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José Paulo Kupfer

Bolsonaro parece não entender que cliente morto não paga

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José Paulo Kupfer

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

12/05/2020 18h16

Nada é tão ruim que não possa piorar. Essa triste verdade está oferecendo, no Brasil, confirmações em cadeia, numa indesejável frequência. Às voltas com a tragédia de uma crise sanitária sem precedentes, falta ao país um governo capaz de planejar, organizar e executar o enfrentamento do gravíssimo problema.

O decreto desta segunda-feira (11), que incluiu as academias de ginástica, salões de beleza e barbearias entre as atividades essenciais, para as quais as medidas de isolamento e fechamento compulsório não valem, é o mais recente e bem acabado exemplo de tudo que uma administração federal não deveria fazer. Além de inócuo, só reforça a ideia de que o governo federal é um conjunto desarticulado, um amontoado de gabinetes atirando para todos os lados, inclusive no pé.

Definir atividades tão evidentemente não essenciais como essenciais, como forma de mantê-las abertas ao público, é inócuo por pelo menos dois motivos. Primeiro, a definição do tipo de serviço que deve permanecer fechado é prerrogativa de governadores e prefeitos, conforme determinação expressa e específica do STF (Supremo Tribunal Federal). Amparados nessa determinação, vários governadores já informaram que não obedecerão ao decreto presidencial.

Mas, mesmo que as academias e salões abram, é preciso verificar se a clientela vai aparecer. Frequentadores desses estabelecimentos podem, simplesmente, não querer arriscar o contágio da Covid-19, em atividade nada vital para o seu dia a dia.

Ainda que se suponha existir quem queira enfrentar os riscos de contrair a doença, o deslocamento até o estabelecimento pode ser barrado por bloqueios estaduais ou municipais mais radicais de circulação de pessoas. É o que já está ocorrendo em diversas cidades brasileiras. A tendência, na medida em que casos de infecção, internação e mortes avançam, é de que o arrocho na circulação urbana se dissemine nas próximas semanas.

O decreto assinado pelo presidente Jair Bolsonaro visa, nas palavras do próprio presidente, assegurar o trabalho e a renda de um milhão de trabalhadores. "A questão da vida tem que ser tratada paralelamente à questão do emprego. Sem economia não tem vida", disse Bolsonaro.

O problema é que o argumento, como já está mais do que sabido, encerra um falso dilema. Se "sem economia não tem vida", sem vida também não tem economia. A verdade mais clara e crua é que cliente morto não paga.

A ideia de que basta abrir a porta da loja para a demanda, automaticamente, comparecer no balcão é, numa palavra, estapafúrdia. Ainda que não houvesse restrições de circulação de pessoas, como garantir que potenciais clientes se dispusessem a se arriscar? A tendência ao impedimento não se prende somente à questão sanitária.

Os fluxos de renda, óbvios combustíveis da demanda, estão sendo duramente atingidos com o choque inusitado e simultâneo de oferta e procura, causado por desemprego, suspensão de contratos trabalhistas e redução de jornada de trabalho. Poucos, para resumir, terão, além de coragem de enfrentar contatos físicos tão próximos, dinheiro no bolso sobrando - ou tranquilidade em relação a possíveis perdas futuras - para gastar na correção de uma sobrancelha ou num trato na barba.

Para, de fato, mover a economia primeiro de tudo é preciso preservar vidas. Isso se consegue impedindo a propagação do contágio, que pressiona o sistema de saúde e rebaixa a qualidade do atendimento médico. Nesse estágio, a economia é salva - ou pelo menos amparada - com recursos públicos no volume necessário para dar sustentação temporária a pessoas e empresas com circulação restrita.

Mas a reabertura das atividades econômicas, como estão mostrando os países que não negaram a gravidade da epidemia, não se faz apenas com decretos. Sem planejar e organizar a volta dos deslocamentos e a segurança nos ambientes de trabalho e de venda, nada feito.

O governo Bolsonaro tem dado sucessivas provas de que não dispõe dessa capacidade de planejar e organizar. Ao contrário, o que se vê, é descoordenação. Basta a expressão de surpresa do ministro da Saúde, Nelson Teich, ao ser informado pelos jornalistas que o entrevistavam da inclusão de academias e salões de beleza nos serviços essenciais, para ter certeza dessa realidade incômoda.

Não é só no âmbito do ministério da Saúde, que deveria ser a prioridade das prioridades no momento, que a descoordenação é a regra do governo Bolsonaro. No ex-superministério da Economia, secretários anunciam programas que são desmentidos em seguida e vultosos recursos anunciados não chegam ao destino.

Um bom exemplo é o programa de apoio a pequenas empresas, para que banquem, temporariamente, a folha salarial de seus empregados. Anunciado com previsão de gastos de R$ 40 bilhões, só desembolsou até agora R$ 400 milhões, o equivalente a 1% do total.

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