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João Branco

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O que é cringe e por que só se fala disso nas redes sociais?

João Branco

João Branco tem mais 20 anos de experiência em grandes marcas e trabalha desde 2014 no McDonald's, onde é o Diretor de Marketing e lidera o talentoso time que está batendo todos os recordes de vendas da história do Big Mac. João estudou em algumas das melhores universidades do mundo mas aprendeu no "Méqui" o que nenhuma aula teórica foi capaz de ensinar: que o resultado sempre vem quando o consumidor ama muito tudo isso.

Colunista do UOL

30/06/2021 04h00

Em casa temos um acordo: o primeiro que ficar sabendo de uma gíria nova que está na boca do povo, conta para o outro. A gente não quer parecer "tiozões". E eu trabalho com produtos massivos, preciso saber qual é a versão da língua portuguesa que o meu público está usando no momento. Tenho a sensação de que o "idioma" que usamos no dia a dia é atualizado com mais frequência do que o sistema operacional do iPhone ou os mapas de trânsito do Waze.

Quem não se lembra do sorrisinho feito com os caracteres do teclado? :) Sou um dos únicos que ainda usam isso, me apeguei. Mas sei que é coisa de velho. Com o tempo, palavras deram lugares a emoticons, que foram atualizados pelos emojis, que enfrentam a concorrência das mensagens de áudio, que agora podem ser ouvidas em velocidade 2x. Expressões longas foram encurtadas em siglas e, ao mesmo tempo, acompanhadas pelas novas expressões que surgem o tempo todo.

Já tivemos que aprender o que é crush, #tbt, fandom, trollada, flopar, poser, biscoiteira, gringa, fanfic, vlw, stalkear, shippada, flw e sqn (se isso é grego pra você, a coisa está feia). A internet nos apresentou a expressões como "o pai tá on", "sou eu na vida", "credo que delícia", "chocou zero pessoas", "Deus me livre, mas quem me dera" e "fada sensata".

Agora chegou a vez do "cringe".

As buscas por essa palavra no Google aumentaram em 100 vezes nos últimos dias. A palavra, originalmente usada como um verbo na língua inglesa, remete a vergonha alheia. Estão chamando de cringe as situações embaraçosas, os "micos", os momentos em que alguém faz algo descontextualizado. Mas, para você que já estava começando a pensar em situações onde conseguiria aplicar a gíria no seu dia, trago más notícias: essa palavra não foi importada para isso. Ela não é usada em qualquer situação vergonhosa. Os jovens usam essa expressão para falar de nós - os millenials, baby boomers ou outras gerações "pré-históricas".

Lembra quando você viu as fotos antigas dos seus pais ou avós? Sabe aquela sensação de que eles estavam totalmente bregas e cafonas? É assim que os teens de hoje nos veem. E por isso nos qualificam como cringe.

Não fique triste com isso, "tiozão da Sukita". Você também fez isso com as gerações anteriores. É desafiando os padrões e modelos que descobrimos novas formas de ver o mundo.

Mas esse texto não existe apenas para te informar sobre o que estão falando de nós. Ele foi feito, principalmente, para te lembrar da importância de se atualizar.

Em especial, se você trabalha com comunicação, atende clientes ou vende algum produto, você precisa manter a sua capacidade de se conectar com os seus consumidores. Usar um discurso antigo para oferecer seus serviços vai ser tão efetivo quanto tentar conquistar alguém numa balada chamando a pessoa de "meu broto". De tempos em tempos, revise a forma como você está se comunicando.

Por que será que seus alunos não prestam mais atenção às suas aulas? Ou qual seria a razão para os seus posts não ganharem curtidas nas redes sociais? Por que o meu concorrente moderninho está conseguindo vender mais? Talvez seja porque você virou cringe. E não foi porque você mudou. Foi justamente porque não mudou.

Isso não significa que você precisa dar um banho de gírias moderninhas, memes e dancinhas no seu discurso. Mas que precisa pensar em como garantir que vai continuar sendo interessante para o seu público. Isso passa por entender os assuntos, interesses, códigos e a linguagem que estão sendo usadas por eles.

Descobri que também existe um Marketing cringe: é justamente aquele que não consegue gerar uma conexão, convencer, engajar, mudar hábitos e gerar resultados.

E aí, bora "descrinjar" essa comunicação?

cringe - Felipe Tomazelli - Felipe Tomazelli
Imagem: Felipe Tomazelli

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL