PUBLICIDADE
IPCA
+0,53 Jun.2021
Topo

Cleveland Prates

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Recusar vacina não faz sentido sob nenhum ponto de vista, nem do econômico

Cleveland Prates

Economista especializado em regulação, defesa da concorrência e áreas correlatas. Atualmente é sócio-diretor da Microanalysis Consultoria Econômica, coordenador do curso de regulação da Fipe e professor de economia da FGV-Law/SP. Foi Conselheiro do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) e secretário-adjunto da Secretaria de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda.

07/07/2021 04h00

Depois de mais de um ano de pandemia, confesso que tenho muita dificuldade em entender o argumento daqueles que ainda têm restrições à vacinação e não conseguem compreender que suas respectivas decisões podem afetar outras pessoas que vivem na mesma sociedade, inclusive os próprios familiares.

Até mesmo olhando sob o prisma das ciências econômicas, é fácil entender essa questão. Em qualquer livro de introdução à economia, podemos encontrar a explicação para um conceito denominado externalidade, que nada mais é do que o resultado da ação de alguém sobre outros indivíduos (ou agentes econômicos). No caso aqui tratado, a decisão individual de cada pessoa em se vacinar gera um efeito positivo (externalidade positiva) para o resto da sociedade.

Isso porque cada indivíduo vacinado, além de reduzir o próprio risco de contrair a doença, também minimiza a probabilidade de se tornar um polo transmissor para outras pessoas. Assim, quanto maior o número de pessoas vacinadas, menor será a chance de o vírus se propagar e até mesmo de "evoluir" para mutações mais graves. Em outras palavras, a soma das decisões individuais pode gerar um efeito positivo amplificado para toda a sociedade.

Vários epidemiologistas têm trabalhado com a expectativa de que uma abrangência de 70% de vacinados na população seria suficiente para controlar a covid-19. Nesse sentido, quanto antes conseguirmos alcançar esse percentual, mais rapidamente sairemos desta crise sanitária, que nos tem imposto um altíssimo custo social e econômico.

Sob o ponto de vista pessoal, não há como se avaliar precisamente a perda de cada uma das mais de 500 mil vidas que se foram. Também não é trivial avaliar o impacto pessoal, inclusive psicológico, imposto pelo isolamento social, ainda mais quando pensamos no desenvolvimento interpessoal e educacional de nossas crianças e jovens, principalmente os de famílias mais pobres.

Já sob a ótica econômica, cada vida perdida pode ser mensurada em termos de redução da capacidade de geração de renda para o país. Isso sem falar daquelas pessoas que sobreviveram, mas terão que conviver com as limitações produtivas derivadas dos resquícios da doença. Ou seja, o efeito desta crise também se dá pela redução de nossa força de trabalho, inclusive a mais especializada.

Este processo pandêmico nos trouxe ainda uma conta salgada relacionada ao forte incremento com gastos em saúde, tanto no âmbito público como privado. E muitos desses gastos podem se expandir por vários anos, inclusive porque a necessidade de concentrar esforços para combater a covid-19 pode ter levado a que uma parte da população deixasse de lado o cuidado com outras doenças.

Finalmente, a pandemia, por si só, já provocaria a redução do nível de atividade macroeconômica e ampliaria o desemprego. E com a gestão da crise pelos nossos governantes, que foi, no mínimo, descoordenada e com muitas decisões questionáveis, a situação só se agravou. Aliás, em artigo de maio do ano passado (Não se trata de CPFs versus CNPJs, mas sim de quantos CPFs desaparecerão) eu já havia alertado sobre os erros que estávamos cometendo e o potencial de danos econômicos associados.

Fato é que se hoje olharmos para frente, ainda há algumas coisas que podemos fazer como cidadãos para minimizar as perdas futuras. A primeira delas é participarmos efetivamente do processo de vacinação, sem nos preocuparmos com o tipo de imunizante que nos será aplicado; salvo em casos de restrições médicas.

O processo de "certificação" da Anvisa existe exatamente para garantir que as vacinas liberadas para uso são seguras e que reduzem a probabilidade de adoecermos ou, na pior das hipóteses, de que a doença se agrave, caso seja contraída. E, como já explicado, esse efeito positivo individual amplia a proteção coletiva da sociedade.

A segunda coisa que temos que entender é que a medicina está muito longe de ser uma ciência exata. Em outras palavras, em que pese o fato de os imunizantes utilizados serem realmente seguros e eficazes, cada organismo pode reagir de uma forma distinta, havendo sempre alguma probabilidade, por mínima que seja, de que alguém, mesmo imunizado, contraia a doença e a transmita para outros.

Nesse sentido, até que tenhamos reduzido substancialmente o ritmo de contaminação da covid-19, é fundamental continuarmos com os mesmos cuidados básicos recomendados pelos infectologistas, que passam pelo uso de máscaras adequadas (principalmente em lugares de pouca circulação de ar), desinfecção das mãos com frequência e, na medida do possível, evitar situações de aglomeração.

Ao fazer isso, cada pessoa reduzirá a chance de contrair a doença e de transmiti-la a terceiros, ou seja, também estará gerando externalidade positiva para o resto da sociedade, nos mesmos moldes do processo de vacinação. E com isso, reduzir-se-á também a chance de que nossos governantes estabeleçam novos fechamentos da economia, com todas as implicações negativas que carregam.

Em última instância, com todo o desconhecimento que ainda temos a respeito dessa doença, com o desenvolvimento de novas variantes do vírus e com um percentual ainda baixo da população vacinada com as duas doses, a atitude de cada um de nós de se vacinar e manter os mesmos cuidados (dentro de seus respectivos limites individuais) pode evitar o agravamento da pandemia e minimizar todos os custos aqui descritos para o conjunto da sociedade.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL