PUBLICIDADE
IPCA
+0,83 Mai.2021
Topo

José Paulo Kupfer

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Pandemia desorientou bússolas que ajudam a fazer previsões econômicas

José Paulo Kupfer

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

18/05/2021 13h39

Está ocorrendo uma onda de revisão das expectativas de crescimento da economia em 2021. São revisões para cima, prevendo que a atividade econômica, no fim deste ano, mostrará expansão de 4% ou até mesmo de 5%, em relação a 2019. Antes das revisões, as projeções indicavam avanço de 2,5% a 3,6%.

Também o governo Bolsonaro revisou suas projeções de crescimento econômico em 2021. No Boletim MacroFiscal de maio, divulgado nesta terça-feira (18), o ministério da Economia elevou a previsão de expansão do PIB (Produto Interno Bruto) de 3,2% para 3,5%, em 2021. Ao mesmo tempo, manteve a projeção de alta de 2,5%, em 2022. Muitos analistas, ao elevar previsões para este ano, reduziram suas estimativas para o ano que vem, prevendo avanço inferior a 2%.

A atualização da estimativa oficial, mais moderada do que a de alguns analistas, está alinhada com a projeção de momento do Boletim Focus, publicação do Banco Central que divulga a mediana das previsões de analistas de bancos e consultorias financeiras. Na publicação desta segunda-feira (17), a previsão de aumento do PIB em 2021, na comparação com 2020, subiu para 3,45%.

O que motivou as revisões foi o resultado do IBC-Br (Índice de Atividade Econômica), calculado mensalmente pelo BC, com o objetivo de obter uma referência antecipada da variação efetiva do PIB, divulgada trimestralmente e com defasagem de alguns meses, pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). No primeiro trimestre de 2021, o IBC-Br avançou 2,3% sobre o último trimestre de 2020.

Este resultado divergiu das projeções de consenso, segundo as quais o IBC-Br recuaria perto de 3,5% no período, ao mesmo tempo em que o PIB também se apresentaria negativo no primeiro trimestre do ano. O menor impacto do que o previsto com o recrudescimento da covid-19, no início do ano, determinando novos fechamentos do comércio e restrições de mobilidade para a população, motivaram as revisões para cima para o PIB.

Fala-se em maior resistência da economia, depois da segunda onda de covid-19, no começo do ano, mesmo com a menor amplitude dos auxílios emergenciais em 2021. Aposta-se também na hipótese de a resposta da economia a uma eventual terceira onda seja mais benigna. A ver, diante da prevalência de muitas incertezas.

Até então a expectativa era a de que não houvesse crescimento próprio algum nos quatro trimestres deste ano, com o PIB avançando 3,6% sobre o ano anterior, quando recuou 4,1%, em relação a 2019, por efeito estatístico da aceleração registrada nos últimos meses de 2020. O saldo positivo esperado para o resultado acumulado de janeiro a março é o que tem sustentado as revisões. Para a FGV (Fundação Getúlio Vargas), o PIB avançará 1,7% no primeiro trimestre, em relação ao trimestre anterior.

A nova projeção, que aponta crescimento de 4% em 2021, indica, portanto, que a atividade econômica andará de lado nos três outros trimestres do ano. Os que estimam avanço maior contam com alguma expansão ao longo do ano, principalmente no segundo semestre.

O ritmo de vacinação é fator chave de consenso para as previsões do crescimento da economia em 2021. No Brasil, este é um também um elemento de elevação de incertezas sobre o comportamento futuro da economia. A escassez de vacinas, importadas da China e da Índia, que tem causado lentidão na imunização da população, é, inclusive, ponto central das investigações da CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Covid, no Senado Federal.

Um ataque qualquer do presidente Jair Bolsonaro à China, como há poucos dias, pode atrasar o envio de material para a produção de vacinas, como o anunciado na semana passada. Quanto mais lento for o ritmo de vacinação, menor será a amplitude da população imunizada e maiores as perspectivas de novos fechamentos da economia, dificultando a recuperação da atividade.

No Boletim MacroFiscal de maio, até o governo reconhece que o ambiente dominado pelo vaivém do contágio de covid-19 e das dificuldades com as vacinas impacta a consistência das previsões. Mas há outros fatores que estão atrapalhando as projeções.

Houve, com os fortíssimos, abruptos e inicialmente inesperados impactos econômicas da pandemia, uma quebra na continuidade das séries de indicadores. Diante dos mergulhos profundos da atividade, ocorreram, como se diz em economês, descontinuidades nas equivalências entre variações interanuais.

Os modelos de projeção trabalham com informações regulares do passado, filtradas por operações de padronização, O objetivo dessas padronizações é equalizar eventos de um dado período com outros períodos. Com a pandemia, houve descontinuidades nas séries e, além disso, ocorreram alterações nos chamados padrões sazonais. As bússolas antigas não estão servindo como guias tão bem quanto antes

Um exemplo de dificuldades trazidas pela pandemia aos ajustes sazonais foi o carnaval de 2021. O feriado prolongado influencia resultados econômicos se a festa acontece em fevereiro ou em março. Neste ano, oficialmente não houve carnaval, mas o recrudescimento do contágio de covid-19 decretou medidas de fechamento, similares ao do carnaval, em março.

Isso confundiu os analistas e acabou influenciando as estimativas. No caso do IBC-Br, por exemplo, o índice recuou 1,59% em março, mas as previsões apontavam queda de 3,3%. O que provocou o desvio foi, claramente, uma dificuldade de dessazonalizar os dados.

Desvios nas projeções têm sido mais comuns em toda parte. Nos Estados Unidos, por exemplo, as previsões mais recentes sobre o mercado de trabalho e a inflação também erraram o alvo muito mais do que o rotineiro. As novas admissões no mercado de trabalho, em abril, em torno de 250 mil postos, não passaram de uma quarta parte do previsto e também a inflação, projetada em 0,2%, no mês passado, foi, na verdade, quatro vezes maior.

Além de exigir cuidados especiais e redobrados, os exercícios de previsão econômica, sob o impacto da pandemia, estão enfrentando uma nova zona de turbulência. Devem, portanto, ser agora encarados com ainda mais desconfianças do que normalmente já eram.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL