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ONG empresta dinheiro com juro baixo a quem nem 'passa da porta do banco'

Téo Takar

Colaboração para o UOL, em São Paulo

  • Téo Takar

    Maria Quitéria Barbosa Inácio, agente de crédito da Credipaz, com Titico em sua quitanda

    Maria Quitéria Barbosa Inácio, agente de crédito da Credipaz, com Titico em sua quitanda

Um grupo de senhoras vestindo coletes verdes caminha por um beco da favela do Sapé, na região do Rio Pequeno, zona oeste de São Paulo. Na mão, carregam um maço de folhetos, nos quais se lê "Empréstimo Solidário". Os papéis são enfiados por baixo das portas dos barracos e entregues a quem passa pela viela. Do alto de um sobrado, dois rapazes observam toda a movimentação com cara de poucos amigos.

Depois de alguns minutos, três moças, uma delas com um bebê de três meses no colo, se aproximam do grupo vestido de verde e vão logo perguntando: "Vocês são agiotas? Essa prestação que tá aqui no papel é só o juro, né?" As perguntas se repetem poucos barracos adiante.

"Infelizmente, essas pessoas estão acostumadas a serem exploradas. Por isso, elas nos confundem tanto com os agiotas. Temos que explicar que viemos aqui para fazer o bem, para ajudá-las a melhorar a própria vida", diz Lorian von Fürstenberg, fundadora e presidente do Instituto Credipaz. A ONG oferece microcrédito para pessoas em situação de pobreza extrema que desejam empreender.

Emprestar para quem os bancos não querem

Favelados, desempregados, mães solteiras, ex-presidiários, ex-drogados. Todos com vontade de abrir o próprio negócio, trabalhar e começar uma vida nova. Esse é o público-alvo da Credipaz.

"São pessoas que nunca conseguiriam passar da porta do banco. Não têm comprovante de residência nem comprovante de renda, estão com o nome sujo na praça ou possuem um comércio informal", diz Aparecida Botassini, gerente operacional da Credipaz.

Por meio dos folhetos e do boca a boca, a ONG convida pessoas carentes que querem abrir um negócio a participarem das reuniões que a entidade promove em várias regiões da cidade.

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Folheto é colocado por baixo das portas dos barracos e entregue a quem passa

Nos encontros, as agentes de crédito explicam o conceito do empréstimo solidário, quais são as exigências para receber o dinheiro e o valor das prestações a pagar.

ONG estimula formação de grupos de apoio mútuo

A Credipaz não libera empréstimos individuais. Os contratos de microcrédito são feitos sempre em grupos de quatro a seis pessoas. As reuniões servem justamente para promover a formação desses grupos.

"Podem ser amigos, vizinhos, pessoas com algum tipo de afinidade ou que acabaram de se conhecer na reunião. A ideia é que os integrantes ajudem uns aos outros. Se um deles tiver alguma dificuldade e não conseguir pagar uma parcela, os outros se juntam e pagam. E depois eles se acertam. Esse é o conceito do empréstimo solidário", diz Lorian.

Para minimizar o risco de calote, a Credipaz não permite que os grupos sejam formados por membros da mesma família nem por pessoas que trabalhem juntas. "Eu posso formar um grupo com quatro cabeleireiras, mas elas têm que trabalhar em salões diferentes, porque, se um dos salões não for bem, as outras integrantes do grupo têm condições de ajudar. Mas se todas estiverem no mesmo salão, aí não tem como", diz Aparecida.

Empréstimos começam em R$ 300 com juros de 1,92% ao mês

Depois de formado o grupo, cada integrante pode pegar um empréstimo inicial de R$ 300. Os pagamentos são feitos semanalmente. O grupo escolhe se quer pagar em 8, 12 ou até 20 semanas (cinco meses).

"Percebemos que as pessoas têm dificuldade de guardar o dinheiro quando o pagamento é mensal. Para elas, é mais fácil juntar e pagar um pouquinho toda semana", afirma Nancy Capriotti Cavaglierti, gerente financeira da Credipaz.

