprema nos seus olhos." - Alexandre Pellaes
Imagem: Alexandre Pellaes

O protagonismo maduro tem características de um inconformismo saudável, ou seja, a habilidade de identificar oportunidades de melhoria e de buscar mudanças concretas que possam contribuir com a transformação do sistema em vez de apenas apontar rachaduras nas estruturas.

Para que esse protagonismo exista é necessário:

1) Coragem
Para mudar estruturas existentes, precisamos de coragem para levantar e falar, expor ideias, apresentar contrapontos e falhas, que a maioria se furta a trazer à tona. Muita gente vai torcer o nariz... Mas também é necessária a coragem para se sentar e escutar o que é preciso mudar em você, compreender a história, as limitações imediatas e agir em conjunto na ação para a mudança. Autoconhecimento e maturidade são essenciais para viver com coragem.

2) Estratégia
Vender uma ideia é sempre desafiador quando o poder está concentrado nas mãos de estrutura hierárquica "herdada". Por isso, há que se ter estratégia para influenciar as pessoas que tomam decisões, mostrando o valor na moeda que elas valorizam. "Ah, mas às vezes, eu vou defender uma ação que dá menos lucro financeiro e claro que a pessoa não quer ouvir."... Hum... Possivelmente, essa ação estará conectada com um benefício de longo prazo que se reverterá na garantia da longevidade do negócio ou da renovação da marca. Como expor esses benefícios ao longo do tempo do ponto de vista econômico? Embora pareça óbvio, está aí o conceito da estratégia de protagonismo verdadeiro.

3) Respeito
Respeito pelas pessoas e pelo legado que trouxe sua organização até o momento presente, e empatia pelo desafio que é uma mudança comportamental organizacional e que influencia fortemente a nossa percepção de identidade.

Acima de tudo, ser protagonista é não se apequenar em um papel coadjuvante.

A essa altura, você já deve ter notado que o protagonismo transcende a sua posição organizacional. Portanto, se você busca se conhecer melhor e ter mais impacto, mais felicidade, mais propósito e mais sucesso, pare de se esconder atrás do seu crachá.

Toda pessoa é mais complexa, mais interessante, mais bonita e mais potente do que cabe no seu crachá.

Agora, uma provocação final para as empresas: "cuidado com o que você deseja, pois pode se tornar realidade". Será que vocês estão preparadas para lidar com o protagonismo que tanto demandam dos colaboradores?

Você gostou dos aprendizados desse artigo?

O que acha que falta para pessoas e empresas lidarem melhor com o protagonismo?

Deixe aqui seus comentários ou me contate no instagram @pellaes.

Um abraço e muito bom trabalho!

Lugares Incríveis para Trabalhar

O Prêmio Lugares Incríveis Para Trabalhar é uma iniciativa do UOL e da FIA para reconhecer as empresas que têm as melhores práticas em gestão de pessoas. Os vencedores são definidos a partir dos resultados da pesquisa FIA Employee Experience (FEEx), que mede a qualidade do ambiente de trabalho, a solidez da cultura organizacional, o estilo de atuação da liderança e a satisfação com os serviços de RH. A pesquisa já está na fase de coleta de dados das empresas inscritas e as empresas vencedoras devem ser anunciadas em agosto.