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Temer disse que Brasil não tem crise; será que os dados confirmam isso?

Do UOL, em São Paulo

  • Walterson Rosa/FramePhoto

O presidente Michel Temer afirmou nesta sexta-feira (7) que não existe crise econômica no Brasil.

"Crise econômica no Brasil não existe. Vocês têm visto os últimos dados. Pode levantar os dados e você verá que estamos crescendo no emprego, estamos crescendo na indústria, estamos crescendo no agronegócio. Lá não existe crise econômica", afirmou ao chegar a Hamburgo, na Alemanha, para a cúpula do G20.

Enfrentando denúncia de corrupção, Temer lança um olhar otimista para a economia. Mas será que se pode afirmar que não há crise no país?

O UOL consultou analistas para responderem a isso. Apesar de alguns indicadores apontarem estabilização, ou mesmo terem melhorado, a avaliação de economistas é que ainda é cedo para falar em fim da crise econômica.

Especialistas apontam, ainda, que o agravamento da crise política pode prejudicar os indicadores, já que a instabilidade afeta a intenção das empresas investirem.

Questionado se a crise política não atrapalharia, Temer negou com um gesto movendo o dedo indicador.

Confira como estão indicadores citados por Temer, e outros que apontam as condições econômicas atuais do Brasil.

Desemprego: desaceleração e estabilidade

Existem duas formas de medir desemprego: incluindo todos os trabalhadores, com ou sem carteira assinada, ou só considerando quem tem carteira.

Considerando todos (com e sem carteira), o desemprego no país foi de 13,3%, em média, no trimestre de março a maio, com 13,8 milhões de desempregados, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Os números não são conclusivos. Houve ligeira redução na comparação com o trimestre imediatamente anterior, mas subiu em relação ao ano passado:

Desemprego nos trimestres

  • Março a maio/17: 13,3% (13,8 milhões de desempregados)
  • Fevereiro a abril/17: 13,6% (14 milhões de desempregados)
  • Dezembro/16 a fevereiro/17: 13,2% (13,6 milhões de desempregados)
  • Março a maio/16: 11,2% (11,4 milhões de desempregados)

O número de pessoas com trabalho foi de 89,7 milhões entre março e maio, aumento de 0,34% em relação ao período de dezembro a fevereiro, ou 300 mil pessoas a mais. Em um ano, o total de trabalhadores empregados caiu 1,32%, o que equivale a cerca de 1,2 milhão de pessoas a menos.

Segundo o IBGE, essas comparações indicam estabilidade e desaceleração do desemprego, mas o instituto ainda não fala em queda. Para o coordenador de Trabalho e Rendimento do IBGE, Cimar Azeredo, ainda é cedo para interpretar os dados como positivos, porque essa estabilidade é acompanhada pela diminuição do número de trabalhadores com carteira assinada.

"A carteira de trabalho assinada vem há dois anos em um processo de queda. Foram mais de 2,7 milhões de postos de trabalho, então apesar da desaceleração da desocupação, fica claro que essas pessoas estão migrando para a informalidade [trabalho sem carteira]", afirmou Cimar Azeredo.

Menos trabalhadores com carteira assinada

Considerando só os trabalhadores com carteira assinada, houve uma redução. O número de empregados nessa situação foi de 33,3 milhões no trimestre de março a maio, com 479 mil pessoas a menos na comparação com trimestre de dezembro a fevereiro, de acordo com o IBGE. Em relação ao mesmo trimestre do ano passado, a redução foi de 1,2 milhão de pessoas com carteira assinada.

"O que significa carteira de trabalho? Significa fundo de garantia, plano de saúde, auxílio alimentação, seguro desemprego", disse Cimar Azeredo. "Você tem hoje 500 mil trabalhadores de um trimestre para outro a menos tendo esses direitos."

Além do IBGE, o Ministério do Trabalho registra o número de trabalhadores com carteira assinada, usando dados do Caged (Cadastro Geral de empregados e Desempregados).

Em 2017, até maio, o Brasil abriu 48,5 mil vagas de trabalho com carteira. Nos 12 meses até maio, porém, foram fechadas 853,7 mil vagas.

Indústria: produção cresce, mas confiança cai

A produção industrial em maio cresceu 0,8%. Foi o segundo mês consecutivo de alta e o melhor desempenho para o mês desde 2011, segundo o IBGE.

Além disso, a alta foi registrada em diferentes atividades econômicas. Ainda assim, os economistas são cautelosos e evitam cravar que a indústria saiu da crise.

"É claro que, com dois meses seguidos de crescimento e com espalhamento pelas atividades, dá um alívio, mas o resultado está longe de garantir que seja uma trajetória de crescimento sustentável para o setor industrial", disse o coordenador da pesquisa industrial do IBGE, André Macedo.

Influenciado pela crise política e as delações de executivos da JBS, o Índice de Confiança Empresarial (ICE) recuou 2,1 pontos em junho, para 83,9 pontos, segundo a Fundação Getulio Vargas (FGV/IBRE). É o menor patamar do indicador desde fevereiro.

