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Empreendedor negro tem crédito negado 3 vezes mais do que branco no Brasil

Márcia Rodrigues

Colaboração para o UOL, em São Paulo

  • AfricaImages/iStock

Empresários negros têm o seu pedido de crédito negado três vezes mais do que os brancos no Brasil. A afirmação é de Eugene Cornelius Junior, chefe do escritório de comércio internacional da SBA (Small Business Administration), agência do governo dos Estados Unidos que oferece serviços de apoio à pequena e média empresa semelhantes ao Sebrae.

Cornelius Junior esteve no Brasil para participar do evento "Desvendando os Códigos do Afro-Empreendedorismo", promovido pelo Instituto Feira Preta e Black Codes, em parceria com o Consulado Americano, em São Paulo, e o Cubo Eventos. Segundo ele, a diferença de tratamento entre empresários brancos e negros, quando o assunto é acesso ao crédito, é mais real do que imaginamos. 

"O fato de eles não ocuparem posições de gerenciamento e cargos executivos atrapalha a sua capacidade de crescer profissionalmente, e, no mundo dos negócios, de ter acesso ao crédito."

Divulgação

O executivo americano também diz que, ao não oferecer crédito para uma fatia importante da sociedade brasileira, já que os negros representam 54% da população, o Brasil prejudica a sua própria economia.

"Eles são a maioria da população, se não têm de quem emprestar o dinheiro dentro da família ou de amigos, na maioria das vezes eles não têm capital para iniciar ou expandir o seu negócio. Isso impacta diretamente e de forma negativa no PIB [Produto Interno Bruto]."

Para ele, os setores público e privado deveriam fazer várias ações para promover o empreendedorismo e o acesso ao capital pelos negros.

"É possível criar programas de desenvolvimento, ver quais as forças de trabalho necessárias para viabilizar novos negócios, o que é preciso para produzir mais, gerar mais empregos e oportunidades para a população. Isso refletiria de forma positiva no Brasil como um todo e não, apenas, para os afrodescendentes."

Negros devem ocupar mais cargos de liderança

Cornelius Junior afirma, porém, que antes de iniciar qualquer uma dessas medidas, é preciso aumentar a confiança da população negra sobre a sua capacidade.

"A confiança da população afrodescendente  deve ser desenvolvida. É preciso que mais negros ocupem posições-chave, cargos que tomem decisões e que são responsáveis por colocar em prática essas políticas para que eles saibam que estão sendo representados e que são bem-vindos."

O executivo diz que a discriminação racial não é um problema exclusivamente brasileiro.

"O que torna o seu impacto mais profundo no Brasil é a proporção da população negra. Se considerarmos que apenas 13% da população dos EUA é afrodescendente, e, no Brasil, esse número salta para 54%, o fato de eles não ocuparem cargos executivos é mais representativo."

Ele declara, também, que não acredita que o racismo sofrido pelos empreendedores negros brasileiros seja deliberado, mas sim inconsciente.

"A discriminação racial foi herdada, e quando há falta de negros ocupando cargos de liderança, estamos criando estereótipos. Dá para perceber que, nos últimos dois anos, o Brasil tem mudado, e o país tem uma oportunidade de ouro para reverter esse quadro e permitir que a mudança seja feita de forma mais agressiva."

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Desde o ano passado, o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) promove, no Brasil, o Inova Capital -Programa de Apoio aos Empreendedores Afro-Brasileiros- com o objetivo de identificar empreendedores negros com ideias inovadoras, negócios de alto potencial de crescimento e com impacto social e ambiental, preparar os afro-empreendedores para receber investimento e apresentar seus negócios a investidores.

Segundo Cornelius Junior, a iniciativa é importante, no caso do Brasil, devido à falta de apoio que a comunidade negra recebe.

"Ele tem de superar um ambiente que não dá as boas-vindas para ele. É uma batalha que nem todo mundo deveria ter de lutar. Se houver uma visão, uma vontade de mudar este cenário, teremos mais pessoas bem-sucedidas."

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