Foco do BCE na inflação é questionado e meta de 2% vira sonho

Jeff Black e Catherine Bosley

(Bloomberg) -- Com o Banco Central Europeu prestes a descumprir sua meta de inflação pelo quarto ano seguido em 2016, as autoridades estão sendo atraídas a um debate indesejado a respeito de seu principal indicador.

A cúpula do BCE insiste que cumprirá sua função de manter a taxa anual de inflação pouco abaixo de 2 por cento a médio prazo, mesmo que essa meta se torne cada vez mais difícil de atingir. Com a recuperação econômica fraca, o declínio demográfico e a queda nos custos da energia, não há previsão de um retorno sustentado a esse nível até o fim de 2017.

Acadêmicos e economistas começam a argumentar que a busca por aumentos da taxa básica de inflação em um ambiente internacional desinflacionário é uma batalha perdida, mas há poucos indícios de uma mudança de postura do BCE, instituição com sede em Frankfurt. Em vez disso, a cúpula do banco, incluindo o presidente Mario Draghi, ressalta a possibilidade de ampliar os estímulos e está aumentando sutilmente o peso dos indicadores de inflação que desconsideram o impacto do petróleo.

"Como instituição, o BCE valoriza sua credibilidade mais do que qualquer outra coisa, por isso é improvável que eles mudem alguma coisa formalmente", disse Frederik Ducrozet, economista do Banque Pictet Cie SA em Genebra. "Dito isto, no contexto de preços tão baixos do petróleo, o foco recairá em grande parte sobre o núcleo da inflação e isso poderia até significar algum tipo de mudança não anunciada em sua função de reação".

Aceleração mais lenta

Dados com divulgação prevista para esta terça-feira mostrarão que a inflação foi de 0,4 por cento em dezembro, contra 0,2 por cento em novembro, segundo a estimativa média de uma pesquisa da Bloomberg. As autoridades previam uma recuperação nos próximos meses, mas é provável que uma nova queda nos preços do petróleo frustre essas projeções pelo menos parcialmente.

Os custos dos insumos e de produção nas fábricas da zona do euro continuaram caindo em dezembro, segundo uma pesquisa com gerentes de compras da Markit Economics. Ao mesmo tempo, a atividade industrial atingiu o ritmo mais rápido em 20 meses porque o aumento das novas encomendas estimulou a produção.

Os dados sobre a inflação alemã divulgados nesta segunda-feira ficaram abaixo das expectativas, o que ressalta os desafios do BCE. A taxa anual de aumentos nos preços da maior economia da zona do euro caiu de 0,3 por cento em novembro para 0,2 por cento em dezembro, disse o Escritório Federal de Estatísticas do país. Os economistas haviam previsto um aumento para 0,4 por cento. O índice alemão mais fraco é um mau presságio para a reanimação na zona do euro. Em vez da média de 1 por cento na zona do euro para 2016 que o BCE projetou em 3 de dezembro, analistas de bancos como Barclays Plc e Nomura International Plc preveem aumentos de apenas 0,5 por cento nos preços. As novas projeções do BCE são esperadas só em março.

A referência ao núcleo da inflação é uma forma de o BCE conseguir manter a atenção sobre o caminho "real" dos preços, embora o indicador não faça parte da interpretação de suas decisões. Como sinal de que a medida se tornou um estímulo à ação, Draghi fez referência a ela em 12 de novembro como parte da argumentação a favor de um pacote de estímulos aprovado no mês seguinte que aumentou as aquisições de ativos em pelo menos 360 bilhões de euros (US$ 391 bilhões).

Com isto, a cúpula do BCE está resistindo a qualquer argumento de que a definição de estabilidade de preços que está em vigor desde 2003 deveria estar sujeita a revisão. Para Yves Mersch, membro do Conselho Executivo, este é um debate para muito depois.

"Definitivamente, esta não é uma discussão a se fazer durante uma crise, e sim depois dela", disse ele em entrevista à International Bankers' Forum publicada em dezembro. "A definição da estabilidade de preços não pode ser vista como uma meta mutante".

O núcleo da inflação permaneceu em 0,9 por cento em novembro e projeta-se que tenha subido para 1 por cento no mês passado, segundo pesquisa da Bloomberg. A Markit publica as pesquisas dos gerentes de compras nesta segunda e na quarta-feira, fornecendo informações sobre a economia da zona formada por 19 países, seguida na quinta-feira pelo relatório de desemprego da Eurostat e pelo indicador de confiança econômica da Comissão Europeia.

 

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