"A queda de junho interrompe uma sequência de cinco altas consecutivas do ICE, com um resultado influenciado pelo aprofundamento da crise política após 17 de maio. Caso essa tendência de queda da confiança não seja revertida, o mau humor se refletirá no dia a dia das empresas, levando, por exemplo, a revisões de contratações anteriormente planejadas ou postergações de investimentos, tornando ainda mais lenta a recuperação da economia", afirmou Aloisio Campelo Jr., superintendente de Estatísticas Públicas do FGV/IBRE.

Agronegócio: crescimento após safra recorde

O setor agropecuário cresceu 13,4% no primeiro trimestre deste ano, em comparação com o trimestre anterior, com safra recorde de soja e milho. Na comparação com o primeiro trimestre do ano passado, a alta foi de 15,2%.

O bom desempenho da agricultura puxou a alta de 1% do PIB (Produto Interno Bruto) no trimestre, em comparação ao anterior, após oito períodos seguidos de queda.

Carlos Alfredo Guedes, gerente do Levantamento Sistemático da Produção Agrícola do IBGE, afirma que a safra recorde do milho foi consequência do preço alto e das chuvas.

"A estiagem em 2016 levou a uma colheita menor, o que elevou o preço do produto. Isso incentivou os agricultores a plantarem mais neste ano. Já em 2017 as chuvas mantiveram um ritmo constante, o que aumentou a produtividade por hectare", afirmou.

PIB: previsão de crescimento baixo

O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, prevê para este ano crescimento da economia em 0,5%. Economistas consultados pelo Banco Central são mais cautelosos e mantêm as estimativas de crescimento do PIB em 0,39%.

Para a pesquisadora do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da FGV, Silvia Matos, a crise política afeta a economia, que pode até se retrair, se descontado o agronegócio, segundo ela.

"Temos 0,2% (de previsão para o PIB) para este ano, mas, excluindo o agronegócio, pode ficar negativo em 0,3%. Esse era um ano de transição, não de recuperação, de colocar todas as variáveis no lugar certo. A economia não vai reagir, ao contrário, pode sofrer mais ainda do que estava precificado", afirmou em entrevista ao jornal "O Estado de S. Paulo".

Inflação: taxa foi negativa

O IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), que mede a inflação oficial no país, foi negativo em 0,23% em junho, a taxa mensal mais baixa em 19 anos, desde agosto de 1998 (-0,51%). Considerando apenas os meses de junho, nunca houve uma taxa tão baixa desde o início do Plano Real, em 1994.

Com o resultado, o país registra a primeira deflação (queda dos preços) mensal em 11 anos, desde junho de 2006 (-0,21%).

A queda nos preços é resultado de um conjunto de fatores.

O desemprego provoca diminuição do consumo. Mesmo quem está empregado acaba comprando menos porque a renda caiu ou por medo de perder o emprego. A procura menor por produtos, assim, ajuda a segurar a inflação.

Além da crise econômica, a inflação é afetada pelo corte na taxa básica de juros (Selic). Na última reunião do Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central, no final de maio, o comitê decidiu cortar a Selic pela sexta vez seguida. A taxa caiu 1 ponto percentual, para 10,25% ano.

Serviços: queda acumulada no ano

Em abril, o volume de serviços prestados cresceu 1% na comparação com o mês anterior (na série com ajuste sazonal), após queda de 2,6% em março e crescimento de 0,2% em fevereiro, de acordo com o IBGE.

O setor de serviços inclui gastos como transporte, cabeleireiro, manicure e conserto de carro.

Na série sem ajuste sazonal, o setor caiu 5,6%, no confronto com abril de 2016. Foi a maior para o mês de abril. O setor vem apresentando perda em todos os meses desde janeiro de 2015, com exceção de março de 2015, quando houve crescimento de 2,3%.

Com esses resultados, a taxa acumulada no ano ficou em -4,9% e, em 12 meses, -5%.

"No contexto da crise, o setor de serviços é o último a entrar, mas também é o último a sair", afirmou Roberto Saldanha, gerente da Pesquisa Mensal de Serviços. "O acumulado em 12 meses é importante para avaliar se está havendo recuperação ou não. A recuperação do setor vai depender da redução dessa taxa acumulada".

Comércio: ainda em queda, mas menos intensa

No primeiro semestre, o movimento no comércio varejista apresentou nova queda, segundo Indicador Serasa Experian de Atividade do Comércio.

A queda, porém, foi bem menos intensa do que a registrada em igual período do ano passado.

Conforme o índice, o movimento dos consumidores nas lojas caiu 1,5% na comparação com os seis primeiros meses de 2016, quando perdeu 8,3%.

"A retração da atividade varejista no primeiro semestre de 2017 é explicada pelo elevado desemprego no país e pelos juros ainda altos dos crediários", avaliaram, em nota, os economistas da Serasa.

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