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José Paulo Kupfer

Retrato financeiro das empresas mostra que investimentos devem demorar

José Paulo Kupfer

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

22/10/2020 04h00

Os indicadores usados por empresas para tomar decisões de investimento estavam em baixa, no Brasil, no fim do primeiro semestre de 2020. Numa amostra de 460 empresas, as taxas de retorno do capital investido, nos 12 meses acumulados até junho, não cobriam o custo médio do capital destinado ao investimento. As condições para a reversão dessa situação também não eram favoráveis na entrada do segundo semestre do ano.

Essas informações fazem parte de um levantamento do Cemec-Fipe (Centro de Estudos de Mercado de Capitais, da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas da USP), a partir das demonstrações financeiras do segundo trimestre, as mais atualizadas já publicadas. Dirigido pelo economista Carlos Antonio Rocca, ex-secretário de Fazenda de São Paulo, o Cemec analisa, regularmente, a situação das empresas brasileiras, com base em seus balanços contábeis publicados.

O grupo analisado neste mais recente estudo do Cemec reúne empresas não financeiras, das quais 302 são de capital aberto e 158, de capital fechado. Duas em cada três dessas empresas são de grande porte, com faturamento anual acima de R$ 300 milhões.

É possível observar, já há alguns anos, uma expressiva redução no volume de investimentos, no grupo das empresas analisadas. Do pico de 6,4% do PIB em 2012, o montante de investimentos desse conjunto mergulha até 2,5%, em 2016. Mas a recuperação que se esboçou até 2019, quando os investimentos somados da amostra alcançaram 4,3% do PIB, desabaram para 2,5% do PIB, no acumulado de um ano até o primeiro trimestre de 2020, subindo ligeiramente para 2,8% do PIB, no segundo trimestre.

Uma explicação para essa trajetória do investimento pode ser encontrada na evolução da taxa de retorno do capital investido, em relação ao custo de capital. Não há razão lógica em investir quando retorno de investimento fica menor do que o custo do capital aplicado no investimento. Essa relação vem caindo desde 2007 e ficou negativa em 2011.

A melhora do montante de investimentos entre 2016 e 2019 reflete o avanço da relação retorno do capital/custo do capital, no período. Em 2018, o indicador chegou a 1, expressando uma situação favorável, em que o ganho com o investimento cobria o custo de investir. Mas, a relação negativa, que iria se intensificar com a pandemia, já voltara a ocorrer antes dela, em 2019. No segundo trimestre de 2020, o custo do capital encontrava-se quatro pontos percentuais acima da taxa de retorno do capital investido.

Embora crucial, a relação entre retorno do capital e seu custo não é o único elemento na decisão de investimentos de uma empresa. Como destaca o estudo do Cemec, também as expectativas para a evolução média da economia, três anos adiante da data de referência, do mesmo modo que o grau de utilização da capacidade instalada, a variação dos índices de confiança e de incertezas operam nas decisões empresariais de investimento.

Nenhum desses fatores revela capacidade de impulsionar o investimento, pelo menos até o fim do primeiro semestre. A expectativa em relação ao desempenho futuro da economia, de acordo com o Boletim Focus, como registra o estudo do Cemec, chegou, no segundo trimestre, ao ponto mais baixo em uma década e meia, encontrando-se em terreno negativo, pela primeira vez no período.

O grau de utilização da capacidade instalada também está no ponto mais baixo desde que começou a recuar em 2011. No fim do primeiro semestre de 2020, apenas 76% da capacidade instalada estava sendo utilizada. Quanto aos índices de confiança e de incerteza, se reagiram depois de abril, ainda estão abaixo das marcas de 2018 e 2019.

Mesmo que os indicadores que servem mais diretamente de base para decisões de investimento estivessem em situação mais favorável, a situação geral das empresas não ajudaria na inversão de recursos para ampliação ou modernização dos negócios. Embora os índices de solvência e liquidez estejam melhores do que os registrados em 2015 e 2016, dívidas e despesas financeiras estão em alta, ao mesmo tempo em que lucros e geração de caixa mostram queda.

Tudo isso em conjunto deixa claro que uma retomada do investimento, impulso importante para a volta do crescimento, ainda deve demorar a tomar corpo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.