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Jovem viaja o mundo trocando estadia por trabalho e cria start-up para isso

Larissa Coldibeli

Do UOL, em São Paulo

Por quase quatro anos, o economista e ex-funcionário de banco Ricardo Lima, 28, viajou por 60 países e se hospedou em mais de 200 hostels (hospedagem de baixo custo) em troca de trabalho. A estratégia para baratear a viagem o fez enxergar uma oportunidade de negócio: conectar viajantes com pouco dinheiro a donos de albergues dispostos a oferecer cama e café da manhã a quem se dispuser a trabalhar. 

Ele é um dos fundadores do site Worldpackers, no ar desde fevereiro de 2014. A página oferece acomodações em 96 países e alguns lugares inusitados, como uma antiga prisão na Nova Zelândia, um hostel formado por cabanas em Zâmbia e até cavernas na Romênia. Com depoimentos de viajantes e anfitriões, a empresa participa da Mostra Viajar, que vai desta sexta (29) a domingo (31), em São Paulo.

"Na minha viagem, andei com gorila, nadei com tubarão, fiz safáris, fiquei em um centro comunitário na Índia e sem falar por uma semana, cruzei o deserto do Saara. Trabalhei em troca de hospedagem no caminho para poder viajar mais. Fui professor de surfe na França, trabalhei em recepção na Coreia, com marketing no Peru, fiz de tudo um pouco e a viagem me transformou."

No site, os donos dos estabelecimentos informam que tipo de trabalho precisam, o número de horas de trabalho por dia ou por semana e as folgas semanais. Os viajantes selecionam a hospedagem já sabendo as condições de trabalho. São 22 atividades possíveis, que vão desde recepção, arrumação, cozinha e jardinagem a promotor de festas, guia turístico, professor de línguas ou de esportes.

É cobrada do viajante uma taxa de US$ 50 por viagem realizada pelo site. O preço é fixo e independe do tempo de permanência. Como não há pagamento do trabalho em dinheiro, é necessário levar o suficiente para se manter, já que em geral os hostels oferecem apenas a estadia e café da manhã.

Os detalhes do trabalho, como dias, horários e folgas, são definidos entre os envolvidos. Lima diz que recomenda a estadia média de um mês, mas há anfitriões dispostos a receber pessoas por até um ano. "Neste caso, o acordo é feito entre eles, e o hostel pode ajudar a conseguir visto de trabalho, por exemplo", diz.

O site oferece uma garantia para anfitriões e viajantes. "Recomendamos que as pessoas se conheçam antes por uma chamada de vídeo via internet, mas pode acontecer de chegar ao local e não dar certo. Nestes casos, encontramos outro lugar para o viajante e outra pessoa para o estabelecimento."

Divulgação
Ricardo Lima se hospedou em mais de 200 hostels e pagou a maioria deles com trabalho

Sócios saíram do Vale do Silício para abrir empresa no Brasil

Quando fundaram a empresa, em agosto de 2013, Lima e Faria estavam na Califórnia e foram ao Vale do Silício para aprender a inovar. "Quisemos abrir o site no Brasil porque a indústria de hostels estava crescendo aqui e achamos que o brasileiro viaja pouco comparado a pessoas de outros países. Também queríamos mostrar que é possível criar um negócio inovador e global aqui", diz Lima.

O investimento inicial foi de R$ 80 mil de recursos dele e do sócio, Eric Faria, 29, ex-gerente de um hostel em San Diego, na Califórnia (EUA), que operava com mão de obra voluntária. Em junho de 2014, entrou um terceiro sócio, João Machini, com perfil técnico, para desenvolver o site. Em dezembro, receberam aportes de um fundo de investimentos e de investidores-anjo, de quase R$ 2 milhões .

No início, os primeiros anfitriões eram conhecidos dos sócios. Hoje, já há uma procura espontânea pelo site, segundo Lima. Antes de entrar para a plataforma, é feito um trabalho de pesquisa e avaliação dos estabelecimentos, para evitar exploração da mão de obra, por exemplo. Ao final da experiência de trabalho, viajantes e anfitriões escrevem seus comentários uns sobre os outros, para criar reputação.

Por questões contratuais com investidores, eles não divulgam o faturamento nem o número de viagens realizadas. Há 60 mil viajantes cadastrados e o número de anfitriões é flutuante, mas varia em torno de 1.000 estabelecimentos, de acordo com o empresário. 80% dos estabelecimentos são estrangeiros, e metade dos usuários é de brasileiros. 

Arquivo pessoal
Eric Faria e Ricardo Lima na Califórnia, EUA, antes de fundar o Worldpackers no Brasil

Negócio é tendência, mas leis trabalhistas podem ser desafio

Marcelo Pimenta, professor de gestão da inovação da pós-graduação da ESPM, diz que a proposta da empresa é baseada na economia colaborativa, que é uma forte tendência. "Essas trocas já acontecem no mundo real, afinal, o empreendedor viajou dessa forma antes de o site existir, mas é potencializada pela internet, que permite dar escala ao negócio e uma visibilidade maior", diz.

Para o professor, ter nascido com a proposta de ser global ajuda na atração de investimentos. No entanto, a empresa pode enfrentar dificuldades em relação a leis trabalhistas. "É um tema complexo porque cada país tem uma lei trabalhista diferente, o que pode criar dificuldades em determinados locais."

Para as advogadas trabalhistas Karine Domingues da Silva, do escritório GMPR, e Lúcia Antonella Cristigiovanni, do escritório Neumann, Gaudêncio, McNaughton e Toledo Advogados, o trabalho não pode ser considerado voluntário, pois há a oferta de estadia em troca. Dessa forma, pode ser considerado uma relação trabalhista, já que há subordinação, habitualidade e onerosidade.

"O hostel fica sujeito a ações trabalhistas dos viajantes e também no caso de uma fiscalização", diz Cristigiovanni. Para os viajantes, há o risco de serem presos ou deportados, dependendo das leis de cada país, se forem pegos trabalhando sem visto de trabalho, dizem as advogadas. 

Serviço:

Worldpackers: www.worldpackers.com

Mostra Viajar

Data: de 29 a 31 de maio, das 11h às 19h

Local: Pavilhão de Culturas Brasileiras - Parque do Ibirapuera - avenida Pedro Álvares Cabral, s/n

Ingresso: R$ 15

Informações: www.mostraviajar.com.br

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