Definido o número de parcelas, o líder do grupo recebe os boletos, que podem ser pagos em qualquer agência bancária ou lotérica. "O boleto não é individual, mas por grupo. Cada semana, o grupo tem que pagar um boleto. O grupo tem que se organizar. Normalmente, o líder do grupo fica responsável por juntar o dinheiro dos colegas e fazer o pagamento toda semana. Alguns grupos preferem adotar um esquema de rodízio: cada um paga um boleto por semana", diz Nancy.

A Credipaz cobra juros de 1,92% ao mês --a taxa média praticada por financeiras especializadas nesse tipo de crédito pessoal é de 7,8% ao mês.

"A pessoa que pega o primeiro empréstimo de R$ 300 por oito semanas vai pagar, ao todo, R$ 6 de juros. É quase um valor simbólico. Não cobre o gasto que a ONG tem com a passagem de ônibus ida e volta (R$ 7,60) da agente de crédito que vai à casa da pessoa tirar as fotos para registrar o trabalho", afirma.

Empréstimo pode ser ampliado até atingir R$ 2.000

Se a pessoa pagar as prestações corretamente, pode pegar um novo empréstimo, de R$ 500, e parcelar em até 20 semanas. "Cada vez que o associado conclui um ciclo de pagamentos, ele pode pegar um empréstimo R$ 200 maior. Começa, com R$ 300, depois R$ 500, R$ 700, até chegar ao teto, que é R$ 2.000", diz Aparecida, gerente operacional da Credipaz.

O empréstimo de R$ 2.000 pode ser dividido em até 30 semanas (7 meses e meio) e renovado quantas vezes o associado quiser, desde que ele sempre pague as parcelas em dia.

Empreendedores são livres para escolher o que fazer

A Credipaz não interfere na montagem dos negócios. Cada associado --como é chamada a pessoa que pega o empréstimo-- escolhe o que quer fazer, o que precisa comprar e onde vai vender. Para ter certeza de que a pessoa está usando corretamente o dinheiro, agentes da ONG tiram fotos dos produtos e equipamentos comprados.

"Se a associada faz marmita, por exemplo, vamos até a casa dela e registramos ela cozinhando, montando as quentinhas. Se vende roupa na rua ou de porta em porta, tiramos foto dela com as peças que comprou com o empréstimo", relata Aparecida. "O dinheiro é para investir. Não é para pagar conta atrasada ou gastar com outra coisa."

A Credipaz apenas orienta os associados a buscarem a formalização tão logo estejam com seu negócio estruturado. "Explicamos a eles as vantagens de se tornarem MEI (microempreendedor individual), como o direito ao INSS e a possibilidade de ter descontos na hora de comprar mercadoria usando o CNPJ", diz a gerente operacional da ONG.

Churros para sustentar 11 filhos

Crislene Santos de Jesus, 36, diz que não vê a hora de voltar a trabalhar. Com 11 filhos para criar --o menor tem apenas três meses--, ela sabe que dificilmente conseguiria arranjar um emprego que pudesse conciliar com o papel de mãe solteira. Ela decidiu fazer churros em casa e vender na vizinhança, na comunidade do Sapé, zona oeste de São Paulo, mas faltava dinheiro para o pontapé inicial. A solução veio com o crédito de R$ 300 da Credipaz.

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Crislene Santos de Jesus e o filho de 3 meses na porta de casa

"Já comprei os ingredientes para fazer a massa. Quando eu não puder sair, meus filhos vão ajudar a vender", diz. Ela já sonha em comprar um carrinho que funciona como uma minifábrica de churros para impulsionar seu negócio. Ele custa R$ 2.800. "Com o carrinho, vou poder parar na porta das escolas e fazer os churros na hora."

Começou com uma banca, hoje tem quitanda

Francisco Eduardo Gonçalves de Oliveira, o Titico, 45, foi um dos primeiros associados da Credipaz. Há sete anos, ele pegou um crédito de R$ 300 para aumentar a quantidade de frutas e verduras que vendia em uma banca montada na entrada da comunidade do Sapé. "Eu vendia umas 20 caixas por semana. Peguei o dinheiro, fui ao Ceasa e comprei mais."

