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José Paulo Kupfer

BC mexe na taxa de juros sem sair do lugar, no primeiro Copom de 2021

José Paulo Kupfer

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

20/01/2021 19h38

O Comitê de Política Monetária (Copom), mexeu na taxa básica de juros, sem alterar o nível em que ela permanece desde agosto. Essa "mágica" foi possível com a retirada do "forward guidance" introduzido na mesma reunião de agosto de 2020, quando a taxa Selic foi cortada de 2,25% para 2%.

Mais do que um sinal de que planeja elevar os juros básicos em breve - o que, de todo modo, passa a ser uma possibilidade mais palpável - a retirada do "forward guidance" indica que o Copom quer mais espaço e flexibilidade para manejar a política monetária, num momento de grandes incertezas sobre o comportamento da economia, e, em consequência, da inflação. Com a retirada do "forward guidance", o Copom não mais se compromete, desde que observadas certas condições, a manter a taxa Selic inalterada por um período de tempo mais longo.

Traduzido como "prescrição futura", o "forward guidance" pode ser entendido como um instrumento complementar de coordenação de expectativas, dentro do arsenal de mensagens da comunicação a que os bancos centrais costumam recorrer. O instrumento tem sido usado em geral quando a economia se encontra em recessão, a inflação se mantém abaixo do centro da meta anteriormente estabelecida, e a taxa básica de juros já está muito baixa.

Pelas regras de política monetária, definidas pelo sistema de metas de inflação, em situações desse tipo, o receituário tradicional mandaria cortar ainda mais os juros básicos. Quando isso, porém, pode afetar, negativamente, outras linhas de política econômica, em especial a política fiscal, a "prescrição futura" entra em cena.

O mecanismo introduzido pelo Copom em agosto passado, não é uma novidade no arsenal de instrumentos dos bancos centrais. O "forward guidance" foi usado pela primeira vez pelo BoJ (Banco Central do Japão) em 2007. A novidade foi adotada pelos bancos centrais das maiores economias ocidentais - Fed (Federal Reserve, banco central americano), BCE (Banco Central Europeu) e BoE (Banco Central da Inglaterra) -, com utilização mais frequente no enfrentamento da grande crise de 2008.

Entre a avaliação de que há pressões inflacionárias no horizonte, que permitem projetar uma variação do IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), próximo ao centro da meta fixada, neste e nos próximos anos, e a constatação de que a atividade econômica pode ser negativamente impactada por uma segunda onda de Covid-19, o Copom, resumindo, não saiu do lugar, mas retirou do seu caminho a barreira que havia imposto a si mesmo em manter os juros em nível historicamente baixo, para estimular a economia. Para o mercado, o sinal é de alta dos juros, e alguns analistas já projetam uma elevação de 0,25 ponto na taxa básica, em março, ou pelo menos ainda no primeiro semestre, dando início a um ciclo de altas que levaria a taxa Selic, no fim do ano, de 3,25% a 4%.