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Louca por carne, Argentina se prepara para situação impensável

Pablo González

10/03/2016 08h39

(Bloomberg) -- A carne bovina atualmente está tão cara na Argentina, país que chegou a ser o terceiro maior exportador do mundo, que os abatedouros estão prestes a começar a importar gado de países vizinhos pela primeira vez em quase duas décadas.

Trata-se de uma grande mudança para a população que come mais carne per capita do que qualquer outra, em um país onde a carne virou parte da identidade nacional, como o tango ou o futebol na Copa do Mundo. Os custos crescentes provocaram algo praticamente impensável há uma década: a demanda por carne bovina está em queda e os consumidores estão optando por carne de frango ou de porco, mais baratas.

A indústria pecuária da Argentina -- terceira maior exportadora do mundo há uma década -- foi abalada pelo fim dos controles de preços e pela desvalorização do peso durante o governo do presidente recém-eleito Mauricio Macri, que alterou as políticas de seus antecessores na tentativa de reanimar uma economia prejudicada por um calote do governo. Em dezembro, início do verão sul-americano, o preço da carne usada para fazer churrasco subiu 28%. Para reduzir a pressão, Macri autorizou importações de carne bovina e de gado de vizinhos como o Uruguai.

"Isso é uma vergonha -- um acontecimento inesperado, resultado de 12 anos de políticas de governo equivocadas", disse Ulises Forte, que tem 500 cabeças de gado em uma fazenda na província de La Pampa e é presidente do Instituto de Promoção da Carne Bovina da Argentina (IPCVA, na sigla em espanhol). "Felizmente, essas importações não serão tão altas".

Rebanho menor

Antes da chegada de Macri, os governos dos ex-presidentes Néstor Kirchner e, posteriormente, da esposa dele, Cristina Kirchner, desencorajaram as exportações de carne bovina com regras pensadas para manter uma grande oferta doméstica e os preços baixos. Em vez disso, os criadores perderam o incentivo para ampliar os rebanhos, que diminuíram das 60 milhões de cabeças de 2003 para 52 milhões no ano passado. Criar gado ficou muito mais caro do que usar a terra para cultivar soja, por isso muitos efetuaram a troca.

As exportações de carne bovina da Argentina, que em 2005 ficavam atrás apenas das do Brasil e da Austrália, caíram 69 por cento na década seguinte e ocuparam o 11º lugar no mundo no ano passado, segundo dados do Departamento da Agricultura dos EUA. O volume embarcado foi o menor em 11 anos, mostram dados do governo.

Para recuperar os incentivos para os criadores, o governo cancelou as restrições às exportações e desvalorizou o peso. A moeda argentina caiu 40 por cento em relação ao dólar desde 1º de dezembro, o que torna mais rentável para fazendeiros e criadores o embarque de produtos para o exterior para compradores que pagam em moeda dos EUA.

Dois anos

Mas isso não resolverá o problema do gado imediatamente. A expansão do rebanho poderá levar dois anos, porque menos vacas estão sendo enviadas ao abate e mais delas são usadas para reprodução. Após um período de gestação de nove meses, são necessários seis meses adicionais ou mais para criar bezerros com peso para o abate. A produção de carne bovina caiu 6 por cento em janeiro em relação a dezembro, para 215.000 toneladas, porque os criadores levaram menos animais ao mercado.

"Durante o kirchnerismo, os criadores desmantelaram seus rebanhos porque a carne bovina não era lucrativa", disse Miguel Schiariti, presidente da CICCRA, uma associação do setor. "Com essas novas regras, o negócio será lucrativo novamente, mas refazer um rebanho leva tempo e os consumidores terão que pagar mais caro por um produto que antes era subsidiado".

Quando a moeda se desvalorizou, o custo da carne para os consumidores domésticos subiu. O quilo da carne usada para churrasco subiu para 112,09 pesos (US$ 7,29) em dezembro, contra 87,68 pesos em novembro, mostram dados do setor. Isso desencorajou as compras em um país onde as pessoas comem 1,1 quilo de carne bovina por semana em média. A demanda pela carne teve uma queda de 7% em janeiro em relação ao mesmo mês de 2015.