Hoje, Titico movimenta 50 caixas por semana. Além da banca, abriu uma quitanda na mesma comunidade, que também funciona como açougue. Com os empréstimos, comprou uma Kombi para fazer entregas em outros bairros. "Titico é um dos nossos associados 'top'", diz Lorian, presidente da Credipaz. "Ele pega R$ 2.000 e consegue pagar em oito semanas."

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Titico e a Kombi comprada com a ajuda da Credipaz

Titico conta que usa o dinheiro como capital de giro do seu comércio. Ele faz parte do grupo "Fruticarne", formado por comerciantes que já se consolidaram na região.

"Tem o Osmar, que vende frutas e legumes também, o Roger, que tem uma Casa do Norte (loja de produtos nordestinos), e o Paulo, dono de um restaurante. É um grupo bom. Quando um fica apertado, os outros ajudam. A gente 'desenrola'."

Titico perdeu a mulher recentemente e agora cuida sozinho dos dois filhos, Maria Eduarda, 3, e Pedro, de um ano e três meses. "Tá sendo muito difícil, mas eu tô me virando. Só não posso parar."

ONG já emprestou mais de R$ 6 milhões

A Credipaz conta hoje com um capital de cerca de R$ 500 mil para microcrédito, o que permite emprestar para cerca de 1.500 associados, beneficiando indiretamente (incluindo também os familiares) quase 10 mil pessoas. Desde sua fundação, em 2009, a entidade já gerou mais de R$ 6 milhões em operações de microcrédito, ajudando quase 3.000 pessoas diretamente e 18 mil indiretamente.

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Comunidade do Sapé fica na zona oeste de São Paulo

A entidade está presente em 69 comunidades, como Brasilândia e Cachoeirinha (zona norte), Capão Redondo e Jardim Ângela (zona sul), Brás (centro), Cidade Tiradentes e Guaianases (zona leste), Jardim Arpoador e Jaguaré (zona oeste), Carapicuíba e Itapevi (Grande São Paulo). "Recentemente, começamos a ajudar também refugiados de países como Haiti, Paquistão e Congo em parceria com a Cáritas", diz Aparecida.

A taxa de inadimplência gira hoje na casa dos 7%. "Historicamente, a média foi sempre entre 4% e 5%, mas notamos uma piora neste ano por causa da crise", diz Nancy, gerente financeira da ONG. Em geral, os casos de inadimplência são causados por alguma dificuldade do associado.

"São raros os casos de má-fé. Normalmente, são pessoas que ficaram doentes e tiveram que parar de trabalhar. Logo que a gente nota que uma pessoa do grupo não está pagando, um agente da ONG vai até a casa dela ver o que está acontecendo. Dependendo da situação, damos um prazo maior para pagar e uma ajuda assistencial, como uma cesta básica, até a pessoa se recuperar", diz a fundadora e presidente da Credipaz.

Sem vínculos religiosos, partidários ou ideológicos

As reuniões da Credipaz acontecem normalmente em salões e espaços cedidos por igrejas católicas. A própria sede da Credipaz fica em uma sala da Paróquia de São Patrício, no Rio Pequeno, zona oeste de São Paulo. "Apesar do apoio da Igreja Católica, não temos nenhum vínculo com igrejas, partidos políticos, prefeituras nem com outras entidades", afirma Lorian, presidente da ONG.

"Quase 70% das pessoas que nós ajudamos são evangélicas. A única coisa que pregamos nas reuniões é a solidariedade."

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Folheto traz informações de contato da ONG, além de horário e local das reuniões

Inspiração surgiu a partir de prêmio Nobel

A inspiração para criar o Instituto Credipaz veio do livro "O banqueiro dos pobres" (Editora Ática), escrito por Muhammad Yunus, ganhador do Prêmio Nobel da Paz em 2006, considerado o "pai" do microcrédito. "Esse livro caiu na minha mão como uma bênção de Deus", afirma Lorian. Ela se encantou pelo projeto de Yunus, que fundou em 1976 o banco Grameen, para ajudar a população mais carente de Bangladesh, seu país de origem.

Cerca de 97% dos clientes são mulheres, muitas mães solteiras. O Grameen foi a primeira instituição financeira do mundo especializada em microcrédito para os pobres. Ao longo de 41 anos, o banco já emprestou recursos para quase 9 milhões de pessoas e gerou mais de US$ 22 bilhões em operações de microcrédito, obtendo lucro em quase todos os anos de sua história, com uma taxa média de inadimplência de apenas 1%.

