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Governo tem que dar renda a empresas e trabalhadores parados durante crise do coronavírus, diz vice da Fiesp

"As empresas paradas não têm condições de pagar salário. E tem que dar renda para os trabalhadores desassistidos durante o período da crise", diz José Ricardo Roriz Coelho - Divulgação/Abiplast
'As empresas paradas não têm condições de pagar salário. E tem que dar renda para os trabalhadores desassistidos durante o período da crise', diz José Ricardo Roriz Coelho Imagem: Divulgação/Abiplast

Ligia Guimarães

Da BBC News Brasil, em São Paulo

26/03/2020 07h16

Já se passaram 29 dias desde que o primeiro caso do novo coronavírus foi confirmado no Brasil. Mas, até agora, em meio a medidas de distanciamento social que estão derrubando a atividade econômica em todo o mundo, as pequenas e médias empresas brasileiras que estão paradas continuam completamente desassistidas. Muitas, inclusive, não terão como pagar os salários de seus funcionários.

"As empresas paradas não têm condições de pagar salário. E os trabalhadores desassistidos, tem que dar renda para eles durante o período da crise", afirma José Ricardo Roriz Coelho, engenheiro mecânico, 2º vice-presidente da Federação das Industrias do Estado de São Paulo (Fiesp), presidente da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast) e ex-presidente da Suzano Petroquímica. "Hoje, efetivamente, do que foi anunciado pelo governo, o que uma empresa já pode fazer [na prática]? Muito pouco, quase nada."

Roriz diz que "tomou um susto" ao assistir ao pronunciamento do presidente Jair Bolsonaro, na noite de terça-feira (24), em que ele criticava as medidas de combate ao coronavírus que teriam clima de "terra arrasada", como o fechamento do comércio e de escolas. "Intempestivamente, você vê no horário nobre de televisão o presidente falar praticamente o contrário do que tem sido dito no dia a dia das pessoas", afirma.

Para o empresário, medidas de injeção de dinheiro para empresas e trabalhadores paralisados pela crise seguiriam o exemplo do que já foi adotado por lideranças de diversos países, inclusive por Donald Trump, presidente dos EUA com quem Bolsonaro tem pública e declarada afinidade. Ao defender a volta das pessoas ao trabalho mesmo com a pandemia de coronavírus, por exemplo, Bolsonaro alegou que Trump iria tomar a mesma medida.

"Qual a diferença do Brasil? A diferença é que o Trump injetou na economia US$ 2 trilhões", afirma Roriz, em referência ao plano anunciado pelo presidente americano para aliviar as consequências da pandemia do coronavírus sobre a economia do país.

Mesmo na crise, no entanto, a demanda não parou para o setor fabricante de plásticos. O empresário diz que, em tempos de alta demanda por produtos hospitalares e descartáveis, a prioridade da indústria de plástico tem sido manter a produção, mesmo com muitas medidas para proteger os funcionários. "A preocupação nossa agora não é com aumentar margem de lucro. Pelo contrário, muitas das empresas estão operando sem margem nenhuma. O importante para nós agora é suprir o fluxo de suprimento para hospitais, para as famílias que estão em casa".

Leia os principais trechos da entrevista:

BBC News Brasil - O que o senhor achou do pronunciamento do presidente sobre o coronavírus?

José Ricardo Roriz Coelho - Eu tomei um susto porque o ministério da Saúde tem feito o que eu considero um excelente trabalho de comunicação sobre o que a população deve fazer para obedecer esses protocolos de segurança, de saúde, e que, pelo que eu tenho acompanhado, está muito alinhado às recomendações da Organização Mundial da Saúde. Então você passa a tarde inteira, todo mundo em casa, tentando atender esses protocolos, e daí, intempestivamente, você vê no horário nobre de televisão o presidente falar praticamente o contrário do que tem sido dito no dia a dia das pessoas.

BBC News Brasil - O que o senhor esperava do pronunciamento?

Roriz - Eu acho que o pronunciamento tem que ser alinhado ao que está sendo dito por especialistas. Acho que é um presidente da República, para fazer um pronunciamento para a nação inteira, ele deve se basear no que é dito pelos especialistas não só da equipe dele, mas das equipes de outros países também. O susto que eu levei é: será que tudo isso que a população está escutando não é o que passa pela cabeça da principal liderança do país, que obviamente deveria ser o presidente da República? Isso gera uma preocupação muito grande, a população obviamente vai ficar confusa. Lógico que têm os que estão mais alinhados com o presidente que vão fazer uma coisa, outros com o que a OMS, com o que o mundo inteiro está fazendo. A gente vê exemplos lá fora, como Coreia do Sul, e maus exemplos, como Itália. Qual deles vamos seguir no Brasil?

BBC News Brasil - Como estão as empresas de plástico durante a crise?

