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Em seis pontos: o que é a taxa de juros Selic e como negociar sua dívida

Laís Alegretti

Da BBC News Brasil, em Londres

31/07/2019 14h55Atualizada em 31/07/2019 20h12

A cada período de aproximadamente 45 dias, o presidente do Banco Central e os diretores da instituição se reúnem para decidir se vão aumentar, diminuir ou manter a taxa básica de juros da economia, a Selic.

Essa reunião do Comitê de Política Monetária, o Copom, atrai tanta atenção porque a decisão sobre a Selic tem impacto em muitos aspectos da economia.

Nesta quarta-feira (31), o Copom anunciou a redução da Selic de 6,5% para 6% ao ano. É a primeira alteração na taxa desde março de 2018 e também o menor patamar da série histórica.

A definição da taxa básica de juros interfere na inflação --e, portanto, nos preços que os consumidores pagam no dia a dia.

Além disso, embora as taxas de juros de empréstimos e financiamentos sejam muito maiores que a Selic, ela é a base para todas as outras taxas de juros do mercado.

Em 6 perguntas, a BBC News Brasil explica como funciona essa decisão do Banco Central sobre a Selic e como ela afeta, no fim das contas, o que os bancos cobram nos empréstimos para as empresas e pessoas físicas.

Também traz dicas sobre como evitar taxas mais altas na hora de pegar um empréstimo, fugir de golpes e negociar dívidas já contraídas.

1 - Como é definida a Selic?

O número que serve como referência para todas as taxas de juros do mercado é definido pelo Copom, grupo composto pela direção do Banco Central. Eles se reúnem para definir o caminho da Selic --sigla para Sistema Especial de Liquidação e de Custódia.

As reuniões começam em um dia e são concluídas no dia seguinte --normalmente, às terças e quartas-feiras. Nesse encontro, eles avaliam as condições da economia brasileira e o cenário internacional.

Henrique Meirelles, que foi presidente do Banco Central durante oito anos, de 2003 e 2011, conta como funciona o encontro:

"Naquele período, todos os membros do Copom estudavam suas anotações, os dados, as informações fornecidas pelas áreas técnicas e de pesquisa do Banco Central, e não conversavam entre si, porque as decisões têm de ser independentes. No final do processo, no momento da reunião, o diretor de política econômica faz uma análise geral e dá seu voto. Em seguida, cada diretor, de forma independente, faz sua análise, dá seu voto, inclusive o presidente, que tem o voto de desempate", disse à BBC News Brasil.

Quando termina o encontro, o Banco Central comunica de forma breve se o Copom decidiu aumentar, manter ou reduzir a Selic. Na semana seguinte, o órgão divulga a ata da reunião.

É nesse texto que eles explicam os motivos da decisão. Os economistas analisam cuidadosamente cada termo escolhido pelo Banco Central para formular o documento --e também o Relatório de Inflação, divulgado a cada três meses.

Eles tentam identificar nas entrelinhas os sinais do que o Banco Central está prevendo para a economia nos próximos meses e tentam antecipar o que deve acontecer com a Selic nas reuniões seguintes.

Assim, investidores tentam prever os juros na economia e apostar onde acreditam que vão conseguir os maiores rendimentos.

2 - Qual é o objetivo do Banco Central quando mexe na taxa de juros?

A Selic é o principal instrumento de política monetária usado pelo Banco Central para controlar a inflação.

Quando a taxa sobe, os juros cobrados em financiamentos, empréstimos e no cartão ficam mais altos e isso desestimula o consumo --o que, por sua vez, estimula uma queda na inflação.

Por outro lado, se a inflação está baixa e o Banco Central reduz os juros, isso barateia os empréstimos e estimula o consumo.

"Quando o país começa a crescer em um ritmo acima da capacidade normal, equilibrada, do país, isso leva as companhias a subirem os preços, porque a demanda por produtos e serviços está acima da capacidade de produção. Então, é importante o Banco Central subir um pouco a taxa de juros, para diminuir um pouco a demanda por bens e serviços e isso ajustar a economia e a inflação na meta", explica Meirelles.

"E vice-versa: quando a demanda está muito baixa, abaixo da capacidade do país, então a inflação tende a cair e, nesse caso, o Banco Central deve baixar a taxa de juros para que a atividade econômica se recupere e a inflação volte à meta."

Para definir o que fazer com a Selic, o Banco Central avalia as condições da inflação, da atividade econômica, das contas públicas e o cenário externo --sempre com o objetivo de manter a inflação dentro da meta.

3 - O que é a meta de inflação?

