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Entregador narra 'sequestro-relâmpago' em novo golpe do Cornershop no RJ

Um novo golpe envolvendo o Cornershop, aplicativo de compras de supermercado da Uber, vem sendo aplicado no Rio de Janeiro, ao menos desde o Natal do ano passado.

Na tentativa de coibir a fraude, que engloba até denúncias de "sequestro-relâmpago" de entregadores para superfaturar compras pelo app, a plataforma tem bloqueado o cadastro de alguns desses profissionais — a medida é alvo de reclamações por parte dos trabalhadores.

O golpe não atinge os clientes do aplicativo, mas os entregadores e a própria Uber, que acaba arcando com os prejuízos de compras superfaturadas.

Em nota, a empresa afirma saber que "os esquemas de fraude estão em constante evolução" e que "está comprometida em atualizar e fortalecer os seus processos internos para proteger a plataforma e os seus usuários".

Como funciona o esquema?

Segundo depoimentos e prints de grupos de Whatsapp colhidos pela reportagem, golpistas criam uma conta no Cornershop e fazem um pedido de baixo valor total. Em geral, eles adicionam ao carrinho virtual diversas unidades de produtos baratos, como frutas, chicletes, detergentes e latas de cerveja.

Diversos itens de preço baixo são solicitados pelo app
Diversos itens de preço baixo são solicitados pelo app Imagem: Reprodução

A fatura é, então, paga de forma adiantada. Porém, antes de a compra ser efetivamente realizada, os golpistas solicitam aos entregadores a troca dos itens pedidos por outros de preço mais elevado, como um peru de natal. Os entregadores realizam esse procedimento sem entrar de fato nos supermercados. Em outras palavras, simulam virtualmente as mudanças.

Segundo apuração da coluna, alguns entregadores são ameaçados e obrigados a fazer parte do esquema. Também existem relatos de aliciamento para a fraude — nesses casos, é oferecida uma porcentagem da compra superfaturada.

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Uma vez feita a troca dos produtos, o novo valor total, muito superior ao original, é debitado em maquininhas de cartão controladas por pessoas envolvidas na fraude. Por fim, os golpistas desativam as contas falsas, antes de a diferença ser quitada. Assim, o dinheiro que deveria ser pago à plataforma fica com os golpistas.

Produtos baratos são substituídos por outros de valor mais elevado
Produtos baratos são substituídos por outros de valor mais elevado Imagem: Reprodução

Sequestro-relâmpago e ameaças

O caso do entregador Bruno Schmidt fornece outros detalhes de como se dá o golpe. Ele afirma que, ao chegar de moto a um supermercado para fazer uma compra no começo de janeiro, foi reconhecido e rendido por um grupo de pessoas armadas, antes de entrar na loja.

Segundo Schmidt, os golpistas o obrigaram a entrar no aplicativo e trocar, um por um, centenas de produtos. Concluído o procedimento, ele teria passado o cartão bancário do app em uma maquininha de um membro da quadrilha.

Ainda segundo o entregador, tudo foi feito sem que ele precisasse entrar no supermercado. Ele relata ter sido coagido a realizar duas operações: uma de R$ 3 mil e outra de R$ 7,4 mil.

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Schmidt conta que, depois de ser liberado pelos golpistas, registrou um boletim de ocorrência na 21ª Delegacia de Polícia e reportou o caso ao suporte do aplicativo. No entanto, teve seu cadastro cancelado pelo Cornershop.

Desde o incidente, Schmidt diz que vem tentando conversar com o aplicativo para reverter o bloqueio, sem sucesso. "Eles dão apenas respostas automáticas. É uma empresa [com] que não tem como conversar", protesta.

Além de episódios de sequestro-relâmpago, há registros em grupos de Whatsapp sobre chantagens. Golpistas chegam a ameaçar entregadores, enviando dados pessoais de familiares àqueles que se recusam a entrar no esquema.

Um trabalhador ouvido sob a condição de anonimato conta que vem recebendo diversos pedidos de compra de itens de baixo valor. "Eu recuso porque sei que é furada. Aceitar isso para sofrer sequestro?", questiona. No entanto, ele alega ter sido penalizado pelo aplicativo com queda de avaliação por negar as corridas.

"Os entregadores estão sendo ameaçados pelo chat da Uber, que tem a capacidade de vetar a palavra "PIX", mas é incapaz de coibir um golpe", diz Marcello Gomes Sobreira, representante da União Moto e Bike, associação de trabalhadores que atuam em Niterói e na capital fluminense, vinculada à Aliança Nacional dos Entregadores por Aplicativos (Anea).

"Apesar de a Uber ser a vítima financeira do golpe, isso é o resultado de se colocar um produto no mercado sem nenhum estudo amplo dos impactos", complementa Sobreira.

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O que diz a empresa?

Procurada, a Uber se pronunciou por meio de nota. "Nossas equipes de detecção de fraudes usam análises manuais e sistemas automatizados de aprendizado que analisam mais de 600 tipos de sinais diferentes à procura de comportamentos fraudulentos", informa o posicionamento. O texto diz ainda que a empresa está implementando novos processos e aprimorando o treinamento de seus agentes, "para ficar à frente dos golpes mais recentes".

A coluna também questionou a empresa sobre o cancelamento do cadastro do entregador Bruno Schmidt. A nota da companhia informa que, "caso a pessoa acredite ter sido vítima de crime cometido pela outra parte, a empresa sempre encoraja que sejam acionadas as autoridades competentes. A Uber possui uma equipe formada por ex-policiais e um time de resposta a autoridades prontos a colaborar com as investigações, na forma da lei".

A reportagem também tentou contato com a 21ª Delegacia de Polícia do Rio de Janeiro, mas não obteve resposta até o fechamento deste texto.

Nota da redação: a reportagem foi atualizada às 12h15 para incorporar explicações sobre a fraude

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Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

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