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Alexandre Pellaes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Semana de 4 dias de trabalho: ilusão, preguiça ou mudança necessária?

FG Trade/iStock
Imagem: FG Trade/iStock
Alexandre Pellaes

Alexandre Pellaes é professor e pesquisador, especialista em temas relacionados a RH, liderança, futuro do trabalho e novos modelos de gestão. Mestre em psicologia do trabalho pela USP (Universidade de São Paulo) e fundador da Exboss.com.br, dedicado ao desenvolvimento de relações de trabalho mais humanizadas e com mais autonomia. Duas vezes palestrante TEDx.

Colunista do UOL

28/07/2022 04h00

No começo do século 19, era absolutamente comum as pessoas trabalharem entre 12 e 16 horas por dia, seis dias por semana. O trabalho extenuante como obrigação social, e único caminho de sobrevivência era parte daquele mundo e daquele nível de consciência coletiva.

Aliás, uma das primeiras leis do mundo do trabalho, criada nessa época, buscava proibir a contratação de crianças com menos de 9 anos (!!!) nos moinhos de algodão. E mesmo após a criação dessa lei, crianças entre 9 e 14 anos podiam ser contratadas, desde que a jornada máxima fosse de 12 horas por dia.

Alguns anos depois, Robert Owen, rico industrial inglês e um dos mais importantes socialistas utópicos da Europa, começou a implementar melhorias nas condições de trabalho e saúde de suas comunidades de empregados, alcançando resultados positivos.

Historicamente, a Owen é creditada a ideia inicial do conceito de "8 horas de trabalho, 8 horas de lazer, 8 horas de descanso". No entanto, esse pensamento só foi realmente difundido em grande escala a partir de 1926, quando Henry Ford instituiu, como norma, as 8 horas diárias de trabalho em sua companhia, a Ford Motor. Em 1922, ele já havia definido a semana produtiva de 5 dias de trabalho em vez de 6 dias. Importante ressaltar que, além de reduzir a jornada de trabalho de seus empregados, Ford também mais do que dobrou os seus salários. (#quero)

Especula-se que seus interesses estivessem mais ligados a aumentar o giro de capital e de consumo do que ao bem-estar dos trabalhadores, mas é inegável que sua ação foi positiva e tornou-se um ponto de virada para a história do trabalho, ao influenciar mercados no mundo todo a adotarem a semana produtiva de segunda a sexta-feira.

Como você pode imaginar, houve resistência de diversos segmentos, ataque de outros empresários, descrença e desconfiança. Porém, ninguém pôde ignorar os resultados: maior produtividade, menos doenças e mais lucro.

Touché!

Cerca de 100 anos se passaram e cá estamos nós em uma nova discussão (que bom!) sobre o volume de dias e de horas laborais, aparentemente, tomando consistência em torno da ideia da semana de quatro dias de trabalho. (#quero2)

Há diversas iniciativas sobre o tema acontecendo ao redor do mundo - e aqui no Brasil também. No entanto, ainda não temos um movimento de grande volume estruturado que sirva de parâmetro, comparação e inspiração. Ou melhor, não temos "ainda"...

Em junho de 2022, no Reino Unido, foi iniciado o maior acompanhamento de iniciativas e testes para implementação da semana de 4 dias, abrangendo 3.300 trabalhadores(as) em 70 empresas de diversos tamanhos e setores. Criado pelo centro independente de pesquisas Autonomy, em parceria com Universidades de Oxford, Cambridge, Boston College e outras, o piloto durará seis meses, e as empresas manterão o salário em 100%, enquanto diminuem a carga trabalhada para 80% da atual, com a expectativa de sustentar 100% da produtividade (o modelo foi batizado como 100-80-100). Além do teste no Reino Unido, a mesma organização está apoiando experimentos no Canadá, Estados Unidos, Austrália e Nova Zelândia. No site 4 Week Global é possível achar informações e recursos de como fazer o seu próprio piloto. (Hora de compartilhar esse artigo com a liderança, hein ;^)

Uma das grandes defesas para a implementação de testes de redução de período de trabalho baseia-se na chamada Lei de Parkinson, apresentada em 1955 pelo historiador Cyril Northcote Parkinson, que pode ser resumida na ideia de que "todo trabalho se expande de modo a preencher o tempo disponível para a sua realização". Isso quer dizer que forçar um pouco a barra para a redução de prazos e melhor planejamento tende a se mostrar como incentivo e trazer resultados positivos para a produtividade. Em contrapartida, haverá mais tempo de descanso, lazer, desenvolvimento e qualidade de vida para trabalhadoras e trabalhadores. (#quero3)

