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José Paulo Kupfer

PIB de 2020 passa por nova onda de revisões, e queda prevista se aprofunda

José Paulo Kupfer

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

20/05/2020 18h08Atualizada em 22/05/2020 10h40

À medida que o tempo passa, a barafunda que contagiou as medidas de isolamento social no Brasil, resultando no prolongamento das curvas ascendentes de infectados, hospitalizados e mortos, vai fazendo estragos na atividade econômica. Com base em dados de abril e indicadores antecedentes de maio, está em curso uma segunda onda de revisões, para pior, das projeções para o evolução da economia, em 2020 e 2021.

A retração já inédita antes prevista avançou para um mergulho de tirar o fôlego. A contração em torno de 4% a 5%, estimada até recentemente para o recuo do PIB (Produto Interno Bruto), em 2020, acentuou-se, levando agora a previsões de uma queda numa faixa entre 7,5% e 8%. Depois de divulgados os números da atividade econômica efetiva de abril e maio - os dois primeiros meses cheios da pandemia no país -, não será surpresa se as previsões apontarem mergulho ainda mais intenso, se aproximando dos dois dígitos.

Na nova onda de revisões, em compensação, as projeções para a expansão da economia em 2021 aparecem mais animadoras. As previsões anteriores, de uma expansão limitada a 2% ou 2,5%, estão agora revistas para números em torno de 4% a 4,5%.

A primeira explicação para essa alteração positiva é a de que a base de comparação deverá estar mais deprimida. Um crescimento maior sobre uma base de comparação mais baixa deve ser observado com cuidado. As previsões para 2021, na realidade, apontam recuperação fraca, que só alcançaria o nível já insuficiente de 2019 quatro anos depois.

Exercícios de projeção econômica dependem das premissas assumidas. Em quase as projeções mais recentes, a demora no controle do contágio da Covid-19 e do alívio do sistema de saúde é a mais importante delas. Até aqui, em sua maioria, os modelos de projeção assumem que o isolamento começará a ser relaxado em junho, mas com reabertura considerada operacional só a partir de setembro. Pode ser uma hipótese otimista.

Também têm pesado nos cálculos as incertezas políticas, que inibem diretamente as decisões de investir. Outros pontos considerados relacionam os anteriores gargalos da economia, que já dificultavam uma retomada mais robusta, mesmo antes da pandemia.

Não há dúvida de que a contração do PIB, em 2020, será puxada pelo resultado do segundo trimestre. É o período que inclui os desdobramentos mais agudos da pandemia, incluindo o impacto integral dos choques de oferta e demanda ocorridos em abril e maio. Nesses dois meses, ocorreram aumentos exponenciais de casos de Covid-19 e de mortes, refletindo, em alguma medida, as tentativas em grande parte pouco eficazes de impor isolamentos mais efetivos.

Na revisão de projeções da IFI (Instituição Fiscal Independente), divulgada nesta segunda-feira (18), juntamente com seu mais recente RAF (Relatório de Acompanhamento Fiscal), por exemplo, a queda, no período abril-junho, já agregando dados de abril, antes prevista em 5,5%, avançou para 9,9%.

Nesse cenário, depois de queda de 1%, no primeiro trimestre, expansão de 4,3%, no terceiro, e 0,5%, no último quarto do ano, o recuo do PIB, no conjunto de 2020, chegaria a 5,5%. Nas projeções anteriores, esse número correspondia ao cenário mais pessimista. Na hipótese de que a economia brasileira apenas se estabilize, no segundo semestre, o tombo no conjunto do ano se aprofundaria, registrando contração de 7,5%.

Órgão vinculado ao Senado Federal, a IFI tem se caracterizado por análises e projeções conscienciosas do quadro econômico, com ênfase na avaliação dos impactos fiscais das políticas públicas. No próprio RAF de maio, a IFI promete, para seu próximo relatório, uma "revisão oficial" da evolução prevista para o PIB 2020, a partir dos números efetivos e então já conhecidos do primeiro trimestre e de informações referentes ao estado da economia em maio e junho.

A queda de 10% no segundo trimestre, em relação ao primeiro quarto de 2020, não é muito diferente da que está sendo prevista para economias mais maduras, como a dos Estados Unidos, França, Alemanha e Reino Unido. A diferença está no ritmo da recuperação projetado para aquelas economias, mais rápido e vigoroso do que o esperado para o Brasil.

As perspectivas para o Brasil, na crise economia relacionada à pandemia de Covid-19, são piores. Tomando como base as projeções do FMI (Fundo Monetário Internacional), para a evolução de 190 economias, no conjunto de 2020 e 2021, o Brasil, com contração de 5,3%, em 2020, e expansão de 2,9%, em 2021, ficará, na média acumulada dos dois anos, abaixo de 85% das demais economias. Na crise de 2008/2009, a média do PIB brasileiro naqueles dois anos ficou atrás de 35% dos demais países.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

José Paulo Kupfer