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Economistas dão cinco passos para o Brasil sair da crise econômica

Josué Leonel

02/03/2016 16h33

(Bloomberg) -- O Brasil ainda tem tempo para escapar de um desastre, que poderia vir com um calote da dívida ou uma combinação de estagnação econômica com inflação muito maior do que a atual.

O ajuste fiscal é o principal consenso entre as ações para evitar este cenário, segundo economistas presentes em debate promovido pela agência de notícias Bloomberg e Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) em São Paulo.

O lado bom é que, se o governo conseguir melhorar as expectativas, o sinal estará verde para a retomada da queda dos juros, possivelmente no segundo semestre. Veja os cinco passos para o país sair da crise:

1. Ajuste fiscal

"O Brasil precisa de um novo pacto social. O Estado tem de caber em sua economia", disse Fernando Honorato, economista-chefe da Bradesco Asset Management. A reforma da Previdência e um teto para os gastos públicos seriam avanços importantes, segundo Carlos Kawall, economista do Banco Safra e ex-secretário do Tesouro.

Embora não considere haver risco de insolvência no curto prazo, o economista vê "dramaticidade" na situação fiscal. O deficit nominal em mais de 10% do PIB, estima o economista, representa 50% da arrecadação. "Este é o problema que temos hoje no Brasil."

"O Brasil precisa de esforço fiscal que coloque a dívida em trajetória sustentável de forma crível. E de uma política monetária de reafirmação dos compromissos com a meta de inflação, também de forma crível", disse Marcelo Carvalho, economista do BNP Paribas. "Em ambos os casos, precisamos de credibilidade."

2. Solução política

A implementação de cortes de despesas exige a solução da crise política, disse Carvalho. Ele lembra que, ao contrário de outras crises vividas pelo país, hoje não há espaço para elevar a carga tributária, que já é muito alta. Sem governabilidade, é impossível qualquer equipe econômica superar a crise, afirma Kawall.

Embora as investigações da Lava Jato tragam incertezas no cenário político, Luiz Fernando Figueiredo, sócio e CEO da Mauá Capital e ex-diretor do BC, destaca a importância do combate à corrupção, que está dando uma "pancada" na impunidade.

"O que está acontecendo com a Lava Jato do ponto de vista institucional é de se tirar o chapéu. O processo é dolorido, a incerteza de curto prazo é enorme, mas no longo prazo é muito bom para o país", disse Figueiredo.

3. Petrobras

O CEO da Mauá sugere uma capitalização da estatal e que seja feita logo, em um plano de um, dois ou três anos, em até R$ 100 bilhões. "Pode ser via BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social), faz de uma maneira que seja razoável, mas capitalize a empresa", disse Figueiredo.

"Todo mundo sabe que Petrobras terá de ser capitalizada em algum momento, só que cada dia que passa isso fica mais caro", disse Figueiredo. A capitalização, segundo o economista, ajudaria a baratear o custo da dívida não apenas da empresa, mas também do Brasil. A estatal sairia de um "equilíbrio ruim" para um equilíbrio mais positivo.

Carvalho, do BNP, observa que a crise da Petrobras afeta a economia brasileira por três canais: pelos preços dos combustíveis, que precisam permanecer altos mesmo com o petróleo em queda no exterior; pela política fiscal, pois se houver capitalização a dívida do governo tende a aumentar; e pela queda dos investimentos da estatal, que afeta toda a cadeia de petróleo e a taxa de investimentos na economia.

4. Queda da inflação e dos juros 

O BC deve manter o juro estável no curto prazo, enquanto aguarda uma melhora das expectativas inflacionárias. No segundo semestre, mesmo quem vê espaço para retomada do corte da Selic (taxa básica de juros) o condiciona a fatores como a queda das projeções de inflação e à melhora fiscal, além de um câmbio comportado.

Kawall, do Safra, prevê dois cortes de 0,5 ponto percentual da Selic no final do ano. A inflação de alimentos, que "está melhorando", e a mudança da bandeira tarifária de energia podem ajudar o BC.

A inflação também deve cair junto com o dólar, que poderia voltar a R$ 3,50 em caso de uma "união política, com ou sem impeachment", que faria agenda de reformas andar, diz o economista. Ele adverte, porém, que uma radicalização do cenário poderia levar o dólar a R$ 5. No mercado de juros futuros, os contratos já precificam a possibilidade de cortes no segundo semestre.

5. Abertura da economia

Kawall, do Safra, defende uma "abertura comercial agressiva", com acordos bilaterais. "Nós ficamos para trás nisso", disse Kawall, que ainda cita a reforma trabalhista e a desindexação do orçamento entre as reformas necessárias.

Para Honorato, da BRAM, além da abertura da economia, o Brasil precisa retomar uma agenda "micro", com a busca de padrões de excelência, como os da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), para o ambiente de negócios.

(Com a colaboração de Filipe Pacheco e Marisa Castellani)

Entenda o ajuste fiscal do governo

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