Depois de ler o livro, em 2008, Lorian decidiu conhecer pessoalmente Yunus e pedir orientação sobre como adaptar o modelo para o Brasil. A resposta foi simples e objetiva: "Vai lá e faz!". O resto das recomendações já estava no livro.

Arquivo pessoal
Lorian von Fürstenberg, do Instituto Credipaz, e Muhammad Yunus

Integrante de uma das famílias mais tradicionais de São Paulo --Lorian é bisneta do conde Francisco Matarazzo, um dos maiores empresários do país, falecido em 1937--, a presidente do Instituto Credipaz herdou da mãe, condessa Graziella Matarazzo Leonetti, a disposição de ajudar os mais necessitados. Desde pequena, ela está acostumada a ver sua mãe entregar cestas básicas na Paróquia de São Francisco de Assis, na Vila São Francisco, zona oeste de São Paulo.

"Minha mãe sempre foi assistencialista. Até hoje ela distribui as cestas e dá dinheiro para quem está em uma situação mais complicada. Eu assistia a aquilo tudo, mas sentia uma agonia ao ver que as pessoas voltavam depois de algum tempo com a mesma cara triste. Foi aí que eu percebi que precisava ajudá-las de uma forma diferente", afirma Lorian. "Hoje, eu vejo os rostos se transformarem com a Credipaz. As pessoas fazem acontecer e ficam felizes com o próprio esforço. E o dinheiro volta para a ONG ajudar mais gente."

Ela conta ainda que chegou a trabalhar na Febem (atual Fundação Casa, órgão estadual responsável por abrigar menores infratores) nos anos 1980 e que decidiu se formar em Direito com um objetivo muito claro. "Eu queria trabalhar com adoções. Mas, depois de algum tempo, percebi que era muito difícil conseguir (realizar uma adoção). Tudo dependia da decisão do juiz."

ONG depende de doações para ampliar microcrédito

Todo o dinheiro movimentado pela Credipaz é fruto de doações levantadas em jantares beneficentes e bazares promovidos por Lorian e pelas conselheiras da entidade: Maria Zilda Araujo, Andrea Doria, Ana Lucia Comolatti e Rosa Macedo Foz.

A ONG também conta com apoio de alguns membros beneméritos, como Lázaro Brandão, presidente do Conselho de Administração do Bradesco. "Ele ajuda diretamente a Credipaz, e o Bradesco concede isenção de tarifas para emissão dos boletos", afirma Lorian. "O banco não interfere no trabalho da ONG. Seguimos a nossa metodologia de concessão de crédito."

Os juros cobrados nos empréstimos da Credipaz, de 1,92% ao mês, não são suficientes para cobrir os custos fixos da ONG, de cerca de R$ 25 mil mensais. Os gastos principais são a folha de pagamento de sete funcionários e despesas operacionais, como papel para imprimir os contratos de empréstimo e boletos, além dos deslocamentos das agentes para fazer as reuniões e tirar fotos dos empreendimentos. A entidade não tem gastos com aluguel porque utiliza espaços cedidos pela Igreja Católica.

Para conseguir se tornar autossustentável, a ONG precisaria ganhar escala. "Um especialista fez um estudo para nós, indicando que precisaríamos chegar a 12 mil associados para conseguirmos cobrir os gastos com a taxa de juros que praticamos", diz Lorian.

"Temos um grupo de filantropos que nos ajudam sempre e muito, mas chegamos a um limite. Para conseguir crescer e ajudar mais gente, a Credipaz precisa do apoio de mais pessoas e, principalmente, das empresas. Estamos em busca de doadores, que possam contribuir mensalmente."

O Instituto Credipaz planeja abrir uma unidade em Recife (PE). "Recebemos convite para levar nosso trabalho para Recife. A Obra de Maria vai nos ceder o espaço. Só que precisamos de mais doações para conseguir oferecer microcrédito para as comunidades de lá", diz Lorian.

Mais informações: www.credipaz.org.br

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