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José Paulo Kupfer

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

BC sobe no muro em relação às medidas populistas de Bolsonaro nos impostos

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José Paulo Kupfer

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito ?Jornalista Econômico de 2015? pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

15/06/2022 19h35

A maior dúvida não era quanto o Copom (Comitê de Política Monetária) subiria a taxa básica de juros (taxa Selic), na reunião desta quarta-feira (15). Como ocorreu, era quase consenso de que a alta seria de 0,5 ponto percentual, elevando a Selic de 12,75% nominais ao ano a 13,25%, a mais elevada desde o começo de 2017.

Nos meios financeiros, a pergunta que aguardava resposta dos diretores do Banco Central era até onde iria o ciclo de altas da taxa básica. O ciclo atual teve início em março de 2021, quando a Selic se encontrava em 2%, o ponto histórico mais baixo, Os analistas se dividiam entre os que apostavam que o movimento de alta seria encerrado em junho e os que entendiam que o Copom avançaria pelo menos mais 0,5 ponto até agosto, fechando o atual ciclo em 13,75%.

A resposta que veio no comunicado divulgado logo após o encerramento do encontro foi clara. O ciclo de alta vai ser estendido pelo menos até a reunião de agosto, quando a taxa Selic deverá sofrer nova alta de 0,5 ponto ou menos. A perspectiva aberta pelo Copom é a de que o atual ciclo termine com a taxa básica de juros em 13,5% ou 13,75%.

Frustraram-se, no entanto, as expectativas de que o BC se manifestasse de modo mais firme em relação às recentes medidas tributárias, tidas como populistas, patrocinadas pelo governo Bolsonaro e sancionadas pelo Congresso, com objetivo eleitoral, com destaque para os cortes temporários nos impostos que pesam sobre tarifas de serviços públicos — energia, telecomunicações, transportes públicos — e preços de combustíveis.

De um lado, conforme registrado no comunicado, o BC concordou que os cortes de tributos reduzem "sensivelmente" a inflação em 2022, mas, de outro, elevam, "embora em menor magnitude, a inflação em 2023". E sai pela tangente: "o Comitê avalia que a conjuntura particularmente incerta e volátil requer serenidade na avaliação dos riscos". A ver como o mercado reage à subida no muro do BC.

A decisão do Copom vem logo após a "surpresa" da alta de 0,75 ponto percentual no juros de referência americano, para o intervalo 1,5%-1,75%, decidido também nesta quarta-feira pelo Fed (Federal Reserve, banco central dos EUA). As aspas indicam que a surpresa acabou não sendo assim tão surpreendente. Se a tendência era de elevação de 0,5 ponto, nos últimos dias formou-se uma onda em favor de uma alta mais forte, afinal confirmada.

Depois da decisão americana e da entrevista do presidente do Fed, Jerome Powell, os analistas passaram a acreditar que a taxa de juros de referência americana poderá avançar mais rápido até 4% no fim do ano. O aumento de ritmo na subida do juros estaria alinhado com a expectativa de que, para trazer a inflação à meta de 2% ao ano, a política de juros deveria ser acelerada.

A reação dos mercados ao anúncio de que o Fed está "fortemente" comprometido em trazer a inflação para a meta foi relativamente suave, pelo menos no primeiro momento. Altas de juros nos EUA significam, em geral, impulsos ao fortalecimento do dólar, mas, no Brasil, por exemplo, as cotações da moeda americana ante o real chegaram até a recuar logo após o anúncio da nova taxa de juros de referência, mas terminaram o dia estáveis em relação ao pregão da terça-feira (14).