Enquanto exploramos possibilidades para essa mudança, é importante manter o interesse por formatos flexíveis. Há empresas praticando 4 dias de trabalho por semana com a manutenção de 40 horas trabalhadas (ou seja, 10 horas por dia), outras com redução agressiva da faixa horária, totalizando 24 horas trabalhadas (ou seja, 6 horas por dia). Também há organizações que liberam as sextas-feiras, enquanto outras sugerem a pausa na quarta-feira. Ou seja, essa transformação não deve acontecer no modelo "copie e cole".

A seguir, cito algumas empresas, testes, modelos e impactos que estão rodando por aí:

1. Canon
A divisão da Canon para Medical Research Europe, faz parte do experimento citado anteriormente, que vai acontecer pelos próximos 6 meses no Reino Unido.

2. Perpetual Guardian
Após a implementação da semana de 4 dias, 78% dos funcionários se reconhecem mais capazes de administrar o equilíbrio entre vida pessoal e profissional - o que representa um aumento impressionante de 24% em relação a uma pesquisa realizada anteriormente.

Os trabalhadores ainda sentiram menos necessidade de verificar as mídias sociais e ficaram menos distraídos com projetos fora do trabalho. A equipe relatou sentir menos estresse e expressou mais satisfação com suas vidas. Os funcionários(as) também se mostraram mais produtivos, engajados, comprometidos e estimulados.

3. Elephant Ventures
Trabalham integralmente no modelo remoto e notaram que, com o tempo, o dia de trabalho do time havia se estendido, devido a microinterrupções durante a jornada. Ou seja, estavam trabalhando bem mais do que 40 horas por semana. Com a implementação do teste da semana de 4 dias de trabalho, verificaram melhoria de até 30% na produtividade.

Novos acordos dentro do time foram realizados, incluindo começar a jornada de trabalho mais cedo, adoção de práticas para diminuição da duração das reuniões, e o compromisso de encaixar as reuniões em um bloco de 3 horas pré-definidas, deixando as manhãs para trabalho de maior concentração.

4. Dell
A empresa fez um primeiro piloto na Argentina e depois levou o experimento para os Países Baixos.

Novos empregados(as) já chegam no formato reduzido de trabalho. O time atual teve o salário alterado e será proporcional às horas trabalhadas. As metas e métricas de resultado foram ajustadas. Um dos desejos da empresa é atrair trabalhadores(as) de meio-período, que já são comuns no país (55% da força de trabalho).

5. Microsoft
Ao implantar a semana de 4 dias de trabalho e o fim de semana com 3 dias no Japão, a Microsoft experimentou um salto de produtividade de 40% e aumento no faturamento por funcionário (uau!), além de verificar maior satisfação com o trabalho e melhoria no empenho e engajamento.

A empresa escolheu as sextas-feiras para ser o novo dia fora do trabalho.

6. Panasonic
A matriz japonesa anunciou no dia 9 de janeiro que passaria a oferecer a opção de jornada reduzida para seus funcionários. Já a filial brasileira estuda adotar a iniciativa.

7. Unilever
A Unilever na Nova Zelândia iniciou um teste de um ano com parte de sua equipe, sem redução de salário. O experimento terminaria em dezembro de 2021, mas foi estendido por mais 6 meses. Em breve devem ser divulgados os resultados.

Para manter a produtividade, a empresa fará treinamentos sobre metodologias ágeis, para secar a gordura de atividades desnecessárias e que tomam muito tempo dos funcionários. Uma parceria com a University of Technology de Sydney, foi feita para medir os resultados qualitativos do teste.

8. Kickstarter
O teste começou em abril de 2022. A ideia é reduzir horas de trabalho, sem alterar salários, no formato 4 dias x 8 horas por dia, sendo a sexta-feira o dia a ser liberado.

9. Atlassian
A empresa selecionou um grupo pequeno de funcionários para o teste, com as sextas-feiras livres e o trabalho concentrado de segunda a sexta, em carga diária de 8 horas. Algumas pessoas decidiram deixar seus telefones disponíveis às sextas-feiras, para emergências e suporte a outras equipes.

Os resultados indicaram um aumento do nível de foco e energia de 20% e mais 10% na confiança para atingir os resultados, em comparação aos mesmos indicadores antes do experimento. Contam que houve uma euforia inicial, que parecia um "eu adoro as segundas-feiras", mas que depois foi ajustada para um comportamento de trabalho produtivo sem grandes exageros emocionados.

Não houve indícios de prejuízo no relacionamento entre equipes e a sensação geral foi de que, com mais tempo para recuperação havia mais disposição e mais interesse em cumprir as tarefas, o que levou a menos dispersões e mais foco, gerando mais resultado.

Casos no Brasil

10. Shoot
A agência de comunicação decidiu implementar a semana de 4 dias de trabalho, com 6 horas diárias de atividades, sem redução salarial, desde janeiro de 2022. Antes de adotar a semana de 4 dias, integralmente, houve um ensaio: de setembro a dezembro de 2021 todos folgavam na última sexta feira do mês.

10. Nova Haus
A empresa de tecnologia de Franca (SP) adotou a "quarta-feira livre", junto com outras ações de bem-estar. O piloto terá duração de 8 meses e termina em novembro, quando os resultados serão analisados. Não houve redução salarial.

11. Crawly

Desde o início de suas atividades, entre 2017 e 2018, a startup mineira adotou o modelo de fim de semana de 3 dias, aliado à semana de 4 dias de trabalho, com 8 horas diárias de atividades. O objetivo inicial dessa estratégia era a valorização da equipe e a construção da visão da marca empregadora positiva, como diferencial no mercado.

O resultado reportado pela empresa é o baixo percentual de rotatividade entre funcionários e produtividade elevada.

12. Zee.Dog
A empresa de produtos para pets começou a trabalhar 4 dias por semana em março de 2020, com foco no bem-estar e produtividade de seu time, localizado em São Paulo, Rio de Janeiro, Madri (Espanha) e Shenzhen (China).

Segundo relatado, os funcionários passaram a ser mais objetivos em suas funções e até mesmo em reuniões feitas no ambiente de trabalho, trazendo otimização à operação e velocidade no alcance de metas e objetivos.

A quarta-feira foi adotada como dia livre de trabalho.

E daqui para frente?

Ufa... vários exemplos, hein?

Certamente, ainda há muitos pontos a serem discutidos para avançarmos no movimento da redução da jornada de trabalho e na construção de novos formatos flexíveis. Mas o que realmente é importante aqui é reconhecer que esse pensamento não é ilusão, moda ou preguiça, mas sim a busca pelo desenho de um melhor equilíbrio entre trabalho de vida e trabalho profissional. Entre cuidar do corpo, da comunidade, da família, da mente, e cuidar dos negócios.

Ainda estamos em um estágio elitizado desse tema, com foco em atividades administrativas, gerenciais e de serviços. A discussão sobre áreas de produção, atendimento e tantas outras ainda será desafiadora.

Mas tá aí um desafio que vale a pena! Afinal, mesmo que pareça distante da sua realidade atual, lembre-se que o movimento para reduzir a semana de trabalho de 6 dias para 5 dias começou em uma indústria de carros no hemisfério norte, há mais de 100 anos. Talvez, naquele momento, você também ficasse descrente se ouvisse o começo do processo...

Mr. Ford diria: "Já é hora de nos livrarmos da noção de que o lazer para trabalhadores é tempo perdido ou privilégio de classe."

Eu concordo totalmente.

O que você acha desse movimento? Você gostaria de trabalhar 4 dias na semana em vez de 5?

E se tivesse que escolher, seu dia livre seria quarta-feira ou sexta? (#quero4)

É possível levar essa conversa para dentro da sua organização?

Deixe aqui o seu comentário, ou me escreva em @pellaes no Instagram.

Um abração e vamos juntos mudar o mundo do trabalho!

Lugares Incríveis para Trabalhar

O Prêmio Lugares Incríveis Para Trabalhar é uma iniciativa do UOL e da FIA para reconhecer as empresas que têm as melhores práticas em gestão de pessoas. Os vencedores são definidos a partir dos resultados da pesquisa FIA Employee Experience (FEEx), que mede a qualidade do ambiente de trabalho, a solidez da cultura organizacional, o estilo de atuação da liderança e a satisfação com os serviços de RH. A pesquisa já está na fase de coleta de dados das empresas inscritas e as empresas vencedoras devem ser anunciadas em agosto.