O regime de metas de inflação, o câmbio flutuante e a meta fiscal compõem o chamado "tripé macroeconômico", anunciado em 1999 como a nova estrutura da política econômica brasileira. Isso depois de o Brasil ter superado, após o Plano Real (1994), um período traumático de hiperinflação, que chegou a superar 80% ao mês.

A meta de inflação é definida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). Do jeito que funciona hoje, ele define em junho a meta para a inflação de três anos à frente. Em 2018, foi definida a meta para 2021.

A ideia é que uma inflação previsível, estável e baixa pode ajudar a economia a crescer mais, reduzindo as incertezas. A meta de inflação para 2019 é de 4,25%, com um intervalo de tolerância que vai de 2,75% a 5,75%. Para 2020, a meta é de 4%.

4 - Como está a taxa básica de juros no Brasil?

Na maior parte de 2018 e em todo o primeiro semestre de 2019, a Selic ficou em 6,5% ao ano, menor patamar da taxa até então.

Economistas de diferentes vertentes têm avaliações variadas sobre o nível da taxa de juros. Dependendo da situação, alguns defendem uma política expansionista --ou seja, a redução dos juros para expandir o consumo e estimular a economia. Outro defendem política contracionista: o aumento das taxas de juros para segurar o consumo e a inflação.

Embora normalmente seja falado que o Copom define a taxa Selic, o que é definido, na verdade, é uma meta para a taxa.

Os próprios bancos usam essa taxa como referência para emprestar dinheiro um para o outro. Ao fim de cada dia, dependendo do movimento de saques e depósitos, um banco pode precisar pegar um empréstimo até o dia seguinte com outro, só para fechar as contas.

São operações que têm os títulos públicos como garantia e, por isso, têm as menores taxa de juros.

5 - Como encontrar a melhor taxa de juros?

A Selic é só uma base para as outras taxas de juros cobradas, que são muito maiores.

Quando alguém pega um empréstimo com o banco, a taxa cobrada inclui outros itens, como a taxa de inadimplência, os custos de administração do banco, os chamados depósitos compulsórios (uma reserva que fica no Banco Central) e, claro, o lucro.

A assessora financeira Daniela Casabona, sócia-diretora da FB Wealth, diz que, antes de qualquer coisa, a dica é se planejar para gastar dentro do que você ganha e evitar precisar de dinheiro do banco. Mas, se em algum momento precisar de um empréstimo, deve pensar sempre em fugir do cheque especial e do rotativo do cartão de crédito.

Os dados do Banco Central mostram que, em junho de 2019, as taxas médias de juros do cheque especial e do rotativo do cartão de crédito ficaram em mais de 300% ao ano.

Ao mesmo tempo, a média dos juros cobrados nos empréstimos do banco a pessoas físicas ficou em 53,2%.

Para você ter uma ideia, como calcular os juros de 300% ao ano? Se você precisar usar R$ 1.000 no cheque especial, doze meses depois você vai dever mais R$ 3.000, além dos R$ 1.000 que pegou emprestado.

Uma modalidade que costuma ter taxas menos desfavoráveis é o crédito consignado, que é aquele empréstimo vinculado ao salário ou à aposentadoria. Antes de você receber seus vencimentos, o banco já desconta a parcela da dívida.

Nesse caso, as taxas costumam ser menores porque o banco tem mais garantia de que você vai devolver o dinheiro.

Hoje, existe um limite fixado em lei do pedaço do seu salário que pode ser comprometido com esses empréstimos. É de 35%, sendo 5% exclusivamente para dívidas com cartão de crédito.

6 - Como negociar uma dívida já contraída?

Daniela Casabona diz que quem está endividado e não consegue pagar o que foi combinado inicialmente deve tentar renegociar essa dívida com o próprio banco.

Ela explica que o banco prefere negociar os valores a simplesmente admitir que não receberá nada. "O ideal é ir ao banco, explicar sua situação e renegociar sua dívida."

A outra dica é procurar a portabilidade do empréstimo - ou seja, ir a outros bancos tentar negociar condições melhores e, se encontrar, pedir uma transferência do seu empréstimo ou financiamento.

"Pode parecer que dá trabalho, mas no longo prazo vale a pena. É uma boa diferença", diz Casabona.

Ela também alerta para os golpes, especialmente na internet. Há casos de golpes com pessoas endividadas em que um grupo finge ter condições melhores para emprestar dinheiro, pede um valor de garantia e desaparece. Ou então simplesmente tenta pegar todos os dados financeiros da pessoa para usar no futuro.

Por isso, a dica dela é sempre procurar referência da instituição antes de pegar um empréstimo - especialmente se a proposta parecer uma coisa, assim, milagrosa.

Economia