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José Paulo Kupfer

Bolsonaro tira corpo fora e se contradiz sobre alta de preços de alimentos

José Paulo Kupfer

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

24/11/2020 04h00

O presidente Bolsonaro é um negacionista militante. Nega, abraçado com o Centrão, ter aderido aos piores modos de fazer política, recorrendo ao toma-lá-dá-cá para angariar apoio no Congresso. Nega as evidências de corrupção no seu entorno, como o caso das rachadinhas de seu primogênito, senador Flávio Bolsonaro, enquanto interfere em diversas instâncias do Estado - Justiça e Polícia Federal - para tentar barrar investigações e indiciamentos.

Bolsonaro nega, sobretudo, a pandemia de Covid-19. Com 6 milhões de brasileiros infectados e mais de 160 mil mortes, ele continua, na prática, encarando o terrível problema como se fosse a "gripezinha" com qual o classificou desde o início. O presidente lidera uma inacreditável campanha contra vacinas para barrar a propagação do coronavírus, e, para ele, quem toma cuidados para evitar o contágio, respeitando o próximo, é "maricas".

Negar é uma faceta de Bolsonaro, mas não a única. Ele não só nega, como tira o corpo fora o tempo todo. A pandemia sem controle é culpa dos governadores. A inação na economia, em que a verborragia do ministro Paulo Guedes faz contraste com a ausência de ações concretas, deve ser debitada dos parlamentares no Congresso, que barram as iniciativas do governo.

Também a forte alta de preços dos alimentos, um tormento adicional, principalmente, para as populações de menor renda, não tem nada a ver com políticas de abastecimento irresponsáveis e puramente mercantilistas. Para se livrar do problema, culpa qualquer outra coisa. Ainda que caia em evidente contradição.

Desta vez, como declarou nesta segunda-feira (23), o desarranjo no mercado de alimentos teria decorrido das regras de distanciamento social. "Pessoal tem reclamado do preço dos alimentos", comentou Bolsonaro. "Tem subido sim além do normal", continuou. "A gente lamenta, mas também é consequência do fique em casa".

Não se sabe em que momento o "fique em casa" pode ter afetado a oferta de alimentos. A produção agrícola e os canais de escoamento da produção, da logística aos pontos de venda ao consumidor - feiras, supermercados e mercados online - não foram paralisados.

Bolsonaro parece ter esquecido que ele mesmo, mais de uma vez, já afirmara que o setor agrícola não teria respeitado a ideia do 'fique em casa", produzindo durante a pandemia. O presidente chegou a dizer, há alguns dias, que os produtores não teriam sido "frouxos" de aderir ao distanciamento social.

A verdade é que, por uma combinação de razões, nenhum relacionada com efeitos da pandemia, os preços de alimentos importantes na mesa do brasileiro dispararam a partir do meio do ano. A desvalorização do real ante o dólar resultou em desvios de parcelas crescentes da produção de soja, arroz, milho e carnes para o mercado externo, ao mesmo tempo em que o auxílio emergencial de R$ 600 mensais, que alcançou cerca de 60 milhões de pessoas, impulsionou a demanda por alimentos.

Como resultado, no mercado interno, o preço do óleo de soja acumulou, de janeiro a outubro, alta de quase 80%, enquanto o preço do arroz, com exportações turbinadas para vizinhos sul-americanos, como a Venezuela, subiu 60%, no mesmo período. Para uma inflação geral, medida pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), calculado pelo IBGE, não superior a 3,5%, em 2020, a alta de preços do item "alimentação no domicílio" deve ultrapassar 15%, no ano.

Desequilíbrios entre oferta e procura, em mercados de alimentos, são relativamente comuns. Fatores climáticos, principalmente em itens de ciclo curto de cultivo, são frequentes, produzindo altas de preços que não chegam a alterar o sentido das tendências inflacionárias mais gerais. Tomate, batata e até mesmo chuchu, como ocorreu em fins dos anos 70 do século passado, volta e meia dão pinotes de preços.

Em produtos de ciclo de produção mais longo e possibilidade de armazenagem, como é o caso em geral dos grãos - soja, milho, arroz, feijão -, as oscilações de preço são evitadas, ou pelo menos suavizadas, com políticas ativas de abastecimento. A formação de estoques reguladores, capazes de suavizar os desequilíbrios da oferta e as pressões de demanda, equilibrando preços, é o elemento mais efetivo dessa política, que visa, entre outros objetivos, prover segurança alimentar à população, sobretudo as camadas mais carentes.

Não só no governo Bolsonaro, mas com grande ênfase no atual governo, as ações que asseguram a formação de estoques reguladores foram abandonadas. Os estoques de soja e feijão estão zerados - o de soja desde 2013 e o de feijão, há três anos. Arroz, trigo, milho e café também praticamente eliminaram estoques públicos, nos últimos 10 anos.

O Brasil é um raro grande exportador mundial de commodities agrícolas que não mantém estoques reguladores. Vive, por isso, uma situação negativamente peculiar. Enquanto expande as vendas ao exterior, enfrenta explosão de preços no mercado doméstico. Permite, assim, que pelo menos 10 milhões de cidadãos vivam insegurança alimentar, situação inaceitável, caracterizada pela incerteza de que terão acesso a um prato de comida amanhã.