Roriz - A Abiplast reúne 12,5 mil empresas no Brasil. Em um momento como esse o setor está fazendo todo tipo de produtos para saúde, como seringas, bolsa de soro, até tubo, vestimenta de médicos, descartáveis para hospitais, deliveries. A preocupação nossa agora não é com aumentar margem de lucro. Pelo contrário, muitas das empresas estão operando sem margem nenhuma. O que significa que é muito mais caro produzir em situação como essa. Tem que ter todo o cuidado com os funcionários, com o transporte e etc. E muitas dessas fábricas estão funcionando a meia carga. Seria muito mais barato parar e dar férias coletivas para todo mundo, mas estamos operando para que não faltem produtos para áreas essenciais em momentos como esse.

Coronavírus liga alerta pelo mundo

BBC News Brasil - Alguns empresários têm sido alvo de muitas críticas por declarações que defendem manter a economia funcionando, mesmo sob o risco de perder vidas. O que o senhor acha?

Roriz - A minha opinião como empresário é a seguinte. Resolvido, ou pelo menos enfrentada a questão humanitária, que fica em primeiro lugar, você tem a crise econômica que vai ter um impacto na vida das pessoas também. O desemprego, a perda de salários, a perda de renda. Agora, atendendo o que é indicado por especialistas da OMS e da área médica você evita uma concentração da contaminação em um curto espaço de tempo, onde você tem milhares de pessoas desassistidas, e você não teria leito no hospital para enfrentar essa situação. Como aconteceu na Itália.

Na minha opinião, é melhor enfrentar essa quarentena agora e mitigar um pouco a evolução desse pico. E manter em um patamar mais baixo o número de pessoas que vão precisar de atendimento hospitalar.

BBC News Brasil - O senhor concorda com essas declarações?

Roriz - Não, eu não concordo. Nós, do nosso setor, estamos produzindo esses produtos sem margem. o importante para nós agora é suprir o fluxo de suprimento para hospitais, delivery. Do ponto de vista de empresário, se tiver uma desorganização geral, as pessoas vão para a rua, vão entrar nos supermercados e fazer saques, vai ter uma desorganização bem maior do que se tivermos uma boa organização e liderança. Executivo, Judiciário, Legislativo tinham que convergir.

BBC News Brasil - Qual tem sido a preocupação dos empresários do setor?

Roriz - A prioridade número um é o pagamento de salários, justamente porque se essas pessoas que já estão confinadas não tiverem o seu salário depositados em dia, vai bater desespero e vai ter um caos na economia. E com que duração? Você não sabe quando vai controlar isso depois. Melhor ter o cuidado com a saúde, todos os protocolos que estão sendo comunicados, e as pessoas receberem os seus salários.

Agora, o que o governo precisava fazer? Tem um grupo de pessoas desassistidas e tem empresas que não estão vendendo nada. Os setores mais prejudicados não têm condição econômica de fluxo de caixa para continuar trabalhando. E o mundo inteiro está ajudando essas empresas. A diferença do Brasil - tem muita gente falando 'ah, mas o Trump fez isso lá'. A diferença é que o Trump injetou na economia US$ 2 trilhões.

BBC News Brasil - E aqui?

Roriz - Até agora, as empresas não viram nada. Imagina um salão de beleza que não pode trabalhar, não está recebendo nada, como vai fazer? Essas médias e pequenas empresas estão totalmente desassistidas.

BBC News Brasil - Qual deveria ser a prioridade do governo agora?

Roriz - Eu acho que você não pode deixar que diminua o consumo, ou seja. Você tem que ter salário para as empresas e tem que ter um programa do governo para suprir essas pessoas que estão sem emprego ou desassistidas agora, durante esse tempo elas tenham algum tipo de remuneração.

BBC News Brasil - Injetar dinheiro tanto para pessoas quanto empresas?

Roriz - Eu acho que as empresas paradas não têm condições de pagar salário. E os trabalhadores desassistidos, tem que dar renda para eles durante o período da crise. Nós ainda não estamos nem no auge da crise.

Hoje, efetivamente, do que foi anunciado, o que uma empresa já pode fazer? Muito pouco. Dizer que 'ah, mas os pagamentos vão ser postergados'. O problema é que a empresa não tem fluxo de caixa hoje. O que tem de efetivo que pode ser implementado hoje para as empresas resolverem seus problemas? Quase nada.

BBC News Brasil - O que preocupa mais nesse tipo de divergência de estratégia entre presidente e ministério da Saúde?

Roriz - Eu acho que a hora não é de divergência. Se existem dúvidas, acho que o presidente, ministro da Saúde, presidente do Supremo, Congresso, eles devem ter um discurso único para a população. Se tiverem divergências lá entre eles, eles que discutam. Mas quando vier a público, para não confundir a população, tragam o que é que a gente precisa fazer para passarmos por essa crise com o menor impacto possível na saúde das pessoas e na economia.

BBC News Brasil - O senhor está mais pessimista ou pessimista em relação ao Brasil nesta crise?

Roriz - Eu sou otimista que eu acho que temos que aprender com os erros. Nós erramos. E tem tempo para arrumar até, pelo que o próprio ministro da Saúde falou, nós vamos ter um colapso no fim de abril. E vai durar até setembro. Então temos tempo para ajustar nossas ações e discursos e precisamos de uma liderança firme que mostre para o país o rumo que está tomando e o que está fazendo para que passemos e cheguemos o mínimo machucado possível depois dessa crise.