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José Paulo Kupfer

PIB recorde, mas abaixo das projeções, não esconde economia desorganizada

José Paulo Kupfer

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

03/12/2020 12h20

Não era surpresa que a economia brasileira registraria "recuperação" forte, no terceiro trimestre de 2020. Mas também não havia muita dúvida de que seria uma recuperação entre aspas porque, na verdade, expressaria mais um repique estatístico do que uma retomada consistente e sustentada da atividade econômica.

O PIB (Produto Interno Bruto), de fato, mergulhara profundamente no segundo trimestre, recuando 9,7%, em relação ao trimestre anterior, um recorde. A expansão observada no trimestre seguinte, no intervalo de julho a setembro, de 7,7%, também um recorde, divulgada nesta quinta-feira (3) pelo IBGE, apenas refletiu a base de comparação acentuadamente reprimida.

Fica evidente, quando são utilizadas outras bases de comparação, que a economia ainda não se recuperou da queda abrupta provocada pela pandemia de Covid-19, que levou a um inesperado e inédito colapso concomitante da oferta e procura. Em relação, por exemplo, ao terceiro trimestre de 2019, a produção total ainda é 3,9% inferior. Em 12 meses, se encontra 3,4% abaixo e ainda deve 5%, se a base de comparação é o início de 2020.

Essa "recuperação" entre aspas não esconde que a estrutura produtiva brasileira vive um período de baixa tração, com episódios de desorganização. Tal situação mais adversa não foi inteiramente captada pelas projeções, que apontavam expansão de próxima a 9%, no terceiro trimestre.

Como resultado, o crescimento ocorrido mostra um "V" capenga, com a perda da direita mais curta. A insuficiência de investimentos, redução do auxílio emergencial e incertezas na área fiscal operam para dificultar uma retomada consistente. Mas o principal entrave vem das dúvidas sobre os impactos negativos na economia da nova onda de Covid-19, combinados com desconfianças em relação à ação do governo para combatê-los.

Esse cenário conduz a previsões de arrefecimento da atividade no último trimestre do ano e de menor tração para 2021, para o qual nem se tem um quadro fiscal definido e sobrevivem dúvidas sobre a manutenção de alguma renda básica a vulneráveis e informais. Entre analistas, o desenho da trajetória da economia daqui para frente poderá ter a forma do símbolo da raiz quadrada, um "V" que se estende por uma linha reta. A indústria, que puxou o crescimento no terceiro trimestre, por exemplo, entrou no último terço do ano perdendo fôlego.

Ao afetar não só o lado dos consumidores, freando a demanda, mas também a oferta, paralisando a produção, a pandemia provocou uma desorganização nos processos de produção, que ficou mais clara quando o consumo, animado pelo auxílio emergencial de R$ 600 mensais, começou a se recuperar. A falta de insumos, matérias-primas e peças refreou o ritmo de produção, impediu a recontratação de mão de obra e resultou em pressão sobre custos.

Um exemplo dessa situação, visível em vários segmentos produtivos, pode ser encontrado no comportamento das vendas de veículos. Embora com alta de 4,6% sobre outubro, o volume de emplacamentos de veículos novos permanece 7% abaixo do total comercializado em novembro de 2019, com queda de quase 30% no acumulado do ano.

O resultado teria sido melhor, segundo a Fenabrave, entidade nacional que reúne as concessionárias de veículos, se o fluxo de peças para as montadoras estivesse normalizado. Há filas de espera para a compra de veículos, principalmente de frotistas e locadoras, e, em decorrência, informações de aumento do movimento no mercado de veículos usados, pressionando os preços.

Não só restrições de partes e peças estão impedindo a reabertura de turnos de produção fechados no auge da pandemia, no segundo trimestre, para atender a uma demanda reprimida. Incertezas sobre os rumos da economia, incluindo a ação oficial para o enfrentamento do repique da Covid-19 e a aplicação de vacinas, concorrem para não levar a uma aceleração da produção e das vendas.

Com o resultado do terceiro trimestre abaixo do projetado, é possível que analistas iniciem uma temporada de revisão para recuo um pouco mais forte da contração da atividade no conjunto de 2020 e de expansão um pouco menor, na projeção para 2021. Antes da divulgação dos números do terceiro trimestre, a expectativa era de uma queda de 4,5% este ano, com recuperação de 3,45%, no ano que vem. Recuperar os níveis de atividade pré-pandemia só no fim de 2021 ou em 2022.