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Magalu e dona da Casas Bahia podem falir de tanto cair? Qual o risco?

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Lílian Cunha

Colaboração para o UOL, em São Paulo

15/07/2022 12h02

No setor de comércio de eletrodomésticos, falir não é exceção. Já aconteceu com nomes que foram consagrados um dia: Arapuã, Jumbo-Eletro, G. Aronson e, recentemente a Ricardo Eletro, que está com processo de recuperação judicial suspenso.

Recentemente, o megainvestidor Luiz Barsi disse em uma entrevista que acredita que as varejistas tendem a falir por causa dos efeitos da inflação. Ele é o maior investidor individual da Bolsa no Brasil.

Em relação às empresas de agora, se você começar a analisar o histórico de suas ações, um frio pode subir pela espinha: Magazine Luíza (MGLU3), por exemplo, acumula nos últimos 12 meses uma queda de quase 90%. E se desvalorizar ainda mais? A empresa pode falir?

Esses questionamentos também valem para outras companhias do setor, como a Via (VIIA3), dona das Casas Bahia e do Ponto. De julho de 2021 para cá, a empresa perdeu metade do valor na Bolsa de Valores.

"O risco de falir sempre existe, para todas", diz Wagner Varejão, especialista da Valor Investimentos.

Qual é o desafio do setor? Ele explica que são comuns os casos de falência nesse setor por conta de uma equação simples: as empresas compram dos fornecedores e têm um prazo para pagá-los. Mas vendem para o consumidor por um número de parcelas bem maior.

O Magazine Luíza, por exemplo, divide as compras em até 24 vezes. "Isso é da natureza do negócio. Então a companhia precisa ter uma gestão de caixa muito boa para não ficar com uma dívida muito maior do que o capital. É assim que a história de falências vem se repetindo", afirma Rafael Ragazi, sócio e analista de ações da Nord Research.

Magalu e Via têm esse problema? No caso do Magazine Luíza, a rede tem um caixa que corresponde a quatro vezes seu endividamento de curto prazo, ou seja, que precisa ser pago em 12 meses.

Via está um pouco menos confortável: ela tem R$ 1,3 bilhão em caixa e uma dívida a vencer no curto prazo de R$ 1,4 bilhão, sendo que R$ 896 milhões venceram agora no segundo trimestre. Para resolver essa conta a empresa está fazendo uma emissão de debêntures, assim, parte da dívida de curto prazo passa para o longo prazo. Além disso, ela também tem R$ 3,9 bilhões em recebíveis de cartão de crédito, que podem ser descontados se necessário.

E por que as ações estão caindo tanto? Por que as empresas estão tendo que queimar mais caixa para conseguir vender. Elas competiam com empresas locais apenas. Mas agora têm AliExpress, Shopee e Amazon mordendo seus calcanhares. Essas varejistas anunciam fortemente e vendem a preços baixos.

Para concorrer, Magalu e Via precisam investir em marketing também. Então, o custo de aquisição de clientes vai às alturas num ambiente de juros altos e inflação roendo o bolso do consumidor. "Chega um momento em que o capital próprio acaba e vem o endividamento. Isso eleva o risco do negócio", diz Ragazi.

Então essas empresas vão falir? "É meio exagerado dizer isso, pelo menos para Via, Magazine Luiza e Americanas (AMER3)", diz o analista da Nord. Isso porque, segundo Varejão, a queda das ações agora acontece mais por uma questão de cenário ruim do que de contas mal feitas pelas empresas. "Magalu principalmente teve uma alta muito exagerada e o mercado descontou isso dela. Agora, a baixa se justifica por que ninguém esta comprando a crédito e a companhia depende de vendas parceladas", afirma.

Ação pode chegar a zero? Como esse cenário de juros altos tende a durar mais tempo, o que acontece se a ação do Magalu, que hoje custa em torno de R$ 2,90, cair mais? Ela pode chegar a valer zero? Sim. É o chamado piso matemático. Quando isso acontece, porém, não quer dizer que a empresa não vale mais nada e que ela vai falir. "O valor real da empresa é muito maior", diz Varejão. Mas os investidores ficam no prejuízo.

A chance de isso acontecer, embora exista, não é grande, diz o analista da Valor Investimentos. "Quando Magazine Luíza subiu horrores, até 2021, o mercado estava apostando numa promessa de lucro muito distante. Não era para ter andado tanto nesse campo", afirma ele. De 2016 até o fim de 2020, MGLU3 valorizou 7.084,62%. O que acontece agora é mais uma correção dessa alta de quando os juros estavam na casa dos 2%.

Outra questão é até quando vai durar esse ambiente de competição ferrenha com os rivais internacionais. "Antes desse ambiente de recessão mundial, os investidores de fora não tinham onde por seu dinheiro a não ser nessas empresas, por que viviam em economias estáveis, com juros negativos até; o dinheiro não rendia nada", explica Ragazi. Mas agora, com vários países subindo os juros, esse investidor que financiava os preços baixos e as campanhas de marketing milionárias de Shopee e AliExpress tem uma alternativa mais segura. "Ele vai continuar financiando essas companhias?", diz Varejão.

Novo Auxílio impulsiona ações O varejo também deve ser beneficiado pelo pacote de auxílio social aprovado pelo governo esta semana, a PEC dos Auxílios. Dos R$ 41,2 bilhões liberados, espera-se que R$ 16,3 bilhões sejam gastos em compras. Mais de R$ 5 bilhões podem ficar com supermercados, outros R$ 2,3 bilhões com lojas de roupas e calçados e R$ 1,4 com móveis e eletrodomésticos. A estimativa é da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo.

Este material é exclusivamente informativo, e não recomendação de investimento. Aplicações de risco estão sujeitas a perdas. Rentabilidade do passado não garante rentabilidade futura.