Desemprego diminuiu? Para economistas, agricultura e informalidade salvaram

Ricardo Marchesan

Do UOL, em São Paulo

  • Fabiana Beltramini/Folhapress

O desemprego no país teve a primeira queda estatisticamente significativa desde o final de 2014, de acordo com dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgados nesta sexta-feira (28). A taxa chegou a 13%, com 13,5 milhões de desempregados no segundo trimestre.

O governo tem comemorado os dados sobre emprego. O presidente Michel Temer disse que "estamos crescendo no emprego" e que a crise econômica no Brasil "não existe". O porta-voz da Presidência, Alexandre Parola, declarou que a "volta do emprego" é uma conquista do atual governo.

Para economistas consultados pelo UOL, porém, o Brasil está vivendo um processo de estabilização do desemprego. Os dados positivos do primeiro semestre foram impulsionados pela agricultura e pelo aumento do trabalho informal, sem carteira assinada.

Mais emprego, mas sem garantias trabalhistas

Os dados do IBGE mostram que a taxa de desemprego caiu, mas também houve queda das vagas com carteira assinada. "Infelizmente, a ocupação cresceu pelo lado da informalidade, ou seja, há mais pessoas sem carteira e por conta própria, que não têm garantias trabalhistas", disse Cimar Azeredo, coordenador de Trabalho e Rendimento do IBGE.

Essa também é a avaliação de Carlos Alberto Ramos, professor da UnB (Universidade de Brasília). "A [leitura] positiva é que é melhor que a pessoa esteja empregada sem carteira, do que desempregada", diz. "A negativa é que a taxa de desemprego está caindo pela informalidade."

Para ele, os empregos com carteira só devem aumentar significativamente quando a economia crescer mais, estimulando os empresários a investir e a contratar.

Empresas pararam de demitir, mas ainda não contratam

Os dados divulgados agora mostram que o total de pessoas com trabalho (com ou sem carteira) está praticamente igual em relação ao começo do ano, mas que a taxa de desemprego aumentou, aponta Hélio Zylberstajn, professor da USP (Universidade de São Paulo). 

"O que acontece é que continuam a chegar novos trabalhadores, mas como o mercado está parado, ele não absorve essas pessoas."

Por outro lado, de acordo com ele, esses dados trazem um bom sinal: aparentemente, as empresas pararam de demitir. A questão é que, por enquanto, ainda não estão contratando.

Agricultura segurou as pontas

Os números do IBGE não são os únicos sobre emprego no país. O Ministério do Trabalho divulga mensalmente dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), que mede somente o trabalho com carteira assinada.

O último levantamento divulgado pelo Ministério mostrou a criação de 67.358 vagas com carteira no primeiro semestre. O país havia fechado vagas no primeiro semestre de 2016 (-531.765) e de 2015 (-345.417).

Os economistas, porém, afirmam que o resultado positivo foi puxado pela agricultura: sem ela, o país teria perdido 50 mil vagas com carteira de janeiro a junho. "Nesse número do Caged é importante tirar a agricultura, porque no primeiro semestre ela se expande muito. Então, isso afeta o resultado por causa da sazonalidade", afirma Zylberstajn.

Além de normalmente gerar mais empregos no primeiro semestre, a agricultura também teve uma safra recorde e é beneficiada pela alta do dólar, que beneficia as exportações. "(...) O clima foi totalmente favorável, a safra veio com tudo. Então, é uma bonança para o pessoal da agricultura", diz George Sales, professor da Faculdade Fipecafi (Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras).

Para Sales, a perspectiva geral do emprego não é boa e falta a construção civil parar de demitir. Foram 33 mil vagas a menos no semestre. "Para mim (a construção) seria o mais importante desses grupos porque move uma cadeia (produtiva) muito grande."

Situação está se estabilizando

Mesmo com essa perda de empregos com carteira, Zylberstajn vê um lado positivo, que é a estabilização do desemprego. Apesar de, sem a agricultura, o país ter perdido vagas com carteira, perdeu bem menos que no ano passado (-622 mil). 

"Isso mostra claramente que está havendo uma estabilização, porque 50 mil empregos a menos, em um universo de 40 milhões de empregados (com carteira), é próximo de zero", diz o professor. "Então o que posso dizer neste momento, e a pesquisa do IBGE também confirma, é que o mercado de trabalho estabilizou."

Em vídeo, Temer diz que governo está fazendo "voltar o desemprego"

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